Hoje tenho orgulho de mim, de quem sou, de onde cheguei, do meu potencial!

Hoje tenho orgulho de mim, de quem sou, de onde cheguei, do meu potencial!

Por Magdalena Ribeiro

Desde quando sou gorda??? Bem, desde sempre!

Eu era o bebê mais gordo, a maior criança da sala de aula com os títulos mais inusitados: “Miss Brasil Gás”, “Bolo fofo”, “Balão”, “Botijão de Gás”… Ninguém imaginava, nem eu, que a timidez da reclusa nos cantos das salas de aula era um reflexo dos jargões que tinha que ouvir diariamente.

Fonte: http://www.artflakes.com/en/products/fat-woman-character-design
Fonte: http://www.artflakes.com/en/products/fat-woman-character-design

Você não imagina, quão humilhante é descobrir que o seu colega de classe topou dançar quadrilha de são João com você porque o nosso professor de inglês prometeu um 10,0 pra ele. Até descobrir que isso aconteceu nos 3 anos que você dançou…

Dentro da família não era muito diferente, apesar do meu amor incondicional por minha avó materna, era evidente a preferência dela pelos netos não obesos. Sim, porque a obesidade não era privilégio meu, meus irmãos também se tornaram obesos. Chegando no fim do ano, ela sempre dava pra gente nossas roupas de festas (Natal e Ano Novo), era um martírio, quantas vezes não ouvi: “Nossa Maria Magdalena, você é gorda demais.”, entre outras coisas… Essas frases me marcaram por muito tempo!

A sensação que eu tinha é que era inferior aos meus primos, pois eu acreditava que eles eram mais bonitos que eu… Lembro muito bem de quando anunciei à família que faria Vestibular para Física e Engenharia Elétrica, as críticas crueis que ouvi: “Você não tem capacidade de passar pra Elétrica!” – “Você devia escolher um curso mais fácil” – “Pobre, Feia e Gorda, não fez curso de inglês pra passar na federal, deveria se contentar de achar um homem que queira casar com você!”… Era difícil acreditar em si mesma quando todos dizem que você não é capaz!!!

Aproveito aqui para fazer uma observação… Queria muito entender porque taxam os gordos de um monte de coisas! Ser gordo é motivo de piadas… De incredulidade, “Não acredito que esse gato tá com essa gorda!”… De incapacidade… “Ah, ela é gorda, não pode fazer isso, não pode fazer aquilo!” “Ela é gorda, tadinha, tão burrinha..” Uma vez ouvi uma pessoa falar que todo gordo fede, nossa, isso me deu uma revolta tão grande, até porque a pessoa que estava falando também era obesa, respondi: “Só se você não toma banho pra feder, porque eu, no auge da minha obesidade mórbida, sou uma gordinha muito cheirosa!” Nossa como esses rótulos me irritam!! Algumas vezes fui taxada de lésbica só porque sou grande e gorda.

Minha autoestima era tão baixa, que eu era incapaz de acreditar que alguém pudesse me amar pelo que eu sou. Tive muitas paixões platônicas, e namorados que eu não gostava, nem tinha interesse neles, simplesmente pelo fato de achar que se não aceitasse aquilo, ninguém mais iria me querer.

Aos 21 anos ultrapassei a casa do 100kg… Na época eu era apaixonada pelo meu melhor amigo, e imaginava que se eu emagrecesse ele se interessaria por mim também. Comecei a viver de Club Social e Diet Shake, perdi uns 20kg, chegando aos 83kg, muitos já estavam me achando muito magra, mas eu ainda me via de modo deturpado, embora já me achasse um pouquinho mais aceitável. Depois de emagrecer me declarei a ele, e tomei um belo fora! Pra ele eu nada mais era que uma amiga.

Me mantive entre 85 – 90kg por uns dois ou três anos, quando comecei a namorar um cara de outra cidade que foi fazer mestrado na mesma faculdade que eu estudava. Não era um relacionamento saudável, mas eu não enxerguei isso por anos. Tive com ele minha primeira relação sexual, e o cara duvidou que eu fosse virgem, em meio a esse relacionamento aconteceram várias coisas, uma delas foi um ano inteirinho na França, que eu não aproveitei porque preferia ficar no MSN/Skype com esse namorado que estava no Brasil – diga-se de passagem, no Brasil me xifrando – do que sair e aproveitar a experiência em outro país!

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Fonte: https://www.pinterest.com/chrysanthemum86/lady-heros/

Nesse período na França eu tive um acidente onde quebrei meu tornozelo, resultando num ganho de peso gigante. Voltei da França obesa novamente, mas na minha cabeça, só estava mais obesa do que já era. Um ano e pouco depois que voltei, esse cara terminou o relacionamento comigo com a justificativa que eu havia engordado demais, e que por estar muito Gorda não era mulher para ele, que tinha sido um choque me ver quando eu voltei da França, mas que por mais de um ano ele esperou que eu emagrecesse… Bem, hoje eu sei que quem perdeu foi ele, como disse, era um relacionamento doentio, que não me fazia bem, mas novamente a sensação de que “se não for esse cara, ninguém mais vai me querer” não me deixava sair dessa relação.

Os anos foram passando, fiz terapia com algumas psicólogas com intuito de resolver minha questão com a comida e emagrecer, até porque segundo a terapia, a comida era minha muleta. Mas, embora eu realmente usasse a comida como muletas, um fato não posso negar, eu gosto de comer! Comer é tudo de bom!

Já tive o privilégio de curar muitas feridas, e aprender a me valorizar por quem sou e não pelo meu corpo. Só depois de ter essa clareza, consegui tomar decisões saudáveis pra minha vida.

Antigamente, quando via uma gordinha bem resolvida consigo mesma, aquilo era inconcebível pra mim, inacreditável! Até o dia que eu me tornei uma gorda de bem comigo mesma! Fiz as pazes com o espelho. Vi que era até mais saudável que muitas magras. Comecei um relacionamento que me faz bem, e não tem o peso nem a cobrança do outro ser responsável pela minha felicidade! Isso veio depois dos 30 anos, mas antes tarde que nunca!

Hoje sou mãe, tive uma gravidez difícil por causa de um pré eclampsia. Depois disso me tornei hipertensa e passei a ter muitas outras comorbidades por causa da obesidade. A obesidade chegou no grau III, IMC 44, dificuldade de me locomover e um risco potencialmente alto de um infarto ou AVC.

Nessa fase, vestia 58, fui humilhada em algumas lojas, que ao chegar, além de ter que aturar o olhar constrangedor das atendentes, algumas chegaram a dizer que nada ali serveria pra mim, enquanto apenas olha a vitrine.

Por uma questão de saúde, há quase 3 meses me submeti à redução de estômago. O foco não é um corpo escultural, é

Fonte: http://alexheberling.tumblr.com/post/13112282030
Fonte: http://alexheberling.tumblr.com/post/13112282030

saúde pra desarmar a bomba relógio que havia me tornado, e realizar o sonho de ter outro filho! Eu relutei muito para não fazer a cirurgia, eu não queria! Queria poder continuar comendo o quê e o quanto quisesse, mas pra poder sentar no chão e brincar com meu filho de 3 anos, poder andar sem dores, trocar os remédios de hipertensão, resistência à insulina, ansiedade, enxaqueca, entre outros por uma vitamina, resolvi fazer a cirurgia. Não é o processo mais fácil, muito pelo contrário, é abrir mão de algo que eu gosto, comer, pra ser mais saudável! Minha meta não é ficar magra, e disso não depende minha felicidade.

Hoje tenho orgulho de mim, de quem sou, de onde cheguei, do meu potencial! Não tenho vergonha da minha obesidade. Sou feliz por ter me encontrado em mim mesma e ter aprendido que a opinião mais importante pra mim é a minha, eu não posso mudar o outro, por isso não posso por nele a responsabilidade das minhas escolhas, tão pouco da minha felicidade.

Sobre moda, ser gorda, e poder. Poder muito.

Sobre moda, ser gorda, e poder. Poder muito.

Por Gizélia Vasconcelos

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“Fashion não é um tamanho. É uma atitude.”

A maioria das meninas aprende logo cedo: “Se você tem corpo x, não pode usar tal peça”, “se suas pernas são de tal jeito, não pode usar isso”. É corriqueiro, é comum. Vivemos num mundo fashion em que somos ensinadas desde sempre que se você não tem aquele corpo cabide dito perfeito das modelos das passarelas, encontrará diversas barreiras para se vestir “na moda”, ou apenas usar peças que gosta, da forma que lhe faz se sentir melhor.

Sempre gostei de moda, sempre li blogs, sempre acompanhei desfiles, revistas. Nunca fui magra, também nunca fui obesa. Sempre fiquei no limbo, que, ironicamente, dependia de quem estivesse “me julgando”. “Ah Gi, desde quando tu é gorda?”, se a pessoa me fosse cara, mas também já ouvi muito xingamento de gorda ridícula/nojenta/insira qualquer coisa desprezível aqui. É verdade, nunca passei do manequim 46, mas para o mundo fashion, o mundo da moda que sempre quis me inserir, eu era imensa. Precisei de muitos anos de amadurecimento para entender que independente do que qualquer pessoa diria, o importante é usar o que VOCÊ gosta. O que lhe faz bem. É claro que o que tá nas passarelas, o que tá “em alta” influencia muito nos nossos conceitos de estiloso/cafona, feio e bonito, mas estamos começando a viver um tempo em que as individualidades são valorizadas, são respeitadas. É daí que nasce o estilo. Mas quão árduo é esse caminho!

A frase mais ouvida por mim, dita por familiares, em todos esses anos sempre foi “Olha como é bom ser fulana, ela é magra e tudo fica mais bonito nela né?”. Acredito até que tenha sido de maneira inocente, mas nossa, como doía. Chegar numa loja e encontrar peças G que na verdade são P, marcas que só vestem até o 40, números maiores que claramente não condiziam com a marcação na etiqueta… Que gorda nunca passou por isso? Quantas vezes já chorei dentro de provadores? Perdi as contas. Parece fútil, mas não é. Eu acredito em moda como expressão da sua personalidade, então quão difícil é realmente se expressar num universo que reprova e exclui?

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É cruel refletir e constatar que desde cedo somos ensinadas a nos invizibilizar. Roupa preta emagrece, cubra os braços, olha o culote e nem pensar mostre qualquer centímetro da sua barriga! E assim caminha a doutrinação. Como conseguir quebrar essa cadeia? Nesses momentos que vejo o quanto representatividade importa. Era difícil pra mim me ver nas passarelas, nos blogs em que as moças são tão magras quanto modelos. Tão difícil quanto era me ver na moda plus size, por dois básicos motivos: Para a referência deles, eu era pequena. E principalmente porque infelizmente a moda plus size trabalhava (e ainda trabalha, de certa forma) dentro dessas caixinhas de invisibilização. Não existiam shorts curtos, roupas com modelagens mais modernas (olha eu tão péssima com adjetivos), tudo parecia aquele pano largão-roupinha de vovó. Lembro de uma vez me indignar porque, ao fazer uma rápida pesquisa online nas lojas voltadas a esse mercado, não encontrei um shortinho que fosse acima do joelho. UM! E aí? Como eu mostrava minhas pernas? hahaha Mas que invenção né, de gorda querer mostrar suas celulites por aí. Um verdadeiro absurdo!

E aí que também nesse mundo online, comecei a conseguir construir minhas próprias referências, meu próprio universo. Blogueiras como a Ju Romano, que faz uma série sensacional chamada Gorda Pode? em que ela usa todas essas peças e modas que são “proibidos pra gordinhas”. Tem calça estampada, short curto, top cropped, transparência. Maravilhosa. Outras blogueiras, modelos gordas estão aí. Cada vez mais as gordas estão aí, mostrando a cara, o corpo e rompendo esses espaços, mostrando que sim, estilo não tem tamanho e que vão ter que nos engolir! Não consigo mensurar e contar a minha felicidade da primeira vez que usei um top cropped e não me importei com os olhares tortos na rua. Quão empoderada eu me senti naquele momento e o quanto eu queria que todas as gordas pudessem se sentir assim.

Ju Romano, do blog
Ju Romano, do blog “Entre Topetes e Vinis”, diva inspiradora

Empoderamento, pra mim, é aceitar a realidade: Seu corpo é lindo, independente do que qualquer um, mídia ou o que seja, diga pra você. E se expressar através da moda é parte grande e importante disso. Não aceita mais um não, garota. Você pode, e pode muito!

Porque é tão difícil amar e ter empatia?

Porque é tão difícil amar e ter empatia?

Por esses dias eu estava navegando na internet e vi algumas postagens que me fizeram pensar sobre como é difícil ter empatia, principalmente quando temos privilégios: ser magro, branco, homem, cisgênero (googleia aí), etc…

Parece que se torna difícil de enxergar o outro e tentar de alguma forma entender o que se passa com alguém de forma que não coloque a outra pessoa em uma posição desprivilegiada.

Mas porque eu resolvi falar de empatia?

Primeiro gostaria de sugerir uma definição dada pelo Google:

empatia

Gostaria de ressaltar principalmente o terceiro ponto, que é onde se apoia o que eu gostaria de falar. Ter empatia com pessoas que são desprivilegiadas é complicado, porque a gente precisa sair do conforto de nossos “corpos” pra sentir o desconforto do outro tomando a si mesmo como parâmetro. E esse processo é muito mais complicado para quem não tem privilégios. O que eu quero dizer com isso?

As pessoas que têm privilégios estão dentro de um padrão, estão incluídas na norma, então essas pessoas tem aparências mais facilmente inteligíveis, logo é mais fácil se colocar na posição de quem está dentro destas normas (apesar de que entender alguém por completo é impossível. Cada um é cada um). Algo que é muito recorrente é que as pessoas confundem EMPATIA com PENA:

pena

Quando eu era gorda para os outros (porque atualmente sou vista como magra, apesar de que na minha cabeça não é bem assim), eu passei por diversas situações em que as pessoas, numa tentativa falha de ter empatia, acabavam tendo PENA de mim, criando uma situação de EMPATIA DETURPADA que fazia com que eu me questionasse: “QUE PORRA?”, sem entender direito o propósito de determinados comentários que as pessoas fazem sobre as outras, porque, convenhamos, as pessoas despendem muito tempo preocupadas em julgar e procurar problemas na vida alheia que tentar cuidar da sua própria vida. Muitas vezes isso leva aos gordos a criarem uma autoimagem deturpada. E, claro, isso é resultado (e resulta na) da gordofobia

Me lembro claramente uma das situações chaves para que eu entendesse como eu sofria gordofobia. Fui à costureira fazer meu terno para fotos clichês de formatura (porque, obviamente, o mercado não absorve toda demanda de pessoas gordas para roupa, então eu era obrigada a mandar fazer) e logo quando eu entrei, ela falou:

– Não conseguiu emagrecer mesmo, hein?

Como se eu tivesse a obrigação de tentar emagrecer ou de querer ser magra. Estava escrito na minha cara (e no meu corpo) que eu não havia “conseguido”. Não bastando isso, os comentários “empáticos” continuaram:

– Mas eu entendo, deve ser muito difícil… Tem uma colega que eu vivo fazendo roupa, gorda, a coitada, disse que arranjou um namorado, mas deve ficar se sentido mal por conta disso, eu vejo que a coitada é infeliz do jeito que é… (os comentários continuaram, mas minha mente parou de processar aquela besteira toda)

Porque alguém só pode ser amada se for magra? Ou se for branca? Ou se for com todo aquele estereótipo da perfeição? É isso?

Aquela costureira só me fez perceber como algumas pessoas criam uma empatia deturpada para com as outras pessoas. Elas acham que sentir pena e julgar é entender as subjetividades e vivências alheias. É como outra situação que passei mesmo sem estar presente, quando resolvi que não iria para um bar da cidade (porque não gostava do local) com alguns amigos. Uma conhecida em comum perguntou por mim e logo soltou:

– É, eu acho que ela deve ter problemas por ser gorda. Eu mesmo me acho gorda e fico complexada pra sair de casa

Aí você percebe que os outros, a partir desse misto de empatia deturpada, pena, julgamento, acabam criando complexos nas outras pessoas, porque há quem diga que nós também somos constituídos pelos outros (pelo que os outros pensam de nós). E quando essa empatia deturpada ocorre, isso acaba afetando a personalidade alheia, principalmente nos primeiros anos de formação, principalmente com crianças no colégio, principalmente quando se é xingada de “baleia”, “gorda nojenta”, dentre tantos outros apelidos que as pessoas colocam e riem diante do choro alheio. E é nesse ponto que entra a EMPATIA SELETIVA.

Vejo muita gente compartilhando coisas sobre não praticar bullying com crianças, ou imagens com crianças passando fome, etc (que, covenhamos, sentimos mais pena do que empatia de tão apelativas que as imagens são). Que bom, é ótimo ter empatia, tentar entender como aquelas pessoas estão tentando enfrentar esses problemas e tentar ajudá-las

Mas o que me assusta é quando vemos casos que são necessários ter empatia aqui no Brasil e as pessoas simplesmente não se chocam ou só reafirmam um preconceito tão perturbador que me deixa triste, que foi de onde tirei a ideia inicial deste post.

No texto que li (clique AQUI para ler o texto completo)  Sophia, mulher trans de Sergipe, que convive desde a infância com a  impossibilidade de ser quem ela realmente é por conta da imposição de gênero, relata sobre como doía ao prender o xixi, pois não tinha autorização de frequentar o banheiro feminino, ou de como foi “responsável” por ser expulsa do colégio:

“O dia que me fez decidir abandonar a escola foi quando, num desses horários, um grupo de rapazes atirou pedras em mim. Me dirigi chorando à coordenação e a coordenadora me informou que aquilo não teria acontecido caso eu tivesse permanecido em sala. A culpa era minha. Eu havia me tornado o problema da instituição, percebi. Fariam de tudo pra me expulsar, ou pior, para que eu mesma fosse embora. Assim, aparentemente, eu seria a única responsável pelo meu fracasso.”

E foi aí que eu percebi a dificuldade que eu tenho de entender porque as pessoas têm essa empatia seletiva, que sentem por uns e o nojo que sentem por outros. Pra expressar um pouco mais da minha indignação, no mesmo dia surgiu outra postagem na página de um rapaz (que há pouco tempo fazia campanha de doação de sangue para ajudar o próximo), destilando veneno contra pessoas gordas (cliquem na imagem que ela aumenta):

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A postagem em si já é péssima, aí você olha os comentários (burlei a lei de: nunca leia os comentários, sempre piora)

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E aí você percebe como as pessoas de um modo geral são hipócritas. Você deve se odiar por ser gordo? Você deve sentir pena dessas pessoas? A questão da obesidade é mais uma questão de respeito e empatia que uma questão de saúde. Ninguém escolhe sofrer gordofobia, ninguém escolhe ser digna de uma empatia deturpada ou seletiva e ninguém quer ser digno de pena. O que falta aí é amor é segurar a mão do outro e ajudar de acordo com a vontade do outro e não a sua opinião, que fica parado olhando e julgando. Não nos culpem, não nos mandem ter “força de vontade”.  É como Sophia falou no final de seu texto:

“Pra vocês “ser forte” significa suportar sozinha as marcas que uma pedra deixa na nossa subjetividade, ao invés de lutarem comigo para que nenhuma mais seja jogada.”

Relato – Lelinha Dantas

Relato – Lelinha Dantas

Olá pessoas, sendo bem sincera não sei muito bem como começar, mas acredito que sendo sincera já é um grande passo.

Pois bem, a minha relação com o meu corpo nem sempre foi das melhores, eu sempre me considerei gorda (ou pelo menos gordinha), desde a infância, tenho uma estrutura grande, sempre fui a maior da turma e por vezes isso me incomodou, mas não ao ponto de eu não me amar, eu me considerava bem resolvida e feliz “apesar” do meu corpo.

Em 2008 as coisas tomaram outro rumo, quando descobri que tenho lupus, uma doença auto-imune, que tem muito a ver com a forma que as emoções passavam/passam na minha vida. Depois de muita medicação errada, algumas internações com diagnósticos equivocados, chegamos ao diagnóstico correto, foi uma tristeza, eu tinha apenas 16 anos e não sabia como seria dali para frente, eu tinha medo, mas escondia de todos, até de mim. Com o diagnóstico fechado, chegou a hora do médico, que a partir de agora seria meu companheiro por um período indeterminado, me esclarecer como seria minha vida a partir dali. Lembro-me daquele discurso como se tivesse acontecido ontem:
-Olá Wellen, se sente melhor? Precisamos conversar um pouco.
Tudo que eu queria ouvir é que eu ficaria bem e voltaria à minha vida normal,mas não foi exatamente o que ele falou.
Ele continuou o papo, do auge de todo o seu conhecimento supremo:
-Você já começou o tratamento com corticóides e vai precisar tomá-los pelo resto de sua vida, assim ficará bem! As pessoas com lupus só precisam se cuidar. E quanto ao corticóide, ele vai fazer você engordar, de antemão já lhe aconselho a procurar um psicólogo, porque é melhor ficar gorda e viva do que magra e morta.

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Não me lembro como o respondi, nem como reagi à princípio, mas aquelas palavras não saíram nunca mais da minha memória. No fundo eu esperava que ele estivesse sendo um tanto dramático, afinal o que seria “ficar gorda” para alguém que sempre foi gordinha? Eu tinha certeza que tiraria de letra. Já nos primeiros três meses de tratamento foram 22 quilos a mais, ele tinha razão, eu precisaria da ajuda de um psicólogo.

As pessoas na rua me olhavam torto, todas elas, as que me conheciam e as que nunca haviam me visto. Eu estava irreconhecível para os outros e mais ainda para mim, olhar-me no espelho era doloroso. Três meses não foram suficientes para eu me preparar para ganhar o peso de duas gestações de uma vez.
As dosagens dos remédios só poderiam ser reduzidas com o controle da doença(intimamente ligado ao emocional), mas a essa altura eu estava com depressão, tomando remédios pra conseguir sorrir.

Durante alguns anos fui à uma médica que nada tinha a ver com a minha doença, ela fazia o papel de alisar as tapas que aquele médico “companheiro” me dava com palavras à cada consulta. Ele dizia: “Eu avisei, você já sabia que ia ficar assim!” e ela completava: “Você continua linda, não se preocupe que isso vai passar.”.Hoje a minha relação com meu corpo é de gratidão, acredito que ele é um templo, não uma prisão, devo cuidar dele porque ele é meu lar enquanto houver vida.

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Sou contra apologias à gordura e à magreza, e a favor da saúde e do bem estar. Sejamos felizes nos corpos em que moramos, a saúde dele está intimamente ligada à relação que temos com os mesmos.lelis2

É importante não esperar emagrecer (ou engordar) para ser feliz, comecem agora!

Quando ser gorda interfere no seu relacionamento com os outros

Quando ser gorda interfere no seu relacionamento com os outros

Eu comecei a engordar rapidamente aos 8 ou 9 anos de idade devido à Síndrome dos Ovários Policísticos. A partir de então passei a ganhar apelidos e sofrer gozações. O que hoje se convencionou chamar de bullying, no meu colégio chamavam de brincadeira. Bem, eu não achava engraçado.

Essa rotina de agressões diárias interfere bastante no modo como você se relaciona consigo mesma e com os outros. Se tantas pessoas, textos, propagandas, novelas e programas de tv falam que há algo errado com o seu corpo, fica muito difícil não acreditar que isso não é real.

Eu sempre andava com os meninos, ficava muito próxima deles, mas não namorava ou ficava. Colecionei relacionamentos platônicos na adolescência.

Haviam horas de conversas, haviam indiretas, haviam comentários, haviam aqueles momentos onde ambos se calam, olhos se encontram e… daí não passava.

http://blogfattitude.com/gordinha-e-o-gordinho/
http://blogfattitude.com/gordinha-e-o-gordinho/

Eu não me sentia atraente, muito menos interessante. E como iria me sentir se eu tinha um mundo apontando para mim como se eu fosse uma aberração? Então, eu ficava naquela dúvida se o carinha tinha algum interesse, se queria ser apenas meu amigo ou se era um escroto que estava tirando onda com a minha cara.

Ah Martha, isso beira a paranóia.

Bem que eu queria que fosse paranóia.

Outro dia eu estava conversando com uma amiga, e ela me contou sobre uma guria que é gorda. Ela passava o dia no whatsapp conversando com um conhecido em comum. O carinha começou a dar em cima dela. Mas ao comentar com outras pessoas do grupo sobre isso, alguns reagiram com incredulidade, enquanto outros falaram que ele provavelmente estaria brincando e passaram a fazer piadinhas.

Nesse momento vários flashbacks vieram em minhas lembranças e me identifiquei muito com essa situação.

Um cenário como esse é preocupante por dois motivos.

O primeiro decorre do abalo na auto estima. Afinal, o que essa menina vai pensar ao perceber que seus próprios amigos não acham possível que alguém possa se sentir atraído por ela? Como não se sentir uma anomalia após se deparar com esta reação?

A segunda é pela impossibilidade dessa moça pedir ajuda em casos de assédio. Afinal, gordas não se enquadram no perfil de vítima ideal deste tipo de abuso. No entanto, não é pouco comum que o assediador se confie nesta incredulidade.

Gordas também não se enquadram no papel de namorada. Mãe e esposa até pode ser, por que se imagina que antes de se tornar uma das duas, com certeza era magra. Afinal, um corpo gordo, segundo o discurso que hoje impera, não pode ser desejado por outras pessoas. E quando isso ocorre busca-se uma justificativa.

Quem nunca ouviu alguém falar que “o importante é a beleza interior”, na tentativa de cortar o papo quando o assunto são os  padrões estéticos?

Desculpa aí, mas não preciso de meia sola para a minha auto estima. Eu já falei aqui que ser gorda não é crime.

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150204_dancarina_peso_sucesso_fn
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150204_dancarina_peso_sucesso_fn

Portanto, dispenso qualquer atenuante para isso.

E outra, também não me venha que não tem problema, que “é bom ter onde pegar”.

Para encerrar essa conversa, meu corpo não existe apenas para a satisfação alheia. Quer pegar/apertar algo? Almofadas, bolinhas de tênis e de silicone estão aí para que você faça isso.

Agora vou ali ser feliz. Beijas.

Relato: Júlia D’avila

Relato: Júlia D’avila

“Ela foi ultrajada, despojada, incendiada e calada.
Foi plastificada, castrada, escondida e subjugada.
Foi humilhada, mutilada e esquecida.
Mas Ela se reascende, agora, inteira.

Ressurgindo de uma vaga lembrança, de um arrepio, um sopro, uma brasa, um suspiro, um gozo, um sussurro… heis que Ela renasce.”

Esse trecho de um texto da Morena Cardoso traduz a sensação de liberdade que sinto agora, nunca foi fácil moldar-me ao corpo e mente ideal, que a sociedade sempre tentou nos enfiar goela abaixo. Sinto que renasci porque entendi meu corpo e aprendi a amá-lo como ele é, renasci porque sou livre, renasci porque toda mulher oprimida pelo sistema morre um pouco a cada dia.

Participar do projeto Gaia da fotógrafa Carol Monteiro este ano me trouxe à memória os conflitos de uma adolescência de negação, onde lidar com meu corpo era doloroso. Porém hoje me desfiz das amarras de uma sociedade civilizatória com o peito aberto, entendendo que sou linda e livre. Renasci!

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Júlia D’avila no projeto GAIA

Projeto Gaia

“Gaia” é o nome do projeto de nu artístico criado pela artista Carol Monteiro em Fortaleza (CE) que tem o intuito de expressar toda força, leveza e delicadeza do corpo da mulher a fim de evidenciar a ideia do Sagrado Feminino em uma série fotográfica. O projeto “Gaia”, nome que remete à uma deusa grega que representa a Mãe Terra, esboça a diversidade de traços, histórias, sonhos e marcas que cada uma dessas mulheres de estilos, formas e ocupações diferentes carrega em seus olhares e vidas, assim realçando de forma magnífica todo o poder e energia da mulher, e claro, evitando qualquer conotação sexual do íntimo delas.

Vamos falar de privilégio? Vamos sim.

Vamos falar de privilégio? Vamos sim.

Esses dias vi um vídeo que me tocou profundamente e que me fez pensar um pouco em tudo que eu sou, na minha luta e na das minhas companheiras. O vídeo é o seguinte:

Nele, duas mulheres negras, Crystal Valentine e Aaliyah Jihad, falam sobre a solidão da mulher negra, sobre como é ser preterida, inclusive pelos próprios homens negros, em favor de mulheres brancas ou miscigenadas. Como é ter a autoestima minada a cada vez que um cara diz que “não sai com mulheres negras”. É uma fala forte, dolorida e me arrepia toda vez que eu assisto. Mas eu só posso imaginar essa dor, nunca poderei sentir na pele o que é ser uma mulher negra, porque eu sou branca, e ser branca, em uma sociedade racista, carrega uma série de privilégios. Não reconhecer os privilégios que se tem por fazer parte de um determinado grupo contribui para invisibilizar a dor e a luta de muita gente.

Assim como ser branco em uma sociedade racista é um privilégio, existem uma série de outros que precisamos falar exaustivamente, até que entre pelo menos um pouquinho na cabeça das pessoas. Vou aqui enumerar alguns, mas existem vários outros, que não são menos importantes.

Privilégio heterossexual

Alguém tem alguma dúvida de que ser heterossexual é um privilégio? Que poder sair na rua de mãos dadas com o seu amor, trocar beijinhos em lugares públicos sem medo de levar uma lampadada ou ser expulso de um bar ou restaurante é um privilégio? No caso de mulheres lésbicas e bissexuais, o desprivilégio é ainda maior, porque além de sofrerem lesbofobia/bifobia (sim, homofobia é um termo muito genérico que invisibiliza a opressão sofrida por mulheres lésbicas e bissexuais), ainda sofrem com o machismo que é comum a todas as mulheres. Além disso, existem vários e vários casos de estupros corretivos a mulheres não-heterossexuais. Pois é, o mundo é bem escroto.

Privilégio cisgênero

Vamos lá, o que é ser uma pessoa cisgênera? É ser alguém que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer, ou seja, uma pessoa que foi designada mulher e se identifica com o gênero feminino, por exemplo. E pessoas que não são cisgêneras, são o quê? São pessoas transgêneras, ou simplesmente pessoas trans* (o asterisco é pra indicar que o termo abarca uma série de identidades, como transsexuais, travestis, transgêneros, dentre outras). As mulheres trans* fazem parte de um grupo bastante marginalizado, mesmo dentro de movimentos sociais que deveriam acolhê-las, como o feminismo e o movimento LGBT. Ser uma pessoa trans* significa, antes de mais nada, não ser tratada como um ser humano, e sim como algo abjeto, monstruoso, que mal tem direito de existir. É ter negado o direito à educação, visto que nas escolas não respeitam sua identidade de gênero e isso faz com que recebam agressões diárias. É ter negado um emprego decente e precisar se prostituir pra ter o que comer. É ter negado o direito à saúde, já que existem pouquíssimas clínicas especializadas em saúde da pessoa trans*, e nas outras, como exigem sempre um documento, muitas pessoas trans* não querem se sujeitar à humilhação de serem chamadas por um nome que não reconhecem.

Muitas pessoas, feministas inclusive, afirmam que não existe um privilégio cisgênero, já que ser mulher não é privilégio nenhum, ou dizem que não são transfóbicas porque mulher não pode oprimir. Mas vamos pensar um pouco: ser mulher não é nenhum privilégio, é verdade, sofremos diariamente com machismo e misoginia. Mas ser mulher cis é SIM privilégio sobre ser mulher trans*, só o fato de ter sua identidade reconhecida e poder transitar em espaços femininos sem ser escrachada é um grande privilégio. Outra novidade: mulher pode sim oprimir, e eu vejo isso todos os dias, vai dizer que não existe mulher homofóbica, racista, transfóbica? Então vamos parar com esses argumentos rasos só pra não reconhecer o privilégio que tem?

Privilégio magro

Aqui finalmente voltando ao tema deste lindo blog, uma coisa que toda gorda já sentiu, mas que talvez nunca tenha colocado em palavras: ser magra é um privilégio. Ir em uma loja e ter milhares de opções de roupas do seu tamanho pra escolher, sentar em um lugar público pra comer sem temer que alguém venha se meter na sua vida e na sua refeição, passar despreocupada na catraca do ônibus, sentar despreocupada em uma cadeira de plástico, andar na rua e não ser xingada gratuitamente por causa do seu peso, não ser lembrada a cada postagem engraçadinha que diz “marque aqui sua amiga gordinha escrota que [insira aqui qualquer coisa com relação a comida]”, não ser representada na televisão como aquela personagem cômica, desajeitada, virgem, desesperada por um homem, que come a cada cinco minutos, não ser uma categoria de piada, como “piada de gordo”.

Ser gorda é despertar o ódio de todo mundo quando você se ama, quando está satisfeita com o seu corpo, porque o corpo gordo não é e jamais pode ser desejável, se a pessoa é gorda, o mínimo que ela pode fazer é se odiar. E as pessoas fazem isso até sem perceber, em maior ou menor grau de intensidade. A prova é que quando saiu a capa da revista Elle de maio de 2015, com a blogueira plus size Ju Romano, mostrando o corpo gordo, nem retoques de photoshop, parece que o mundo desabou. Choveram comentários horríveis, criticando o corpo e a atitude da moça, querendo que ela se envergonhasse do próprio corpo, isso inclusive vindo de feministas.

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Algumas feministas tem uma relação engraçada com a nudez. Nesse vasto mundo chamado internet cansei de ver fotos de mulheres nuas, enviadas em grupos com essa finalidade, dizendo que fizeram as fotos como forma de se sentirem bonitas; ou ensaios ditos sensuais, que visam empoderar mulheres fazendo elas ficarem bem com seus próprios corpos. Eu particularmente não tenho nadinha contra nudez e acho maravilhoso mulheres amando seus corpos e cagando pro julgamento alheio, mas sabe o que essas duas situações tem em comum? Os corpos fotografados e empoderados eram sempre magros e brancos, bem dentrinho dos padrões. Vez ou outra sai um ensaio de mulheres gordas e os comentários, quando não são o clássico “Nossa, gorda escrota nojenta”, giram sempre em torno de “Nudez não tem nada de empoderadora, porque se a mulher está fazendo um ensaio nu, isso só vai ser bom para os homens, que vão ter material pornográfico de graça por aí” (Pasmem, só vejo esse tipo de comentário quando o ensaio não é com mulheres magras, brancas, dentro dos padrões; ser magra é um privilégio até nisso, veja bem).

Como se toda nudez precisasse, obrigatoriamente ser sensual, ou a serviço de homens. Uma bunda é só uma bunda, um peito é só um peito, uma pepeca é só uma pepeca e essas partes podem ser sensuais ou não dependendo do contexto. Nudez é empoderadora sim, quando o corpo que está la nu foge dos padrões do que é belo, aceitável e sensual. Nudez pode ser empoderadora quando mostra que corpos inconformes, gordos, negros, trans*, com deficiência, também podem ser bonitos, por que não?

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Foto: Leonard Nimoy

Além desses existem inúmeros privilégios que eu não falei porque não tenho propriedade nenhuma sobre o tema, como o privilégio de não ter nenhuma deficiência (Isso deve ter um nome, mas eu não achei em uma pesquisa rápida pelo google, me perdoem, se alguém souber eu adoraria aprender).

O importante é estarmos sempre atentas às pessoas que nos cercam, ter empatia pela dor alheia e não achar nunca que nossos problemas são maiores ou mais importantes que o do outro. Tratar as pessoas com humanidade e respeito, independente de qualquer coisa, pode fazer esse mundo menos cruel e sufocante para algumas pessoas. Vamos pensar nisso?