Vamos falar de privilégio? Vamos sim.

Vamos falar de privilégio? Vamos sim.

Esses dias vi um vídeo que me tocou profundamente e que me fez pensar um pouco em tudo que eu sou, na minha luta e na das minhas companheiras. O vídeo é o seguinte:

Nele, duas mulheres negras, Crystal Valentine e Aaliyah Jihad, falam sobre a solidão da mulher negra, sobre como é ser preterida, inclusive pelos próprios homens negros, em favor de mulheres brancas ou miscigenadas. Como é ter a autoestima minada a cada vez que um cara diz que “não sai com mulheres negras”. É uma fala forte, dolorida e me arrepia toda vez que eu assisto. Mas eu só posso imaginar essa dor, nunca poderei sentir na pele o que é ser uma mulher negra, porque eu sou branca, e ser branca, em uma sociedade racista, carrega uma série de privilégios. Não reconhecer os privilégios que se tem por fazer parte de um determinado grupo contribui para invisibilizar a dor e a luta de muita gente.

Assim como ser branco em uma sociedade racista é um privilégio, existem uma série de outros que precisamos falar exaustivamente, até que entre pelo menos um pouquinho na cabeça das pessoas. Vou aqui enumerar alguns, mas existem vários outros, que não são menos importantes.

Privilégio heterossexual

Alguém tem alguma dúvida de que ser heterossexual é um privilégio? Que poder sair na rua de mãos dadas com o seu amor, trocar beijinhos em lugares públicos sem medo de levar uma lampadada ou ser expulso de um bar ou restaurante é um privilégio? No caso de mulheres lésbicas e bissexuais, o desprivilégio é ainda maior, porque além de sofrerem lesbofobia/bifobia (sim, homofobia é um termo muito genérico que invisibiliza a opressão sofrida por mulheres lésbicas e bissexuais), ainda sofrem com o machismo que é comum a todas as mulheres. Além disso, existem vários e vários casos de estupros corretivos a mulheres não-heterossexuais. Pois é, o mundo é bem escroto.

Privilégio cisgênero

Vamos lá, o que é ser uma pessoa cisgênera? É ser alguém que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer, ou seja, uma pessoa que foi designada mulher e se identifica com o gênero feminino, por exemplo. E pessoas que não são cisgêneras, são o quê? São pessoas transgêneras, ou simplesmente pessoas trans* (o asterisco é pra indicar que o termo abarca uma série de identidades, como transsexuais, travestis, transgêneros, dentre outras). As mulheres trans* fazem parte de um grupo bastante marginalizado, mesmo dentro de movimentos sociais que deveriam acolhê-las, como o feminismo e o movimento LGBT. Ser uma pessoa trans* significa, antes de mais nada, não ser tratada como um ser humano, e sim como algo abjeto, monstruoso, que mal tem direito de existir. É ter negado o direito à educação, visto que nas escolas não respeitam sua identidade de gênero e isso faz com que recebam agressões diárias. É ter negado um emprego decente e precisar se prostituir pra ter o que comer. É ter negado o direito à saúde, já que existem pouquíssimas clínicas especializadas em saúde da pessoa trans*, e nas outras, como exigem sempre um documento, muitas pessoas trans* não querem se sujeitar à humilhação de serem chamadas por um nome que não reconhecem.

Muitas pessoas, feministas inclusive, afirmam que não existe um privilégio cisgênero, já que ser mulher não é privilégio nenhum, ou dizem que não são transfóbicas porque mulher não pode oprimir. Mas vamos pensar um pouco: ser mulher não é nenhum privilégio, é verdade, sofremos diariamente com machismo e misoginia. Mas ser mulher cis é SIM privilégio sobre ser mulher trans*, só o fato de ter sua identidade reconhecida e poder transitar em espaços femininos sem ser escrachada é um grande privilégio. Outra novidade: mulher pode sim oprimir, e eu vejo isso todos os dias, vai dizer que não existe mulher homofóbica, racista, transfóbica? Então vamos parar com esses argumentos rasos só pra não reconhecer o privilégio que tem?

Privilégio magro

Aqui finalmente voltando ao tema deste lindo blog, uma coisa que toda gorda já sentiu, mas que talvez nunca tenha colocado em palavras: ser magra é um privilégio. Ir em uma loja e ter milhares de opções de roupas do seu tamanho pra escolher, sentar em um lugar público pra comer sem temer que alguém venha se meter na sua vida e na sua refeição, passar despreocupada na catraca do ônibus, sentar despreocupada em uma cadeira de plástico, andar na rua e não ser xingada gratuitamente por causa do seu peso, não ser lembrada a cada postagem engraçadinha que diz “marque aqui sua amiga gordinha escrota que [insira aqui qualquer coisa com relação a comida]”, não ser representada na televisão como aquela personagem cômica, desajeitada, virgem, desesperada por um homem, que come a cada cinco minutos, não ser uma categoria de piada, como “piada de gordo”.

Ser gorda é despertar o ódio de todo mundo quando você se ama, quando está satisfeita com o seu corpo, porque o corpo gordo não é e jamais pode ser desejável, se a pessoa é gorda, o mínimo que ela pode fazer é se odiar. E as pessoas fazem isso até sem perceber, em maior ou menor grau de intensidade. A prova é que quando saiu a capa da revista Elle de maio de 2015, com a blogueira plus size Ju Romano, mostrando o corpo gordo, nem retoques de photoshop, parece que o mundo desabou. Choveram comentários horríveis, criticando o corpo e a atitude da moça, querendo que ela se envergonhasse do próprio corpo, isso inclusive vindo de feministas.

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Algumas feministas tem uma relação engraçada com a nudez. Nesse vasto mundo chamado internet cansei de ver fotos de mulheres nuas, enviadas em grupos com essa finalidade, dizendo que fizeram as fotos como forma de se sentirem bonitas; ou ensaios ditos sensuais, que visam empoderar mulheres fazendo elas ficarem bem com seus próprios corpos. Eu particularmente não tenho nadinha contra nudez e acho maravilhoso mulheres amando seus corpos e cagando pro julgamento alheio, mas sabe o que essas duas situações tem em comum? Os corpos fotografados e empoderados eram sempre magros e brancos, bem dentrinho dos padrões. Vez ou outra sai um ensaio de mulheres gordas e os comentários, quando não são o clássico “Nossa, gorda escrota nojenta”, giram sempre em torno de “Nudez não tem nada de empoderadora, porque se a mulher está fazendo um ensaio nu, isso só vai ser bom para os homens, que vão ter material pornográfico de graça por aí” (Pasmem, só vejo esse tipo de comentário quando o ensaio não é com mulheres magras, brancas, dentro dos padrões; ser magra é um privilégio até nisso, veja bem).

Como se toda nudez precisasse, obrigatoriamente ser sensual, ou a serviço de homens. Uma bunda é só uma bunda, um peito é só um peito, uma pepeca é só uma pepeca e essas partes podem ser sensuais ou não dependendo do contexto. Nudez é empoderadora sim, quando o corpo que está la nu foge dos padrões do que é belo, aceitável e sensual. Nudez pode ser empoderadora quando mostra que corpos inconformes, gordos, negros, trans*, com deficiência, também podem ser bonitos, por que não?

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Foto: Leonard Nimoy

Além desses existem inúmeros privilégios que eu não falei porque não tenho propriedade nenhuma sobre o tema, como o privilégio de não ter nenhuma deficiência (Isso deve ter um nome, mas eu não achei em uma pesquisa rápida pelo google, me perdoem, se alguém souber eu adoraria aprender).

O importante é estarmos sempre atentas às pessoas que nos cercam, ter empatia pela dor alheia e não achar nunca que nossos problemas são maiores ou mais importantes que o do outro. Tratar as pessoas com humanidade e respeito, independente de qualquer coisa, pode fazer esse mundo menos cruel e sufocante para algumas pessoas. Vamos pensar nisso?

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Um comentário sobre “Vamos falar de privilégio? Vamos sim.

  1. Oi, Dafne. Belo texto. Gostaria de contribuir, com relação à sua dúvida ao final, pois me diz respeito. Ao preconceito ante pessoas com deficiência física, este que pressupõe que o sujeito só é CAPAZ socialmente se dispor da totalidade de suas funções corporais em pleno funcionamento, a este tipo de preconceito, enfim, dá-se o nome de “Capacitismo”.
    Primeira vez que passeio aqui pelo site de vocês, belo, importante e necessário trabalho.
    Grande abraço

    Curtido por 1 pessoa

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