O caso da feminista que quer emagrecer

O caso da feminista que quer emagrecer

por Evellyn Lima

Quando você se posiciona socialmente enquanto feminista o que não falta são questionamentos e vigilância comportamental vindos de todos em todos os espaços. “Mas você é feminista e se depila?  Então você não é feminista!”. Você é feminista e hétero? Não é feminista o suficiente.” “É feminista e quer casar e ter filhos? Devolve aqui a carteirinha de feminista”. Além de vir dos outros, às vezes esses questionamentos partem também de nós mesmas, como se fossemos incoerentes e/ou hipócritas. Mas é assim, é processo.

Assim, quando se é feminista e militante contra gordofobia, os questionamentos se avolumam. Se for feminista, militante contra a gordofobia e quer emagracer então, essa fiscalização se multiplica. Sou feminsita, militante antigordofobia e por enquanto não estou tentando emagracer. Veja, eu não disse que eu NÃO QUERO ou NÃO GOSTARIA porque quem nesta sociedade gordofóbica não é forçado a querer emagrecer, não é mesmo?! Mas por enquanto minhas prioridades e desejos são outros e na minha lista de prioridades emagrecer não aparece nem na décima posição, pois é um esforço que ainda não me parece vantajoso.

Mas é muito fácil entender porquê as pessoas, sejam elas feministas e militantes contra a gordofobia ou não, querem emagrecer. É muita coisa que se ganha só pelo fato de ser magra. Sendo magra eu não sou piada na televisão, na mesa do bar, na sala de casa. Sendo magra eu não vou me sentir a pior candidata naquela entrevista de emprego. Sendo magra eu vou ser paquerada na balada. Sendo magra talvez eu fique mais segura para aquele encontro com o crush do Tinder. Sendo magra eu não vou ficar com medo de não passar na catraca ou sentar naquela cadeira de plástico do bar. Sendo magra vou encontrar milhares de opções de roupa. Sendo magra eu não vou ter ninguém vigiando meu prato no selfservice ou no McDonalds. Sendo magra eu vou ser fotografada na balada. Enfim, acredito que já deu pra entender que a lista de benefícios sociais que se adquire quando se é magra ou quando se emagrece é gigantesca. Ou seja, quem não quer?

(Para além de tudo isso, lembre-se que Emagrecer não resolve seus problemas, como escreveu Marcella Alencar)

A psicóloga Marjorie Vicente diz que:

Há uma corrente de teóricos que acreditam que, com tantos avanços femininos (podemos acrescentar ‘feministas’ aqui, né?), a ditadura do corpo ideal é uma forma de ainda deter a mulher. E faz sentido, já que a maior parte acaba cedendo à pressão”.

E não se culpe por ceder. É o esperado. É o que todo mundo quer e trabalha para (todas as pessoas, todas as indústrias…). Esse vídeo aqui da Jout Jout fala um pouco sobre isso.

Mas ao ceder é importante entender o porquê, refletir e assumir suas escolhas. Vejo pessoas do movimento tentando emagrecer mas sempre de uma forma velada, tentando mascarar seu verdadeiro objetivo: “não, é só porque eu estava muito sendentária”, “não, é porque eu AMO malhar mesmo (pode ser, eu acredito)”, “estou fazendo só porque o médico pediu”, “é que estou trabalhando muito, nem percebi que estava emagrecendo”, “to bem chateada porque emagreci, sabe?”.

Todas essas afirmações podem ser realmente verdadeiras, mas quase sempre faz parte de um receio de dizer: SIM, sou FEMINISTA, luto contra a GORDOFOBIA e estou tentando EMAGRACER. Não tenham esse medo porque 1. Ninguém tem nada a ver com o que você faz ou deixa de fazer com o seu corpo. Isso é feminismo; 2. É totalmente compreensível toda mulher querer emagrecer, pois isso lhe dá um passaporte para ocupar um lugar social mais agradável. O magro ser o belo é construção social; 3. Assuma suas escolhas, sem medo. 4. Seja sincera com você e com os outros, é bem chato quando escutamos aquelas frases ali de cima apenas para tentar “não magoar a tadinha da gorda”.

 

 

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O que eu penso sobre gordofobia? Meu senso comum

O que eu penso sobre gordofobia? Meu senso comum

Por Laura Gomes 

Tenho visto várias garotas iniciando uma luta contra os padrões que a sociedade impõe em relação ao conceito de mulher idealmente bela. Esta mulher, em quase todas as suas versões, é magra. Então uma boa parcela da sociedade feminina fica fora desse padrão e parte dela resolveu se pronunciar contra isso e se posicionar de forma empoderada.

Primeiramente, eu acho que para o bem ou para o mal, tudo se constrói a partir de padrões. Muitos deles são injustos e cruéis, como o ideal de beleza feminina. Sempre tive a ligeira impressão que por trás de todo o discurso de que é imprescindível ser bela estava uma indústria que produzia aquilo que precisaríamos para tentar chegar a esse ideal. Tentar, nunca chegar. Porque se chegássemos, essa indústria morreria e então não faria sentido para ela vender qualquer coisa que faria suas consumidoras nunca mais voltarem. Sendo assim, é absurdo querer se submeter a esse padrão que a indústria nos impõe. Sim, a indústria. Porque muitos acham que em nossa sociedade contemporânea os padrões e necessariamente os preconceitos nascem no seio da sociedade, do inconsciente coletivo puro, e que a indústria apenas pega essa ideia e a vende. Para mim é exatamente o oposto.

É a indústria que cria o padrão e massifica a ideia basicamente em tudo que vivenciamos. O ideal de beleza feminina está em todas as ações das mais diversas indústrias, e essas ações inundam nosso dia a dia, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

E obviamente não é apenas esse conceito que a indústria produz, mas todos os padrões que acreditamos ser ideais, sobre qualquer coisa. Então eu parto desse princípio, dessa ideia de “deus vivo”. Tudo que nós acreditamos ser certo ou errado, feio ou bonito, bom ou mau, entre milhares de outras dicotomias, não foi a sociedade que nos impôs, foi a indústria, o comércio. Alguém quer nos levar a consumir determinados produtos, então eles criam os estereótipos, criam os padrões, massificam, põem em todo lugar, toda hora, nos bombardeiam da hora que a gente nasce até a hora que morremos e por fim acabamos conhecendo apenas isso como verdade.

Um exemplo muito cruel disso eu percebi quando passei um tempo vendo filmes de comédia romântica. Muitos filmes de comédia romântica, um atrás do outro. Me intrigava o como a história era exatamente a mesma e mais importante do que isso: como os ideais eram sempre os mesmos. A mulher está solteira e se preocupando por estar velha demais para encontrar “o amor” (ainda que velha demais signifique 30 anos). Se sente deprimida e miserável por ter seu próprio dinheiro, seu próprio apartamento, seu próprio carro, sua própria vida social agitada com diversos homens que ela julgam atraente. Porque ela SÓ tem isso. Tudo isso só estará completo se ela encontrar “o amor”. Resumindo, nada está completo, nada é bom o suficiente, nenhuma conquista lhe deixa plena se ela não encontrou um homem que, numa situação bem elaborada, fique de joelhos para ela e lhe abra uma caixinha aveludada preta, contendo dentro um enorme e brilhante solitário, do qual ela vai se gabar para as amigas assim que puder como se aquilo fosse a coisa mais especial que pode acontecer a uma garota.

A Tiffany’s agradece por associar, em qualquer filme ou série, seus lindos solitários à prova de que um cara lhe ama, de que você é a garota mais especial do mundo. Por associar que uma mulher só pode ser completa com seus reluzentes solitários. E óbvio que não para por aí. Quem casa, quer casa. De preferência grande, espaçosa, com cercas brancas e gramado verde. E acima de tudo, cara. Cara ao ponto de você fazer uma hipoteca para carregar por toda a vida. E essa casa não ficará vazia. Existe uma infinidade de produtos que essa casa, que representa o ideal da mulher completa e realmente realizada.

Eu assisti dezenas de comédias românticas e em todas, sem exceção, é isso. Chegou um momento que eu, mesmo me sentindo jovem demais para casar, me senti miserável por não ter aquele homem de joelhos com um lindo anel para me fazer especial. E logo em seguida eu pensei “que porra é essa??”. Isso é tudo mentira, isso é tudo lavagem cerebral. E pior, isso faz as pessoas se sentirem tristes, deprimidas, miseráveis, porque aquele comercial não aconteceu com elas, e provavelmente nunca vai acontecer. Porque é um comercial.

O que isso tem a ver com gordofobia? Tudo! Outros gêneros de filmes, séries, comerciais, tudo que vemos e que de tanto vermos, fazemos associações com coisas prazerosas, nos ensinam que ser gordo é horrível, monstruoso. Quem não se lembra de um clássico como Professor Aloprado? O que nos ensinaram desde sempre é que gordo é nojento, fede, é repugnante, e que tocar num gordo é mesmo que mergulhar numa piscina de gordura pegajosa e viscosa. A pergunta é: de onde tiraram essa ideia? E uma pergunta melhor: o que se ganha se propagando essa ideia?

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Visitei recentemente uma médica ótima, bastante profissional e informada. Eu já havia lido sobre isso, mas ela confirmou com mais detalhes que a forma como nós comemos foi decidida há algumas décadas atrás. Para baratear ao máximo os custos na produção de alimentos, nos ensinaram a consumir mais carboidrato do que qualquer outro tipo de alimento, porque carboidratos são fontes fáceis de energia e é algo fácil e barato de produzir aos montes. E melhor! Existem muitas formas de “enfeitar” um prato composto em sua maior parte de carboidratos e vendê-lo como se fosse uma grande, imensa e cara fonte de prazer imediato. Resumindo, a indústria nos viciou em carboidratos. As pessoas no geral não morrem mais de fome, elas morrem pelo o oposto, por comer demais.

Só tem um pequeno detalhe: carboidrato engorda, e muito! Se ele não for consumido em forma de energia ele se deposita no corpo em forma de gordura. Mas a indústria não se importa com os alarmantes e crescentes índices de obesidade em todas as faixas etárias. Primeiro porque produzir obesidade dá muito dinheiro. Segundo porque outra indústria nos oferece (sempre a um alto custo) todo tipo de produtos para emagrecermos. Como costumo dizer, tem alguém ganhando na entrada e tem alguém ganhando na saída. Ou para ser mais clara, somos feitos de otários na entrada e na saída.

Nenhum desses produtos para emagrecimento realmente funciona, mas eles têm um aparato de marketing gigantesco. Tem seus próprios comerciais mostrando resultados milagrosos, bastando apenas você querer, e pagar. Mas eles têm um aparato muito maior do que isso: a ideia difundida em tudo que vemos desde sempre de que gordos são feios, magros são bonitos. Gordos são repulsivos, magros são veneráveis.

Se você ligar a tv da hora que acorda e assiste até a hora de ir dormir verá que existe propagandas brutalmente atraentes para: 1 – você comer mais e coisas cada vez mais deliciosamente engordativas (mesmo que isso garanta não só a obesidade como infartos, derrames, diabetes, entre outros), e 2 – lhe fazer sentir um lixo humano por não ter um corpo magro e atlético. Isso parece imensamente contraditório? Sim. Mas essa é a mágica de quem ganha dinheiro. Eles arranjam o problema para poder vender a solução.

E mais uma vez se pergunta: o que a gordofobia tem a ver com esse monte de informação? As pessoas gordas são os bodes expiatórios para que a indústria nunca pare de ganhar muito dinheiro. Não parece absolutamente cruel que para que pessoas ganhem muito dinheiro, outras tenham que sofrer muito a vida inteira, tentando se encaixar, tentando ser o que ela não é, mas que precisa ser, porque todo mundo, hipnotizado pela massiva, contínua e persistente propaganda, olha para ela como se fosse uma aberração? Isso parece justo? Vamos realmente nos deixar manipular assim?

E sobre a mulher gorda, Deus!, isso recai com uma força muito maior. Porque o que nos vendem é que a mulher é o centro de quase toda a beleza e sensualidade que há no mundo. O que nos vendem é que uma garota nos padrões consegue qualquer coisa. Então a mulher gorda é alvo de todo tipo de agressão que alguém resolveu decidir, arbitrariamente, que ela merecia. Ela está sendo sempre preterida nas relações amorosas, ela sempre é vista como a mulher que não tem amor próprio, que nunca vai conseguir um homem que a ame e a deseje, a não ser que seja por um bizarro fetiche.

A gordofobia, a meu ver, é uma forma vil e desumana de manipular a sociedade e fazer com que se consuma enlouquecidamente todo tipo de produto, gerando assim riquezas para pessoas que no fim das contas não dão à mínima se as pessoas são trucidadas emocionalmente por isso, se elas se machucam e morrem por causa disso. A luta contra a gordofobia é, portanto, uma luta extremamente válida, que visa em primeira instância acabar com essa perseguição imbecil e impensada contra pessoas gordas, mas num futuro fazer toda a sociedade perceber que é apenas uma marionete para que um grupo pequeno e seleto tire dela o máximo possível de dinheiro.

LEMBREM-SE:

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SOMOS DIVAS! NASCEMOS PARA BRILHAR! Foto: Silvana Denker 

 

Superando medos (e pessoas imbecis)

Superando medos (e pessoas imbecis)

O medo é um mecanismo de defesa do corpo pela consciência do perigo, um temor e um receio de algo. E esse medo, a maioria das vezes, é provocado justamente por PESSOAS. Seja pelo medo da violência física, ou então pelo medo de coisas que parecem “menores”, mas que provocam um impacto psicológico imenso causado pela falta de empatia ou mesmo pela falta de noção da galera.

E muitas vezes ter autoestima é justamente confrontar medos diários, que nos assombram por onde andamos e com quem nós convivemos e que, por vezes, fazem com que nós nos sintamos pessoas diminuídas de valor pelo único motivo de ter características que destoam do que é entendido como “normal”. Esses dias tive que me colocar diante de uma dessas situações. Algo que me fez rememorar medos antigos e inseguranças pelas quais nunca mais havia passado. E isso aconteceu ao voltar a cursar uma disciplina com um professor de sociologia com o qual já havia tido aula e com o qual não tive exatamente uma boa experiência (apesar de só perceber a violência que sofria anos após o ocorrido).as gordas

Segue um diálogo que um amigo me contou quando cogitei fazer cirurgia e que me matou durante anos:

Professor: E Marcella, hein? Ela é obesa né, cara! Ela não pensa em fazer nada não?

Amigo: Sim, ela pensa em botar um balão.

Professor: Um balão? Como é isso, hein? Além de gorda vai voar? Rsss

Amigo: Não, um balão no estômago, que substitui a bariátrica

Professor: Tô brincando, cara, haha

Esta situação me remete às violências simbólicas, que não adquirem forma necessariamente física (bater ou xingar alguém), mas que se apoiam no reconhecimento de uma determinada imposição de lugar privilegiado por parte de quem a pratica: “Ei, você não vale isso que você acha que vale. Eu valho mais” é o que a mensagem subliminar da violência simbólica quer passar.

 E essa violência acontece com muita gente JUSTAMENTE em lugares que não deveriam acontecer: pessoas sofrem dentro de ambientes tanto informais, como na família, relacionamentos, etc; como nos “formais”, na universidade, por exemplo, que foi este caso acima. Ambientes que, em muitos momentos, se destinam justamente a tentar diminuir os abismos sociais no intuito de entender as diferenças e entender as pessoas enquanto PESSOAS, na realidade só reforçam uma série de relações que estão por trás dessa lógica do poder. E também está dentro dessa lógica do poder a relação do professor/aluno, que era o que sentia constantemente dentro de sala de aula, inclusive sendo colocada em comparação com outras alunas. Estas violências reverberam em outras instâncias. Elas não falam apenas do corpo, elas falam de tudo e implicam numa série de consequências cotidianas e políticas.

A violência tem cor, gênero, classe e também adquire FORMA. O gordo tende, em diversas situações, a sentir-se menos capaz unicamente por ser gordo. O preconceito e a violência pode não assumir a forma de palavras, como aconteceu dessa vez, mas assume forma de olhares, risos, situações, dentre outros modos de diminuir alguém. E lidar com essa violência é lidar com o medo, lidar com o medo da gordofobia, algo que exclui e entende alguém como não pertencente a determinado ambiente pelo tamanho das roupas.gorda

Ser gorda, ser negra, ser uma pessoa com deficiência, ser pobre, ou ser alguém que foge das normas sociais é ser alguém que fica diariamente superando medos que dizem o tempo todo que não se deve ser quem se é, que não se deve estar ali, que você DEVE mudar. E não é preciso mudar para superar esses medos. Na realidade os OUTROS é que precisam mudar. E superar os medos tem a ver com enfrentar e tentar mudar essas situações. Quando o professor falou: “Ela não vai fazer nada?”,em relação a ser gorda, hoje em dia eu digo que tentarei sim mudar algumas coisas, mas no intuito de exigir respeito das pessoas, a começar por este senhor, que se aproveita de seu status social para constranger os aluno(a)s. Não deixem que estas coisas aconteçam. Resistam e superem seus medos.

Histórias do amor e do corpo: Sobre um homem que amei

Histórias do amor e do corpo: Sobre um homem que amei

Thamires Thamares

Eu amei um homem. Amei-o da forma mais bonita, platônica e triste que se pode imaginar. Chorei, escrevi cartas que nunca foram entregues, perdoei suas traições, vivi… e morri mais que vivi durante o tempo em que estivemos juntos. Eu amei um homem. Amei com a alma, a mesma alma dilacerada com palavras. A mesma alma que sangrava toda vez que eu enviava mensagem dizendo estar com saudade e recebia indiferença como resposta.

Eu amei um homem que se dizia perfeito. Amei um homem trabalhador, estudioso, atencioso. Amei um homem que cozinhava pra mim, que comprava remédio,que fazia coisas normais que qualquer pessoa faria, mas que eu considerava “especiais”. Eu amei um homem que tinha pelúcias em casa, um homem sensível, um homem de voz mansa e rouca.

O homem que eu amei não amava o meu corpo. O homem que eu amei não gostava de mulheres fora

Foto: Beatriz Alves
Foto: Beatriz Alves

do padrão, sem barriga chapada e pernas torneadas. O homem que eu amei ligava pra dizer que eu estava gorda, que precisava emagrecer e que devia pensar na minha saúde.

O homem que eu amei adorava destacar a estética da sua ex-namorada, inclusive, ficou com ela inúmeras vezes enquanto estava comigo. O homem que eu amava afirmou que preferia quando eu era magra, quando pesava 45 kilos, pois parecia mais com uma boneca, agora, apesar do rosto angelical, eu já não pareço mais uma Barbie.

O homem que eu amei reclamava das roupas que eu usava, dizia que minhas pernas tinham celulite, apontava minhas estrias, reclamava das fotos de biquíni nas redes sociais. O homem que eu amava sugeria que eu me alimentasse melhor, que fosse a academia perder peso e dizia que como jornalista eu devia ser magra.

O Homem que eu amei tinha um corpo atlético, era historiador e usou o discurso de preocupado com o meu futuro para reafirmar a necessidade de estar sempre esbelta.

O homem que eu amei me colocou em frente a um espelho que tinha na casa dele. Pediu que eu me avaliasse e com sua mão apontou cada “imperfeição” do meu corpo. Apertou as gordurinhas laterais, a barriga, as pernas e comentou que tudo aquilo poderia ser melhorado, bastava força de vontade.

O homem que eu amei sabia da minha rotina de sair as cinco da manhã e só voltar as 19h, sabia que eu trabalhava o dia todo, que na maioria das vezes não conseguia seguir dietas e horários. O homem que eu amei me trazia chocolates, oferecia vinho e ainda assim insistia em me chamar de gorda e querer que eu seguisse os padrões de beleza cruéis impostos pela sociedade.

O homem que eu amei brigava com minhas amigas nas redes sociais quando as mesmas me marcavam em publicações de empoderamento. O homem que eu amava dizia que a culpa por a gente não ter dado certo era minha por não saber respeitar o tempo dele. O homem que eu amei chamava pra conversar durante o São João para fazer um acordo de que deveríamos curtir a festa e não nos apegarmos. O homem que eu amei ficava com as mulheres mais magras e me contava. Dizia que estava com o ego inflado por conseguir ficar com uma “novinha” de 18 anos. O homem que eu amei dizia que não se importava com o atual da ex-dele por que ele era gordo. O homem que eu amei se vangloriava pelas mulheres bonitas que havia pegado . O homem que eu amei não suportava o fato de na frente dele eu mostrar segurança mesmo com todo o seu histórico de gordofobia e machismo. O homem que eu amei me apontou como incompetente por causa de um desabafo que fiz nas redes sociais quando soube que um policial militar queria dopar e estuprar as filhas de sua amante com a permissão dela alegando ser uma prova de amor. O homem que eu amei disse que eu não devia julgar um “pedófilo inocente” e devia medir as palavras pois a mesma polícia que eu criticava eu procurava para obter informações para o jornal que eu produzo. O homem que eu amei me deixou cicatrizes e alguns traumas, mas me mostrou o quanto é importante lutar contra o machismo arraigado e ainda mais:o quanto eu não preciso de um homem que me menospreze e que não ama o meu corpo. O homem que eu amei, eu já não amo mais…

Emagrecer não resolve seus problemas

Emagrecer não resolve seus problemas

Esse texto não nasceu com o intuito de desencorajar ninguém a emagrecer. Ele é mais um relato de experiência, algo que venho passando desde que perdi peso e é um texto que eu desenhei há alguns meses na cabeça, mas só escrevi agora encorajada pela publicação de Marco Magoga (LEIA AQUI), que, quando li, me senti muito contemplada. Então iniciarei contando um pouco do meu processo.

Desde que me vejo e entendo por gente fui gorda e, como acontece com a maioria das pessoas gordas pressionadas socialmente, passei a vida em tentativas (falhas) de fazer dietas. Sempre perdia 10kg, mas engordava o dobro. Nunca foi por falta de “força de vontade”, como muitos dizem. Outros motivos e vivências sempre me levaram a permanecer gorda. Em 2011, com 130kg e usando tamanho 56, iniciei uma nova tentativa de emagrecer, de modo turbulento, em meio a uma tentativa forçada dos meus pais em me enviar para um spa: sempre havia discussões com meu pai e minha mãe em que eles diziam como eu deveria emagrecer com aquele velho discurso: “É pela sua saúde”. É verdade. Talvez fosse pela minha saúde mental, porque é de adoecer qualquer cidadão a quantidade de críticas e opiniões (recheadas de gordofobia) que a pessoa gorda acaba recebendo apenas pelo simples fato de existir.

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Depois de um ano de dieta emagreci 55kg e alcancei um padrão socialmente aceito. Atualmente sou lida como alguém “magra”, não tenho meu corpo patologizado e nem medicalizado. Como relatei uma vez aqui nesse link, hoje em dia tenho um corpo “desejável” e eu entendo esse desejo como algo atrelado à ideia de um corpo mais perto da norma que foi estabelecida para os corpos, menos invisível socialmente, mais pessoas me elogiam, mais homens me paqueram… Enfim, NOSSA! Que ótimo, não? Imaginar que aquilo tudo que você viveu com seu “eu gordo” some, você é agora uma nova pessoa… Lamento informar que não é assim que funciona.

Minha vida é feita de vivências, discursos, sensações, rastros, que foram construídos ao longo de toda uma vida. E as experiências passadas comportam quem eu sou hoje. Muitas pessoas sempre me questionam motivos pra minha insegurança, tentam compreender minha baixa autoestima, afinal eu não sou mais gorda, não é? Além de ser um problema pensar que apenas pessoas gordas tem problemas com autoestima, é tão problemático pensar também que as memórias se apagam na hora em que se emagrece.

O que sinto que aconteceu é que tiraram de mim uma “capa protetora”, um lugar de conforto, em que eu podia expressar minha insegurança, meus problemas, pois afinal de contas, eu era gorda. E ser gorda é um problema pra sociedade, logo, se torna compreensível que em uma sociedade gordofóbica pessoas gordas tenham problemas (quando, na realidade, são as outras pessoas quem causam, na maioria das vezes, esses problemas).

Depois de muitos tapas na cara, entendi porque sempre engordava novamente. Não me ensinaram a como ser magra, assim como não ensinam ninguém a isso. Ninguém está preocupado com a “ressocialização” das pessoas que foram gordas. Ou você É magra ou você não É. As pessoas não entendem a transitoriedade como um lugar de falar.  Ninguém É em absoluto algo. Estamos o tempo todo falando e dizendo que nós SOMOS isso ou aquilo. O verbo SER é diferente do ESTAR. Nesse caso, nós não somos, nós apenas estamos, assim como nós estamos no mundo apenas de passagem.

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E ser lida como magra não me faz me enxergar como uma 24h do dia. Então vivo essa incoerência entre como as pessoas enxergam meu corpo e como eu penso sobre mim. Ainda querem me forçar a me ver como as outras pessoas me enxergam “Você não deveria mais pensar assim, você é outra pessoa”. Mas eu não sou outra pessoa. Eu sou a mesma Marcella e compartilho as mesmas experiências que essa Marcella antiga que tanto falam.

Esses dias fui a um bar e peguei uma cadeira e, na hora em que sentei, ouvi um estalo e logo me imaginei quebrando-a. Às vezes me esqueço que hoje em dia não tenho problemas com acessibilidade ou com médicos ou com roupas, e que me adaptei fisicamente ao mundo que nos força a ser pessoas magras. Diversas vezes a insegurança ainda me faz acreditar precisar fazer mais esforço que o necessário para alcançar determinados objetivos em que meu corpo é exposto, como é no caso de uma paquera, por exemplo, que é algo muito mais fácil para quem é magro. E acreditem, meus problemas não cessaram quando eu emagreci, inclusive me perdi em diversos momentos, tentando entender quem eu era agora, quando descobri que sou o que fui e que me construo diariamente. Emagrecer não resolve seus problemas, pode, inclusive, potencializá-los, gerando transtornos psicológicos porque você pode não conseguir sustentar o corpo magro que tanto foi exigido de você: “Manter-se magro pode ser uma pressão tão aterrorizante quanto tornar-se magro quando a magreza é colocada como único meio possível de vida.” (Marco Magoga)

Minha proposta aqui não é desestimular alguém que queira emagrecer. Mas é de alertar que é preciso se entender e entender os motivos pelos quais quer perder peso, para poder entrar em um processo que não ocorra de forma traumática. Não entre nessa de que você LUTA contra o peso ou contra seu atual corpo, afinal de contas, ele não é seu inimigo,
ele é seu aliado, seu templo e seu lugar.
Você é o seu corpo. Soa clichê, mas é importante aprender a se amar da forma que se é, porque os problemas atuais não serão perdidos iguais aos quilos. Eles podem, inclusive se potencializar ou surgir outros problemas, caso você não pare de lutar contra si mesma.

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Gordofobia e transtorno bipolar: um relato de Erika Morais

Gordofobia e transtorno bipolar: um relato de Erika Morais

Gostaria de compartilhar minha história com vocês, mas vou tentar resumir. Tenho 32 anos, sou casada com uma pessoa exemplar, meu anjo da guarda, tenho uma família que me apoia, tudo perfeito, se não fosse por um detalhe: tenho transtorno bipolar.

Sei que o foco aqui é o nosso corpo, mas precisei colocar isso pra poderem entender lá na frente. Sempre fui uma menina gorda, sofria o que hoje chamam de bullyng, mas tinha lá minhas amiguinhas. Nunca havia beijado até os 16 anos e, quando dei o meu primeiro beijo e comecei a namorar, minha mãe disse: você não tem capacidade de arrumar coisa melhor mesmo, né? Quando fiz 18 anos, meu corpo começou a mudar e dos meus 80 fui para os 60 kg, mas me achava gorda, fiquei com aquela minha imagem antiga na cabeça, então não conseguia me soltar, me arrumar, essas coisas. Tive muitos relacionamentos frustrados, alguns percalços e, depois que minha avó morreu em 2006, entrei em depressão. Comecei a tomar antidepressivos e melhorei. O problema é que melhorei demais. Gastei R$ 10.000,00 no cartão de crédito em uma semana, cada dia saía com uma pessoa diferente pra ir pro motel, estava me sentindo uma super mulher.

Na doença que eu tenho, isso chama-se euforia ou mania. Só que como a doença é cíclica, entrei em depressão novamente. Só procurava os médicos quando estava pra baixo, obviamente. Foi então que me diagnosticaram não com depressão somente, e sim com transtorno bipolar. Desde 2007 faço tratamento pra esse transtorno mental que se tornou um transtorno físico. Graças aos remédios, comecei a engordar e cheguei nos 85 kg. Fiz a burrice de parar com a medicação quando achei que estava boa, entrei numa academia, fiz reeducação alimentar e cheguei nos 59 kg, até fui capa daquela revista Sou Mais Eu da Abril. Novamente deprimida, voltei com a medicação em 2009 e então não parei mais. Ocorreram muitas oscilações no meu peso, mas definitivamente essa foi a mais significante: hoje estou com 120 kg. Não consigo sair pra andar, correr, enfim, fazer nada porque a doença me limita demais. Sempre fui gorda, mas dessa vez meu peso aumentou demais por causa dos remédios e não tenho previsão de quando vou emagrecer novamente, pois isso depende da diminuição dos remédios (hoje tomo 10 comprimidos, 5 tipos de remédio) ou sua suspensão, o que não é possível pois é um tratamento para vida inteira. Vejo gordas lindas, que se amam e não as recrimino por se amarem porque realmente também as acho lindas. Mas não consigo me aceitar assim. Não me acho uma pessoa feia, mas acho que nem é a questão do peso, e sim a questão da minha auto estima ser muito, muito baixa. Como disse, nem magra eu estava satisfeita. Mas como doente mental sofro muito preconceito, daí junta com ser gorda, por isso já fui chamada de preguiçosa, de relaxada, até de suja, porque transpiro demais. Ninguém senta do meu lado no ônibus porque simplesmente não cabe. Meu marido, tadinho, faz um sacrifício e fica todo apertadinho do meu lado. Diz que eu sou linda, que me ama como eu sou, mas nós que temos que nos amar, não é mesmo? Eu já estou passando com muita dificuldade na catraca do ônibus e esses dias fiquei presa, as pessoas xingando atrás de mim porque queriam entrar e eu não conseguia voltar porque a catraca trava, só vai pra frente. Depois de me machucar toda, consegui passar. Desço dele com dificuldade e medo, pois já caí várias vezes e ninguém veio me ajudar, passam e ficam olhando com aquela cara de “quem manda ser gorda”.

Os meus psiquiatras disseram que no momento preciso escolher entre ficar boa da cabeça ou do corpo, mas sem a cabeça no lugar não somos nada, por isso optei por continuar com meu tratamento. Fico muito, muito mal sem os remédios, oscilando entre euforia e depressão, às vezes até no mesmo dia. Enfim, esse é um resumo da minha história. Não sou uma gorda infeliz e nem posso cogitar isso, já que tenho uma família que me ama, um marido bondoso e amável e poucos amigos, mas que me fazem feliz. Mas quanto ao meu corpo sou indiferente, não me odeio mas também não me amo. Eu sempre trabalhei de social, muito bem arrumada. Hoje não aguento colocar um salto, não acho roupas sociais ou roupas bonitas que sejam baratas e devido a minha doença não estou trabalhando, por isso também perdi o interesse em me arrumar. Quando saio, visto o que é mais largo e confortável, geralmente de tênis, mas até o tênis está apertando o meu pé. Sapatilhas não entram, mesmo comprando números maiores. É vou vivendo essa vida, estabilizada pelos remédios mas sem maiores felicidades.

Desculpe o desabafo. Obrigada por proporcionar isso.

Assaduras? Temos dicas!

Assaduras? Temos dicas!

Não precisa ser gorda para saber do que vamos falar. Basta ter pernas grossas para saber o incômodo que é ter as coxas roçando uma na outra e terminar o dia com assaduras. Coxas grossas são lindas <3, mas assaduras não. Além delas, pode acontecer também um escurecimento na parte interna das coxas próximo à virilha, o que também não é tão legal, né? Mas também não é o fim do mundo e tem solução.

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                                           Coxas livres! \o/

Pesquisamos algumas dicas para evitar assaduras e clarear a pele: 

1. Óleos

A dica principal é: usa algo que evite o atrito. A partir dela, podemos usar vários itens, e o óleo é um deles, pois forma uma camada de proteção. Você pode usar óleo corporal, óleo de girassol, protetor solar em óleo, entre outros. Marcas: Boticário, Natura, Jonhson & Jonhson.

2. Talcos

Seguindo a mesma regra dos óleos, os talcos também são uma boa opção, pois seca a pela e minimiza o atrito, entretanto não é tão durável e precisar sem reaplicado algumas vezes ao dia. A maizena que você tem na cozinha pode servir como talco, ou você pode comprar talco em creme. Marca: Granado.

3. Roupas para evitar o atrito

O atrito acontece principalmente quando usamos saias e vestidos, por isso, aconselhamos a usar por baixo dessas roupas, uma bermuda modeladora, um short fininho, meia feias, ou seja, uma peça de roupa que dificulte o contato e o atrito na parte interna das coxas.

4. Desodorante

Esta é uma alternativa mais prática e simples, pois é algo que a gente sempre tem em casa. Entretanto, o desodorante pode causar irritação e ressacar bastante a pele, então usem com cuidado. Pode ser aerosol ou em creme.

5. Pomadas

Além de evitar o atrito, e consequentemente as assaduras, esta opção também pode clarear a pele escurecida. Pomadas como Bepantol, Hipogloss, Nebacetin e a pasta d’água são as mais citadas.

6. Silicone para cabelos 

Parecido com os óleos, o silicone irá ter a mesma função de criar uma camada sob pele e proteger do atrito.

7. Vaselina

Uma das mais queridas, a vaselina pode ser encontrada em pasta ou em geleia e promete maravilhas.

ATENÇÃO: Realizamos este apanhando através da internet, em sites e grupos nas redes socais, e não testamos todas as dicas, por isso, levem em consideração questões como alergia e irritações que podem surgir. 

Contem pra gente as suas dicas e digam o que acharam destas que trouxemos. 😀