Histórias do amor e do corpo: Sobre um homem que amei

Histórias do amor e do corpo: Sobre um homem que amei

Thamires Thamares

Eu amei um homem. Amei-o da forma mais bonita, platônica e triste que se pode imaginar. Chorei, escrevi cartas que nunca foram entregues, perdoei suas traições, vivi… e morri mais que vivi durante o tempo em que estivemos juntos. Eu amei um homem. Amei com a alma, a mesma alma dilacerada com palavras. A mesma alma que sangrava toda vez que eu enviava mensagem dizendo estar com saudade e recebia indiferença como resposta.

Eu amei um homem que se dizia perfeito. Amei um homem trabalhador, estudioso, atencioso. Amei um homem que cozinhava pra mim, que comprava remédio,que fazia coisas normais que qualquer pessoa faria, mas que eu considerava “especiais”. Eu amei um homem que tinha pelúcias em casa, um homem sensível, um homem de voz mansa e rouca.

O homem que eu amei não amava o meu corpo. O homem que eu amei não gostava de mulheres fora

Foto: Beatriz Alves
Foto: Beatriz Alves

do padrão, sem barriga chapada e pernas torneadas. O homem que eu amei ligava pra dizer que eu estava gorda, que precisava emagrecer e que devia pensar na minha saúde.

O homem que eu amei adorava destacar a estética da sua ex-namorada, inclusive, ficou com ela inúmeras vezes enquanto estava comigo. O homem que eu amava afirmou que preferia quando eu era magra, quando pesava 45 kilos, pois parecia mais com uma boneca, agora, apesar do rosto angelical, eu já não pareço mais uma Barbie.

O homem que eu amei reclamava das roupas que eu usava, dizia que minhas pernas tinham celulite, apontava minhas estrias, reclamava das fotos de biquíni nas redes sociais. O homem que eu amava sugeria que eu me alimentasse melhor, que fosse a academia perder peso e dizia que como jornalista eu devia ser magra.

O Homem que eu amei tinha um corpo atlético, era historiador e usou o discurso de preocupado com o meu futuro para reafirmar a necessidade de estar sempre esbelta.

O homem que eu amei me colocou em frente a um espelho que tinha na casa dele. Pediu que eu me avaliasse e com sua mão apontou cada “imperfeição” do meu corpo. Apertou as gordurinhas laterais, a barriga, as pernas e comentou que tudo aquilo poderia ser melhorado, bastava força de vontade.

O homem que eu amei sabia da minha rotina de sair as cinco da manhã e só voltar as 19h, sabia que eu trabalhava o dia todo, que na maioria das vezes não conseguia seguir dietas e horários. O homem que eu amei me trazia chocolates, oferecia vinho e ainda assim insistia em me chamar de gorda e querer que eu seguisse os padrões de beleza cruéis impostos pela sociedade.

O homem que eu amei brigava com minhas amigas nas redes sociais quando as mesmas me marcavam em publicações de empoderamento. O homem que eu amava dizia que a culpa por a gente não ter dado certo era minha por não saber respeitar o tempo dele. O homem que eu amei chamava pra conversar durante o São João para fazer um acordo de que deveríamos curtir a festa e não nos apegarmos. O homem que eu amei ficava com as mulheres mais magras e me contava. Dizia que estava com o ego inflado por conseguir ficar com uma “novinha” de 18 anos. O homem que eu amei dizia que não se importava com o atual da ex-dele por que ele era gordo. O homem que eu amei se vangloriava pelas mulheres bonitas que havia pegado . O homem que eu amei não suportava o fato de na frente dele eu mostrar segurança mesmo com todo o seu histórico de gordofobia e machismo. O homem que eu amei me apontou como incompetente por causa de um desabafo que fiz nas redes sociais quando soube que um policial militar queria dopar e estuprar as filhas de sua amante com a permissão dela alegando ser uma prova de amor. O homem que eu amei disse que eu não devia julgar um “pedófilo inocente” e devia medir as palavras pois a mesma polícia que eu criticava eu procurava para obter informações para o jornal que eu produzo. O homem que eu amei me deixou cicatrizes e alguns traumas, mas me mostrou o quanto é importante lutar contra o machismo arraigado e ainda mais:o quanto eu não preciso de um homem que me menospreze e que não ama o meu corpo. O homem que eu amei, eu já não amo mais…

Emagrecer não resolve seus problemas

Emagrecer não resolve seus problemas

Esse texto não nasceu com o intuito de desencorajar ninguém a emagrecer. Ele é mais um relato de experiência, algo que venho passando desde que perdi peso e é um texto que eu desenhei há alguns meses na cabeça, mas só escrevi agora encorajada pela publicação de Marco Magoga (LEIA AQUI), que, quando li, me senti muito contemplada. Então iniciarei contando um pouco do meu processo.

Desde que me vejo e entendo por gente fui gorda e, como acontece com a maioria das pessoas gordas pressionadas socialmente, passei a vida em tentativas (falhas) de fazer dietas. Sempre perdia 10kg, mas engordava o dobro. Nunca foi por falta de “força de vontade”, como muitos dizem. Outros motivos e vivências sempre me levaram a permanecer gorda. Em 2011, com 130kg e usando tamanho 56, iniciei uma nova tentativa de emagrecer, de modo turbulento, em meio a uma tentativa forçada dos meus pais em me enviar para um spa: sempre havia discussões com meu pai e minha mãe em que eles diziam como eu deveria emagrecer com aquele velho discurso: “É pela sua saúde”. É verdade. Talvez fosse pela minha saúde mental, porque é de adoecer qualquer cidadão a quantidade de críticas e opiniões (recheadas de gordofobia) que a pessoa gorda acaba recebendo apenas pelo simples fato de existir.

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Depois de um ano de dieta emagreci 55kg e alcancei um padrão socialmente aceito. Atualmente sou lida como alguém “magra”, não tenho meu corpo patologizado e nem medicalizado. Como relatei uma vez aqui nesse link, hoje em dia tenho um corpo “desejável” e eu entendo esse desejo como algo atrelado à ideia de um corpo mais perto da norma que foi estabelecida para os corpos, menos invisível socialmente, mais pessoas me elogiam, mais homens me paqueram… Enfim, NOSSA! Que ótimo, não? Imaginar que aquilo tudo que você viveu com seu “eu gordo” some, você é agora uma nova pessoa… Lamento informar que não é assim que funciona.

Minha vida é feita de vivências, discursos, sensações, rastros, que foram construídos ao longo de toda uma vida. E as experiências passadas comportam quem eu sou hoje. Muitas pessoas sempre me questionam motivos pra minha insegurança, tentam compreender minha baixa autoestima, afinal eu não sou mais gorda, não é? Além de ser um problema pensar que apenas pessoas gordas tem problemas com autoestima, é tão problemático pensar também que as memórias se apagam na hora em que se emagrece.

O que sinto que aconteceu é que tiraram de mim uma “capa protetora”, um lugar de conforto, em que eu podia expressar minha insegurança, meus problemas, pois afinal de contas, eu era gorda. E ser gorda é um problema pra sociedade, logo, se torna compreensível que em uma sociedade gordofóbica pessoas gordas tenham problemas (quando, na realidade, são as outras pessoas quem causam, na maioria das vezes, esses problemas).

Depois de muitos tapas na cara, entendi porque sempre engordava novamente. Não me ensinaram a como ser magra, assim como não ensinam ninguém a isso. Ninguém está preocupado com a “ressocialização” das pessoas que foram gordas. Ou você É magra ou você não É. As pessoas não entendem a transitoriedade como um lugar de falar.  Ninguém É em absoluto algo. Estamos o tempo todo falando e dizendo que nós SOMOS isso ou aquilo. O verbo SER é diferente do ESTAR. Nesse caso, nós não somos, nós apenas estamos, assim como nós estamos no mundo apenas de passagem.

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E ser lida como magra não me faz me enxergar como uma 24h do dia. Então vivo essa incoerência entre como as pessoas enxergam meu corpo e como eu penso sobre mim. Ainda querem me forçar a me ver como as outras pessoas me enxergam “Você não deveria mais pensar assim, você é outra pessoa”. Mas eu não sou outra pessoa. Eu sou a mesma Marcella e compartilho as mesmas experiências que essa Marcella antiga que tanto falam.

Esses dias fui a um bar e peguei uma cadeira e, na hora em que sentei, ouvi um estalo e logo me imaginei quebrando-a. Às vezes me esqueço que hoje em dia não tenho problemas com acessibilidade ou com médicos ou com roupas, e que me adaptei fisicamente ao mundo que nos força a ser pessoas magras. Diversas vezes a insegurança ainda me faz acreditar precisar fazer mais esforço que o necessário para alcançar determinados objetivos em que meu corpo é exposto, como é no caso de uma paquera, por exemplo, que é algo muito mais fácil para quem é magro. E acreditem, meus problemas não cessaram quando eu emagreci, inclusive me perdi em diversos momentos, tentando entender quem eu era agora, quando descobri que sou o que fui e que me construo diariamente. Emagrecer não resolve seus problemas, pode, inclusive, potencializá-los, gerando transtornos psicológicos porque você pode não conseguir sustentar o corpo magro que tanto foi exigido de você: “Manter-se magro pode ser uma pressão tão aterrorizante quanto tornar-se magro quando a magreza é colocada como único meio possível de vida.” (Marco Magoga)

Minha proposta aqui não é desestimular alguém que queira emagrecer. Mas é de alertar que é preciso se entender e entender os motivos pelos quais quer perder peso, para poder entrar em um processo que não ocorra de forma traumática. Não entre nessa de que você LUTA contra o peso ou contra seu atual corpo, afinal de contas, ele não é seu inimigo,
ele é seu aliado, seu templo e seu lugar.
Você é o seu corpo. Soa clichê, mas é importante aprender a se amar da forma que se é, porque os problemas atuais não serão perdidos iguais aos quilos. Eles podem, inclusive se potencializar ou surgir outros problemas, caso você não pare de lutar contra si mesma.

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Gordofobia e transtorno bipolar: um relato de Erika Morais

Gordofobia e transtorno bipolar: um relato de Erika Morais

Gostaria de compartilhar minha história com vocês, mas vou tentar resumir. Tenho 32 anos, sou casada com uma pessoa exemplar, meu anjo da guarda, tenho uma família que me apoia, tudo perfeito, se não fosse por um detalhe: tenho transtorno bipolar.

Sei que o foco aqui é o nosso corpo, mas precisei colocar isso pra poderem entender lá na frente. Sempre fui uma menina gorda, sofria o que hoje chamam de bullyng, mas tinha lá minhas amiguinhas. Nunca havia beijado até os 16 anos e, quando dei o meu primeiro beijo e comecei a namorar, minha mãe disse: você não tem capacidade de arrumar coisa melhor mesmo, né? Quando fiz 18 anos, meu corpo começou a mudar e dos meus 80 fui para os 60 kg, mas me achava gorda, fiquei com aquela minha imagem antiga na cabeça, então não conseguia me soltar, me arrumar, essas coisas. Tive muitos relacionamentos frustrados, alguns percalços e, depois que minha avó morreu em 2006, entrei em depressão. Comecei a tomar antidepressivos e melhorei. O problema é que melhorei demais. Gastei R$ 10.000,00 no cartão de crédito em uma semana, cada dia saía com uma pessoa diferente pra ir pro motel, estava me sentindo uma super mulher.

Na doença que eu tenho, isso chama-se euforia ou mania. Só que como a doença é cíclica, entrei em depressão novamente. Só procurava os médicos quando estava pra baixo, obviamente. Foi então que me diagnosticaram não com depressão somente, e sim com transtorno bipolar. Desde 2007 faço tratamento pra esse transtorno mental que se tornou um transtorno físico. Graças aos remédios, comecei a engordar e cheguei nos 85 kg. Fiz a burrice de parar com a medicação quando achei que estava boa, entrei numa academia, fiz reeducação alimentar e cheguei nos 59 kg, até fui capa daquela revista Sou Mais Eu da Abril. Novamente deprimida, voltei com a medicação em 2009 e então não parei mais. Ocorreram muitas oscilações no meu peso, mas definitivamente essa foi a mais significante: hoje estou com 120 kg. Não consigo sair pra andar, correr, enfim, fazer nada porque a doença me limita demais. Sempre fui gorda, mas dessa vez meu peso aumentou demais por causa dos remédios e não tenho previsão de quando vou emagrecer novamente, pois isso depende da diminuição dos remédios (hoje tomo 10 comprimidos, 5 tipos de remédio) ou sua suspensão, o que não é possível pois é um tratamento para vida inteira. Vejo gordas lindas, que se amam e não as recrimino por se amarem porque realmente também as acho lindas. Mas não consigo me aceitar assim. Não me acho uma pessoa feia, mas acho que nem é a questão do peso, e sim a questão da minha auto estima ser muito, muito baixa. Como disse, nem magra eu estava satisfeita. Mas como doente mental sofro muito preconceito, daí junta com ser gorda, por isso já fui chamada de preguiçosa, de relaxada, até de suja, porque transpiro demais. Ninguém senta do meu lado no ônibus porque simplesmente não cabe. Meu marido, tadinho, faz um sacrifício e fica todo apertadinho do meu lado. Diz que eu sou linda, que me ama como eu sou, mas nós que temos que nos amar, não é mesmo? Eu já estou passando com muita dificuldade na catraca do ônibus e esses dias fiquei presa, as pessoas xingando atrás de mim porque queriam entrar e eu não conseguia voltar porque a catraca trava, só vai pra frente. Depois de me machucar toda, consegui passar. Desço dele com dificuldade e medo, pois já caí várias vezes e ninguém veio me ajudar, passam e ficam olhando com aquela cara de “quem manda ser gorda”.

Os meus psiquiatras disseram que no momento preciso escolher entre ficar boa da cabeça ou do corpo, mas sem a cabeça no lugar não somos nada, por isso optei por continuar com meu tratamento. Fico muito, muito mal sem os remédios, oscilando entre euforia e depressão, às vezes até no mesmo dia. Enfim, esse é um resumo da minha história. Não sou uma gorda infeliz e nem posso cogitar isso, já que tenho uma família que me ama, um marido bondoso e amável e poucos amigos, mas que me fazem feliz. Mas quanto ao meu corpo sou indiferente, não me odeio mas também não me amo. Eu sempre trabalhei de social, muito bem arrumada. Hoje não aguento colocar um salto, não acho roupas sociais ou roupas bonitas que sejam baratas e devido a minha doença não estou trabalhando, por isso também perdi o interesse em me arrumar. Quando saio, visto o que é mais largo e confortável, geralmente de tênis, mas até o tênis está apertando o meu pé. Sapatilhas não entram, mesmo comprando números maiores. É vou vivendo essa vida, estabilizada pelos remédios mas sem maiores felicidades.

Desculpe o desabafo. Obrigada por proporcionar isso.

Assaduras? Temos dicas!

Assaduras? Temos dicas!

Não precisa ser gorda para saber do que vamos falar. Basta ter pernas grossas para saber o incômodo que é ter as coxas roçando uma na outra e terminar o dia com assaduras. Coxas grossas são lindas <3, mas assaduras não. Além delas, pode acontecer também um escurecimento na parte interna das coxas próximo à virilha, o que também não é tão legal, né? Mas também não é o fim do mundo e tem solução.

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                                           Coxas livres! \o/

Pesquisamos algumas dicas para evitar assaduras e clarear a pele: 

1. Óleos

A dica principal é: usa algo que evite o atrito. A partir dela, podemos usar vários itens, e o óleo é um deles, pois forma uma camada de proteção. Você pode usar óleo corporal, óleo de girassol, protetor solar em óleo, entre outros. Marcas: Boticário, Natura, Jonhson & Jonhson.

2. Talcos

Seguindo a mesma regra dos óleos, os talcos também são uma boa opção, pois seca a pela e minimiza o atrito, entretanto não é tão durável e precisar sem reaplicado algumas vezes ao dia. A maizena que você tem na cozinha pode servir como talco, ou você pode comprar talco em creme. Marca: Granado.

3. Roupas para evitar o atrito

O atrito acontece principalmente quando usamos saias e vestidos, por isso, aconselhamos a usar por baixo dessas roupas, uma bermuda modeladora, um short fininho, meia feias, ou seja, uma peça de roupa que dificulte o contato e o atrito na parte interna das coxas.

4. Desodorante

Esta é uma alternativa mais prática e simples, pois é algo que a gente sempre tem em casa. Entretanto, o desodorante pode causar irritação e ressacar bastante a pele, então usem com cuidado. Pode ser aerosol ou em creme.

5. Pomadas

Além de evitar o atrito, e consequentemente as assaduras, esta opção também pode clarear a pele escurecida. Pomadas como Bepantol, Hipogloss, Nebacetin e a pasta d’água são as mais citadas.

6. Silicone para cabelos 

Parecido com os óleos, o silicone irá ter a mesma função de criar uma camada sob pele e proteger do atrito.

7. Vaselina

Uma das mais queridas, a vaselina pode ser encontrada em pasta ou em geleia e promete maravilhas.

ATENÇÃO: Realizamos este apanhando através da internet, em sites e grupos nas redes socais, e não testamos todas as dicas, por isso, levem em consideração questões como alergia e irritações que podem surgir. 

Contem pra gente as suas dicas e digam o que acharam destas que trouxemos.😀

Ser gorda ou emagrecer? Uma questão que vai além das vontades individuais

Ser gorda ou emagrecer? Uma questão que vai além das vontades individuais

Vez por outra eu me pego olhando no espelho e pensando: “queria perder só mais uns 10 quilos…” e, ao mesmo tempo, tento afastar esse pensamento da minha cabeça, porque como é que eu, feminista que luta contra gordofobia, quer emagrecer e não consegue se aceitar da maneira que é? Ou mais: por que eu, depois de tantos anos sendo gorda, resolvi emagrecer, fazer plástica, me aproximar de um padrão de beleza e agora acho que é fácil chegar e falar sobre gordofobia e lutar para que as mulheres gordas se aceitem? É mais fácil falar quando não se tem esse peso (social) em si… E por isso estão em mim muitas dúvidas que envolvem uma série de questões éticas acerca de qual meu lugar de fala.

 Não quero entrar no mérito da filosofia que discute o que é ética (e acho que nem saberia discutir), mas recorri ao Google pra pegar uma definição pra poder guiar o texto:

ética

A questão da ética é muito ligada à ideia de que existem princípios universais que orientam o comportamento humano e geram uma série de normas sociais. Já é lugar comum afirmar que existe um “padrão de beleza”, que existe uma norma que está ligada à ideia de VALOR HUMANO. E quanto mais a gente se afasta dessa norma, menos valor humano a gente tem nesse caso. Vamos todos pensar agora em uma pessoa aleatória, que você não conhece… Qual o corpo que ela tem? Acredito que boa parte das pessoas que estão lendo esse texto o imaginaram magro.

Então: ser magra é a norma, é o que é disseminado como sendo comum, usual, apesar de que na vida “real”, não encontramos muitas pessoas que estejam dentro dessa norma, então as pessoas vão “perdendo pontos” conosco porque: “ah, ela não tem bunda”, “ela é muito baixinha”, e mais uma série de questões que a gente vai levantando e diminuindo o valor daquela pessoa porque ela não está  naquele ideal que a gente imaginou. E isso é uma questão de padrão de beleza.

A gordofobia vai mais além….Ela foge da norma completamente, ela é o oposto da norma. Pessoas gordas perdem, em inúmeras situações, o seu valor de humanidade. Prova disso é o caso da mulher que não pôde assumir o cargo de professora após passar em concurso público apenas por estar gorda (ela é incapaz por ser gorda?), ou até mesmo em lojas de roupas, que os fashionistas (ou sei lá quem é responsável por fazer as roupas), não fazem numeração acima de 46 e, quando fazem, são roupas que mais parecem sacos.

Então eu volto a questão da ética aqui: QUEM NO MUNDO gostaria de estar fora das normas colocadas na ética? Quem é que gosta de ter seu valor humano diminuído? Seria muito bom, muito simples e muito menos complicado se nós não tivéssemos determinado tantas “questões éticas-corporais” para tratar com pessoas. Será que realmente existe uma “essência” da norma?  E quem não está contemplado por essa essência, fica onde?

 Acho que é nesse aspecto que entra a questão da gordofobia e da vontade de emagrecer e de que a vontade de emagrecer não é apenas individual. Nós nos guiamos, involuntariamente, por um modo de vida que é visto como melhor. E ele acaba se tornando melhor porque acreditamos nisso, porque todo mundo quer nos fazer pensar isso. Então ser magra é melhor, infelizmente. Não é o ideal, porque nunca, JAMAIS alcançaremos o ideal (então pode tirar o cavalinho da chuva achando que sua vida vai se tornar perfeita ao emagrecer), mas não acho que devemos julgar as pessoas que querem emagrecer e que sentem essa necessidade. Ninguém sabe quais as subjetividades daquela pessoa ou quais as necessidades que o mundo foi criando nela.corpo

 Mas também é nosso dever parar de julgar quem é gordo ou diminuir seu valor diante de quem emagreceu ou quem é magro. Se o mundo não tivesse tantas normas que devêssemos seguir para atender ao “bom costume” do que a ética tradicional manda, talvez não precisássemos sentir a necessidade de emagrecer, não é? É por esse caminho que a luta anti gordofobia quer ir: entender que não é uma questão pessoal se sentir mal por ser gorda, mas que isso envolve algo SOCIAL, construído pelos outros e reproduzido por todos nós. Será mais fácil no dia em que ser magra não será ser melhor. E que não existirá um “melhor” ou “pior” guiando nossos corpos e nossas vontades.

Por que magrofobia não existe?

Por que magrofobia não existe?

Sempre que tentamos falar sobre gordofobia, seja na Internet ou fora dela, surge:

“Mas todo mundo sofre!” ou

“Eu sou magra e também sofro”

Quando alguém diz: mas eu sofro magrofobia!

Aí você, gorda, para, respira, e tenta não perder o controle, né? Mas por dentro pensa: “Como alguém ousa dizer que nesta sociedade, gordas e magras sofrem igualmente?!” Com uma visão mais otimista você sabe que se pararem cinco minutinhos logo irão perceber que não. Ser muito gordo (ou pouco também) e ser muito magro levam à pressões e opressões sim. Mas são bem diferentes, em forma, nível e intensidade.

Dentro desta sociedade machista em que somos socializadas, apenas o fato de ser mulher já nos imprime uma carga gigantesca de opressão. E se você é mulher gorda, aí isso só aumenta. Assim, mulheres gordas e magras comungam de uma mesma opressão: o machismo e a pressão estética que dele deriva. Até aí tudo ok. Até aí toda mulher é vítima de uma sociedade que determina como ela deve ser, e a qual padrão ela deve atender. E isso causa dor porque esses padrões são muitas vezes inalcançáveis, e nos leva a passar a vida numa tentativa frustada de conquistá-los.

Desde criança toda mulher é ensinada a se preocupar com o peso, a ser vaidosa, a viver numa batalha diária contra a balança. Até aqui magras e gordas são igualmente vítimas de pressão estética. É essa pressão/opressão que magras sofrem. E em momento nenhum colocamos em dúvida que isso gera sofrimentos e dores na autoestima e no dia a dia dessas mulheres. Mas, diferente do que alguns alegam, não existe um sistema estrutural e sistemática que mina essas pessoas em todas as esferas da sua vida social e profissional, lhes tirando direitos e oportunidades, e é por isso que podemos afirmar que MAGROFOBIA NÃO EXISTE.

Enquanto a gordofobia é uma opressão estrutural, como já falamos algumas vezes aqui, a pressão estética é um aspecto do machismo e de sua reverberação sob a vida das mulheres. Por isso, é triste quando gordas e magras entram numa competição para decidir quem sofre mais e quem merece mais atenção, enquanto poderíamos estar juntas lutando contra o mal maior e que nos oprime igualmente. Nós, gordas, sabemos o quão a gordofobia nos mata dia-a-dia e como temos que combatê-la: primeiro, de uma forma mais subjetiva, aceitando nossos corpos e reconstruindo diariamente nossa autoestima e segundo, confrontando os poderes públicos e a sociedade em geral em busca da garantia do nosso direito de existir e viver. Por isso existe esse movimento antigordofobia.

Entendido? Isso não é uma olimpíada do sofrimento. Quando você ouvir sobre gordofobia não diga que isso é mimimi e que a vida é assim, pois todo mundo sofro. Isso magoa, fere e atrapalha nossa vida. Tenta trabalhar a partir da perspectiva da Empatia, comece assistindo esse vídeo fofo e didático:

Magrafobia não existe, mas estamos aqui para todas as mulheres e pelo fim da gordofobia.

Texto complementar da Revista Capitolina: http://revistacapitolina.com.br/entendendo-diferenca-entre-pressao-estetica-e-gordofobia-sim-ela-existe/

Vídeo:

Quando a gordofobia não fala

Quando a gordofobia não fala

De forma simples e direta, gordofobia é o preconceito contra a pessoa gorda. E é muito fácil identificá-lo quando se escuta frases do tipo: “sai daqui sua gorda nojenta!” ou “você não tem vergonha de estar desse tamanho” ou ainda “você tem um rosto tão bonito, se emagrecesse ficaria linda!”. Algumas falas são mais sutis outras mais explícitas, mas quando se escuta é possível saber que a gordofobia está ali presente.

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Entretanto, dependendo do seu convívio social ou dos lugares que frequenta, nem sempre você vai escutar essas frases assim tão claramente. Então quer dizer que esses lugares e pessoas estão livres da gordofobia? Não! Só quer dizer que nesses espaços a gordofobia não fala. Ela é silenciosa, velada. Mas ainda assim pode ser notada.

Ninguém comenta, ninguém fala nada para você escutar. Mas você sempre sente no ar que em algum momento isso vai acontecer, ou que as pessoas estão falando pelas suas costas (às vezes pode ser que ninguém comente mesmo, mas não é isso que a gente sente). É nesse momento que a gente enxerga e entende como a gordofobia é algo estrutural e cruel porque não precisa ninguém falar nada ou comentar nada, ela está nos olhares, nos gestos, e até mesmo só na nossa cabeça (como muitos nos acusam). E a culpa não é nossa.

Por isso, não adianta você falar que não tem problemas com o meu corpo ou fazer posts antigordofobia nas redes sociais se o seu olhar me diz o contrário. A gordofobia não precisa falar para machucar. Ela está aí nos matando todos os dias, como Marcella explicou aqui.

Nossa, mas agora tudo é gordofobia? Não! Mas o que for a gente vai falar, vai reclamar, vai lutar porque agora estamos juntas, temos umas às outras e temos voz!