Porque é tão difícil amar e ter empatia?

Porque é tão difícil amar e ter empatia?

Por esses dias eu estava navegando na internet e vi algumas postagens que me fizeram pensar sobre como é difícil ter empatia, principalmente quando temos privilégios: ser magro, branco, homem, cisgênero (googleia aí), etc…

Parece que se torna difícil de enxergar o outro e tentar de alguma forma entender o que se passa com alguém de forma que não coloque a outra pessoa em uma posição desprivilegiada.

Mas porque eu resolvi falar de empatia?

Primeiro gostaria de sugerir uma definição dada pelo Google:

empatia

Gostaria de ressaltar principalmente o terceiro ponto, que é onde se apoia o que eu gostaria de falar. Ter empatia com pessoas que são desprivilegiadas é complicado, porque a gente precisa sair do conforto de nossos “corpos” pra sentir o desconforto do outro tomando a si mesmo como parâmetro. E esse processo é muito mais complicado para quem não tem privilégios. O que eu quero dizer com isso?

As pessoas que têm privilégios estão dentro de um padrão, estão incluídas na norma, então essas pessoas tem aparências mais facilmente inteligíveis, logo é mais fácil se colocar na posição de quem está dentro destas normas (apesar de que entender alguém por completo é impossível. Cada um é cada um). Algo que é muito recorrente é que as pessoas confundem EMPATIA com PENA:

pena

Quando eu era gorda para os outros (porque atualmente sou vista como magra, apesar de que na minha cabeça não é bem assim), eu passei por diversas situações em que as pessoas, numa tentativa falha de ter empatia, acabavam tendo PENA de mim, criando uma situação de EMPATIA DETURPADA que fazia com que eu me questionasse: “QUE PORRA?”, sem entender direito o propósito de determinados comentários que as pessoas fazem sobre as outras, porque, convenhamos, as pessoas despendem muito tempo preocupadas em julgar e procurar problemas na vida alheia que tentar cuidar da sua própria vida. Muitas vezes isso leva aos gordos a criarem uma autoimagem deturpada. E, claro, isso é resultado (e resulta na) da gordofobia

Me lembro claramente uma das situações chaves para que eu entendesse como eu sofria gordofobia. Fui à costureira fazer meu terno para fotos clichês de formatura (porque, obviamente, o mercado não absorve toda demanda de pessoas gordas para roupa, então eu era obrigada a mandar fazer) e logo quando eu entrei, ela falou:

– Não conseguiu emagrecer mesmo, hein?

Como se eu tivesse a obrigação de tentar emagrecer ou de querer ser magra. Estava escrito na minha cara (e no meu corpo) que eu não havia “conseguido”. Não bastando isso, os comentários “empáticos” continuaram:

– Mas eu entendo, deve ser muito difícil… Tem uma colega que eu vivo fazendo roupa, gorda, a coitada, disse que arranjou um namorado, mas deve ficar se sentido mal por conta disso, eu vejo que a coitada é infeliz do jeito que é… (os comentários continuaram, mas minha mente parou de processar aquela besteira toda)

Porque alguém só pode ser amada se for magra? Ou se for branca? Ou se for com todo aquele estereótipo da perfeição? É isso?

Aquela costureira só me fez perceber como algumas pessoas criam uma empatia deturpada para com as outras pessoas. Elas acham que sentir pena e julgar é entender as subjetividades e vivências alheias. É como outra situação que passei mesmo sem estar presente, quando resolvi que não iria para um bar da cidade (porque não gostava do local) com alguns amigos. Uma conhecida em comum perguntou por mim e logo soltou:

– É, eu acho que ela deve ter problemas por ser gorda. Eu mesmo me acho gorda e fico complexada pra sair de casa

Aí você percebe que os outros, a partir desse misto de empatia deturpada, pena, julgamento, acabam criando complexos nas outras pessoas, porque há quem diga que nós também somos constituídos pelos outros (pelo que os outros pensam de nós). E quando essa empatia deturpada ocorre, isso acaba afetando a personalidade alheia, principalmente nos primeiros anos de formação, principalmente com crianças no colégio, principalmente quando se é xingada de “baleia”, “gorda nojenta”, dentre tantos outros apelidos que as pessoas colocam e riem diante do choro alheio. E é nesse ponto que entra a EMPATIA SELETIVA.

Vejo muita gente compartilhando coisas sobre não praticar bullying com crianças, ou imagens com crianças passando fome, etc (que, covenhamos, sentimos mais pena do que empatia de tão apelativas que as imagens são). Que bom, é ótimo ter empatia, tentar entender como aquelas pessoas estão tentando enfrentar esses problemas e tentar ajudá-las

Mas o que me assusta é quando vemos casos que são necessários ter empatia aqui no Brasil e as pessoas simplesmente não se chocam ou só reafirmam um preconceito tão perturbador que me deixa triste, que foi de onde tirei a ideia inicial deste post.

No texto que li (clique AQUI para ler o texto completo)  Sophia, mulher trans de Sergipe, que convive desde a infância com a  impossibilidade de ser quem ela realmente é por conta da imposição de gênero, relata sobre como doía ao prender o xixi, pois não tinha autorização de frequentar o banheiro feminino, ou de como foi “responsável” por ser expulsa do colégio:

“O dia que me fez decidir abandonar a escola foi quando, num desses horários, um grupo de rapazes atirou pedras em mim. Me dirigi chorando à coordenação e a coordenadora me informou que aquilo não teria acontecido caso eu tivesse permanecido em sala. A culpa era minha. Eu havia me tornado o problema da instituição, percebi. Fariam de tudo pra me expulsar, ou pior, para que eu mesma fosse embora. Assim, aparentemente, eu seria a única responsável pelo meu fracasso.”

E foi aí que eu percebi a dificuldade que eu tenho de entender porque as pessoas têm essa empatia seletiva, que sentem por uns e o nojo que sentem por outros. Pra expressar um pouco mais da minha indignação, no mesmo dia surgiu outra postagem na página de um rapaz (que há pouco tempo fazia campanha de doação de sangue para ajudar o próximo), destilando veneno contra pessoas gordas (cliquem na imagem que ela aumenta):

post

A postagem em si já é péssima, aí você olha os comentários (burlei a lei de: nunca leia os comentários, sempre piora)

comments

E aí você percebe como as pessoas de um modo geral são hipócritas. Você deve se odiar por ser gordo? Você deve sentir pena dessas pessoas? A questão da obesidade é mais uma questão de respeito e empatia que uma questão de saúde. Ninguém escolhe sofrer gordofobia, ninguém escolhe ser digna de uma empatia deturpada ou seletiva e ninguém quer ser digno de pena. O que falta aí é amor é segurar a mão do outro e ajudar de acordo com a vontade do outro e não a sua opinião, que fica parado olhando e julgando. Não nos culpem, não nos mandem ter “força de vontade”.  É como Sophia falou no final de seu texto:

“Pra vocês “ser forte” significa suportar sozinha as marcas que uma pedra deixa na nossa subjetividade, ao invés de lutarem comigo para que nenhuma mais seja jogada.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s