Sobre gordofobia, insegurança e emagrecimento: como os rastros não se apagam facilmente

Sobre gordofobia, insegurança e emagrecimento: como os rastros não se apagam facilmente

Este texto foi escrito no mesmo período que o de Dafne Campos publicado AQUI e também foi no inblogtuito da busca pela auto-aceitação, mas passei pelo processo contrário, em que perdi 55kg. E notei que, mesmo estando visualmente magra, continuo sofrendo gordofobia…

Hoje em dia umas das minhas atividades diárias favoritas é musculação/ginástica. Além de serem atividades prazerosas, cultivo com isso um corpo “desejável”. E por desejável eu posso entender: “que incita desejo, que é alvo desse desejo, cobiçado, almejado, que tem importância”. Faço porque gosto, me sinto mais tranquila, minha ansiedade (que geralmente vem em níveis terríveis) diminui, pois a atividade física tem sim esse poder de aumentar o nível de neurotransmissores, tipo a serotonina, que produzem esse efeito de bem-estar. Mas é uma pena que esse bem-estar não esteja acompanhado junto dessa ideia de corpo “desejável” que venho cultivando. Minha realidade há quatro anos era um pouco diferente. E a atividade física não fazia parte da minha rotina. Eu não tinha um corpo desejável. Nem por mim, nem por ninguém. Cultivava um estilo de vida que era condenado, julgado e reprimido (muitas vezes reprimido sem necessidade alguma). Eu pesava 130kg. Eu era invisível para muita gente e só me tornava visível quando era para ser alvo de críticas. Entrar em um ônibus e sentar ao lado das pessoas? Jamais conseguia fazer isso sem constrangimentos. Lembro claramente quando chegaram a se recusar sentar ao meu lado porque eu era gorda demais. Era quase como uma ofensa para os outros eu ser gorda. E eu carregava uma imensa culpa por ser assim. Comer em um restaurante sem me regular por conta dos olhares alheios também era uma atividade impossível, até sentar em uma cadeira (principalmente as de plástico) era uma atividade que exigia uma habilidade: ter cuidado para não cair e chamar atenção. Era preferível ser invisível a ser visível e passível de chacotas alheias. Eu tinha minha identidade deteriorada. Isso afetou minha vida pessoal de todos os modos possíveis e minha vida profissional na mesma medida. Eu não era uma pessoa desejável. E eu fui sendo construída em muitas instâncias pelos outros, pela minha família, pelos colegas de colégio e por tantos outros que passavam por mim e falavam ou lançavam olhares com os quais tive que ir criando resistência. A invisibilidade era o lugar mais confortável. O ponto cego da vida foi sempre minha companheira. Me fazia não chamar atenção, eu não me sentia julgada. E isso foi construindo minha personalidade. Até mesmo depois que resolvi emagrecer. Resolvi que queria ser mais magra, usufruir os mesmos direitos e os mesmos olhares que as pessoas magras tinham. Ganhavam mais respeito e tinham mais confiança das outras pessoas também. E emagrecer não foi uma atividade lá fácil, principalmente para alguém que tem compulsão alimentar. Uma das primeiras atividades que tive que fazer antes de emagrecer foi me aceitar como sendo alguém. Como alguém desejável. E isso eu fui construindo quando percebi que não estava só no mundo, graças aos sites de moda plus size, de mulheres gordas e que se amam e não se deixam afetar de forma tão terrível como outras pessoas se afetam. E meu lado desejável foi aflorando junto com meu lado feminista que hoje também cultivo. E eu emagreci, perdi uns 55kg e do número 54, hoje uso o número 42, o que, para a indústria de moda, não é exatamente plus size, que começa no 44. Perdi peso, fiz duas cirurgias plásticas para retirada de pele e coloquei silicone (pasmem!), me moldei procurando me encontrar. E encontrei o corpo desejável. Desejável não só por mim, mas por outros. E continuei sendo aquela pessoa que não é vista como alguém, mas muitas vezes como mero objeto. E, muitas vezes, vista como alguém também só por ter emagrecido, por ter mudado de corpo. Gente que antes não me enxergava, agora me vê, me atribui qualidades que antes de emagrecer eu já as tinha, mas não conseguiam enxergar por debaixo dos meus 130kg. E eu me tornei realmente desejável. Mais homens expressam tesão por mim e mais mulheres “invejam” minha cinturinha. Mas isso não me trouxe, em muitos momentos, bem-estar. Claro que emagrecer e fazer minha atividade física me deixaram melhor (afinal de contas, hoje sou, de fato, mais ativa e me fez retirar alimentos que não considero benéficos para mim). Mas não me traz bem-estar ser considerada ainda, por muitos, um objeto. Morar em Salvador, transitar pelas suas ruas e pelos olhares alheios me mostrou como não há muita diferença entre o que eu era. E que parte do que eu idealizava não corresponde ao que vivo. E minha mente entra em pane em diversos momentos. Eu achava que seria menos regulada, menos medida e menos julgada. E continuo sendo, mas de uma forma diferente (ou igual, sei lá, isto me confunde muito a cabeça).

Essas fotos fazem parte do ensaio da fotógrafa Julia Kozerski, intitulado
Essas fotos fazem parte do ensaio da fotógrafa Julia Kozerski, intitulado “Half”. Ela passou pela perda de 72kg e chegou à uma conclusão parecida: perder peso não significa felicidade instantânea. As pessoas continuaram regulando seu corpo de modo, muitas vezes, cruel. Link para o ensaio: http://juliakozerski.com/half#/id/i2508772

Enfrento o problema de ter minha alimentação sempre vigiada, minha oscilação de peso (que é comum em qualquer pessoa) sempre observada e comentada. É recorrente comentários sobre “cuidado pra não engordar tudo de novo” ao querer comer doces ou frituras, por exemplo (e eis que me pergunto quantas pessoas não desenvolveram distúrbios alimentares por conta dessa regulação). Outro problema que enfrento é não poder pensar da maneira que penso, porque meus pensamentos não correspondem ao meu corpo. Isto se dá tanto no momento em que dizem “Você emagreceu, já está na hora de mudar o que você pensa”. E as pessoas, até as que são mais próximas, não entendem que não é assim que funciona. Eu fui construída de momentos, de sensações, de acontecimentos que marcaram e deixaram rastros em mim. E são mais de 20 anos de vivência gorda, de sofrer gordofobia, de preferir me manter invisível a ser visivelmente uma identidade estigmatizada. E me incomoda quem quer mandar na maneira que eu sinto, ou nas tristezas que sinto, nas crises de compulsão alimentar, porque não acham coerente com o corpo que eu tenho: “você emagreceu, não devia mais sentir isso.”, e a falta de direito de ser insegura (por ter um corpo desejável, logo, ter que ser segura) só me gera mais insegurança. Não é assim que as coisas funcionam, não se mudam 21 anos em 4. E tudo isso continua tornando meu gênero, minha identidade incoerente. Mas é isso que somos, eu acho, incoerentes, apesar de querermos o tempo todo nos mostrar racionais e coerentes como forma de marketing pessoal. Eu não preciso dessa coerência toda, eu gosto de mim mesma. Mas continuo querendo ser invisível em muitos momentos, porque me tornar visível significa ter que ter automaticamente toda minha personalidade modificada porque eu sou esteticamente mais magra do que gorda e é inadmissível que meus mais de 20 anos como gorda ainda imperem na minha forma de ser e estar no mundo. E por isso que eu continuo praticando meus exercícios físicos. Já que o corpo desejável não me traz esse bem-estar todo que eu imaginava e idealizava, pelo menos a atividade física em si garante mais paz ao meu dia e uns minutinhos a mais pra refletir o quão cruel são as regulações corporais para qualquer um. E é pra isso que eu preciso dos feminismos, pra me libertar um pouco dos olhares alheios

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