Sobre corpo e contradição

Sobre corpo e contradição

“Meu corpo apaga a lembrança que eu tinha de minha mente, Inocula-me seus patos, me ataca, fere e condena por crimes não cometidos.”

As contradições do corpo – Drummond

Há tempos me pergunto se eu teria coragem de um dia escrever esse texto. E se escrevesse, se teria coragem de publicá-lo. E publicado, se alguém iria ler ou se importar. Bom, criei coragem. Escrevi e estou agora publicando, não sem uma ponta de ansiedade, não sem um frio na barriga, mas publiquei. E escrevo aqui de uma coisa que sempre fez parte da minha vida desde que eu me entendo por gente, mas de uns anos pra cá, vem se tornando um sofrimento maior do que o que eu estava acostumada: a preocupação com o meu corpo. Não lembro nenhum momento da minha vida em que eu estivesse satisfeita com ele. Sempre me achei gorda, sempre achei que precisava perder uns dois ou três quilos, fiz algumas dietas e nunca gostava do que via no espelho. Hoje em dia olho fotos minhas da época do ensino médio e vejo que sim, eu era magra. Obviamente nunca tive um corpo de modelo, mas eu era magra e mais dentro dos padrões do que fora deles, mas nunca me senti assim.

Desde muito cedo eu (assim como todas as mulheres) escuto comentários sobre o meu corpo, vindos inclusive da minha própria família. Muitos parentes, próximos ou distantes, sempre se sentiram no direito de opinar sobre as minhas formas, sobre o que eu comia ou deixava de comer, a me policiar, a me incutir uma preocupação que na época eu nem sabia que tinha que ter, e olhe que eu nem era uma criança gorda. Lógico que não era por maldade, mas mesmo assim doía. Já na universidade, passei por um período de estudar muito e comer mal, cheguei a pesar 48kg, fiquei quase no limite do IMC, e ainda assim não achava que meu corpo estava ok. Nunca tinha feito grandes esforços pra emagrecer, mas sofria a cada vez que passava por uma farmácia e tinha a ideia de me pesar. Ainda durante a graduação, passei por uns momentos difíceis na vida e resolvi escrever um diário. Esse janeiro encontrei ele por acaso e fui reler o que eu tinha escrito; além das preocupações corriqueiras, uma era constante: meu peso. Linhas e mais linhas de uma pós adolescente maldizendo o próprio corpo, pensando em mil dietas e, pasmem, desejando uma anorexia. Foi extremamente doloroso pra mim ler aquelas palavras e constatar que tantos anos depois eu ainda continuava com a mesma visão pessimista sobre mim.

Sim, eu mudei muito desde que escrevi aquele diário, aprendi muito, cresci, conheci o feminismo, desconstruí milhares de pensamentos tortos que eu tinha, aprendi a ter empatia pelas pessoas, principalmente pelas mulheres, minhas companheiras. Aprendi sobre gordofobia, aprendi a sair da caixinha e expandir minha noção do que é bonito, a ver que corpos gordos também podem ser lindos. Só não aprendi a ter empatia comigo mesma. De lá pra cá engordei bastante, fiz dietas loucas, perdi um pouco a saúde, emagreci 10 quilos em dois meses e engordei tudo de novo e um pouco mais. Nesse meio tempo, ouvi mais do que nunca comentários sobre o meu corpo. Quando emagreci, eram só elogios, pouco importavam se minha saúde estava fodida, se eu estava com um mau humor infernal ou se eu estava extremamente infeliz, o importante era que eu estava magra e merecia os parabéns por isso. Depois de emagrecidos os 10 quilos, fui a um nutricionista ver se eu estava ok, se minha saúde estava em ordem, etc. Ele me pesou, me mediu, me olhou de cima a baixo, fez mil cálculos e chegou à conclusão que eu ainda precisava perder uns 5kg, que o ideal era eu pesar 47 quilos, mesmo que em toda a minha vida adulta, nem nas épocas mais magras, eu tinha chegado a esse peso. Passou uma dietinha e disse que eu voltasse dali a um mês, sorri mandando mentalmente ele se foder e nunca mais voltei, não estava mais afim de dieta, tinha chegado num peso razoável e estava me sentindo relativamente bem.

Algum tempo depois comecei a engordar de novo e soube que não teria mais ânimo pra fazer outra dieta, então deixei pra lá, principalmente porque eu estava em período de seleção de mestrado e a última coisa que eu queria me preocupar era com isso. E começaram novamente os comentários: “meniiiina, o que aconteceu contigo, como tu tá gorda!”, “Tá precisando parar de comer, hein?” “Já vai comer de novo?”. E a cada comentário eu morria um pouquinho por dentro, apesar de não exteriorizar isso. A cada comentário eu perdia um pouco mais a vontade de ir à praia porque ia ter que usar biquíni, a cada olhar torto eu desistia de sair de casa porque a roupa não ia ficar tão bem, a cada julgamento eu evitava de ir a lugares que eu sabia que ir ter gente conhecida porque sabia que eles iam falar. Perdi bares, saídas, festas de família, passei a me esconder, a achar que todo mundo na rua estava me olhando, que os conhecidos estavam comentando. Minha autoestima, que nunca foi lá essas coisas, chegou a níveis mais baixos do que o da Cantareira. Passei a ter vergonha de mim, não apenas por causa do meu corpo, mas pela contradição de ser feminista, tão militante, com um discurso tão body positive mas que não conseguia aplicá-lo a mim mesma. E isso me doía, me angustiava, eu me sentia hipócrita. Não é fácil subverter uma vida inteira de ideais machistas, surreais e gordofóbicos jogados todo dia na sua cara.

Escrevo aqui esse texto numa tentativa de auto aceitação, numa tentativa de me amar mais e me importar menos. Já passei 25 anos da minha vida me odiando, e o último ano me escondendo, preocupada com a opinião de quem não quer o meu bem nem está pagando minhas contas. Então apresento a vocês, este é o meu corpo, o meu novo corpo, pode não ser lindo e perfeito, pode estar completamente fora dos padrões e pode incomodar alguns olhos destreinados, mas é o MEU corpo, é o único que eu tenho e é ele que me permite viver. Corpo, não está sendo (nada) fácil, mas estou tentando te aceitar, vamos fazer as pazes?

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5 comentários sobre “Sobre corpo e contradição

  1. Dafne, pelo peso que você falou ai no texto, acho que você nunca chegou no meu nível (1,67 pesando 135kg no auge) mas mesmo não lidando com um número tão alto na balança, amei saber que eu não sou a única que pira com essas pequenas grandes neuras. Eu até tive um tempo em que eu era totalmente apaixonada pelo meu corpo ( eu pesava 70kg) e mesmo naquele época me chamavam de gorda. Olho as fotos hoje em dia e vejo que eu não era, só não era esquelética como o padrão sempre impôs. Entendo perfeitamente o que você passou, passa e infelizmente ainda vai passar. Espero que você consigo lidar com tudo numa no e faça as pazes com suas curvas, porque tábua é boa pra passar ferro em roupa ou tapar buraco em parede. E espero que eu consiga fazer as pazes com o meu também. No momento estou em dieta, e depois de sair dis 135 e chegar aos 113, ta batendo um cansaço. Ler seu blogue ajuda. Espero ansiosa por mais postagens!!!

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  2. Vida, vida, vida…doida, doce e intensa vida!

    Olha só, e se eu te disser que vc não é gorda!? Rsrs. Vc só está fora doa padrões imposto, seu IMC possivelmente deve indicar algo como sobrepeso, mas quem sou eu pra te dizer o que vc é? Vc é o que quer ser, né?
    Tenho 1.62 de altura, peso 115 kg, já pesei 70 kg (como a moça do comentário acima ^^) e era considerada gorda quando, assim como vc sente, eu não era, só estava fora do padrão. Mas não me ensinaram que eu deveria mandar o padrão se foder, me ensinaram que eu deveria tomar remédio pra me encaixar, que eu não deveria ir a praia de biquini pq meu corpo era feio (passei mais de 10 anos sem ir a praia), me disseram que eu deveria chorar pq eu era horrível, feia, não merecia ser comida por ninguém ou que quem fizesse o fazia por caridade.
    O tempo passa e graças a blogs que tratam de body positive, moda pra plus size e coisas assim, fui restaurando um pouco de amor próprio e autovalorização, depois veio o feminismo e hj tenho uma relativa paz com o meu corpo. Relativa pq existem marcas que o tempo e o discurso não apagam, existem feridas que não fecham. Se eu queria ser magra? meu maior sonho. Parece bobagem? Vc já teve medo de entalar na catraca do ônibus? Calça Jeans que não dura 3 meses pq rasga no meio das pernas pelo atrito das coxas? Roupas lindas que não chegam ao seu joelhos? Ir a uma festa e ninguém te paquerar? Ouvir o tempo inteiro, que tem um rosto lindo? Sentir os pés doerem? As pessoas acharem que vc come horrores, quando vc come bem menos que elas e vc sempre tem uma amiga magra que come como um animal? Vestido de festa, só se mandar costurar… são muitas interrogações, muitas exclamações, muitas lagrimas por trás de uma vida inteira marcada pelos digitos que a balança me mostram.

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    1. Bom, e se eu te disser que eu sou gorda sim? Como eu disse no texto, eu não sempre fui gorda, apesar de nunca ter me enxergado como magra, mas agora eu sou sim, e não é apenas o meu IMC que me diz isso, mas as pessoas na rua e as roupas nas lojas. Sim, durante a maior parte da minha vida eu tive uma série de privilégios de gente magra que eu nunca soube que tinha e só percebi quando engordei, e olha, não engordei pouco, foi bastante. Se eu sei o que é entalar numa catraca de ônibus e não caber em uma cadeira? Não, não sei. Se eu sei o que é ser xingada, julgada e ridicularizada por ser gorda? Bom, posso dizer que estou aprendendo. Minha intenção aqui é contar minha experiência como “recém gorda” e tentar não odiar o meu corpo, e não invalidar outras experiências nem falar por todas as gordas do mundo, que com certeza tem algumas histórias bem diferentes das minhas e outras até parecidas. Se um dia você quiser compartilhar sua história com a gente, teremos prazer em publicá-la, pra que cada vez mais gordas se identifiquem e vejam que não estão sozinhas.

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  3. Dafne querida, nunca tinha te colocado no time das gordas, mas reconheço cada um desses sintomas desde que me entendo por gente. Tem épocas em que isso tudo pesa pouco, mas tem fase que é insuportável. Espero que vc consiga fazer as pazes com seu corpo. Espero conseguir cuidar do meu também! É estranho, mas ler essas coisas faz a gente não se sentir só!
    Xeru grande!

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