Sobre moda, ser gorda, e poder. Poder muito.

Sobre moda, ser gorda, e poder. Poder muito.

Por Gizélia Vasconcelos

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“Fashion não é um tamanho. É uma atitude.”

A maioria das meninas aprende logo cedo: “Se você tem corpo x, não pode usar tal peça”, “se suas pernas são de tal jeito, não pode usar isso”. É corriqueiro, é comum. Vivemos num mundo fashion em que somos ensinadas desde sempre que se você não tem aquele corpo cabide dito perfeito das modelos das passarelas, encontrará diversas barreiras para se vestir “na moda”, ou apenas usar peças que gosta, da forma que lhe faz se sentir melhor.

Sempre gostei de moda, sempre li blogs, sempre acompanhei desfiles, revistas. Nunca fui magra, também nunca fui obesa. Sempre fiquei no limbo, que, ironicamente, dependia de quem estivesse “me julgando”. “Ah Gi, desde quando tu é gorda?”, se a pessoa me fosse cara, mas também já ouvi muito xingamento de gorda ridícula/nojenta/insira qualquer coisa desprezível aqui. É verdade, nunca passei do manequim 46, mas para o mundo fashion, o mundo da moda que sempre quis me inserir, eu era imensa. Precisei de muitos anos de amadurecimento para entender que independente do que qualquer pessoa diria, o importante é usar o que VOCÊ gosta. O que lhe faz bem. É claro que o que tá nas passarelas, o que tá “em alta” influencia muito nos nossos conceitos de estiloso/cafona, feio e bonito, mas estamos começando a viver um tempo em que as individualidades são valorizadas, são respeitadas. É daí que nasce o estilo. Mas quão árduo é esse caminho!

A frase mais ouvida por mim, dita por familiares, em todos esses anos sempre foi “Olha como é bom ser fulana, ela é magra e tudo fica mais bonito nela né?”. Acredito até que tenha sido de maneira inocente, mas nossa, como doía. Chegar numa loja e encontrar peças G que na verdade são P, marcas que só vestem até o 40, números maiores que claramente não condiziam com a marcação na etiqueta… Que gorda nunca passou por isso? Quantas vezes já chorei dentro de provadores? Perdi as contas. Parece fútil, mas não é. Eu acredito em moda como expressão da sua personalidade, então quão difícil é realmente se expressar num universo que reprova e exclui?

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É cruel refletir e constatar que desde cedo somos ensinadas a nos invizibilizar. Roupa preta emagrece, cubra os braços, olha o culote e nem pensar mostre qualquer centímetro da sua barriga! E assim caminha a doutrinação. Como conseguir quebrar essa cadeia? Nesses momentos que vejo o quanto representatividade importa. Era difícil pra mim me ver nas passarelas, nos blogs em que as moças são tão magras quanto modelos. Tão difícil quanto era me ver na moda plus size, por dois básicos motivos: Para a referência deles, eu era pequena. E principalmente porque infelizmente a moda plus size trabalhava (e ainda trabalha, de certa forma) dentro dessas caixinhas de invisibilização. Não existiam shorts curtos, roupas com modelagens mais modernas (olha eu tão péssima com adjetivos), tudo parecia aquele pano largão-roupinha de vovó. Lembro de uma vez me indignar porque, ao fazer uma rápida pesquisa online nas lojas voltadas a esse mercado, não encontrei um shortinho que fosse acima do joelho. UM! E aí? Como eu mostrava minhas pernas? hahaha Mas que invenção né, de gorda querer mostrar suas celulites por aí. Um verdadeiro absurdo!

E aí que também nesse mundo online, comecei a conseguir construir minhas próprias referências, meu próprio universo. Blogueiras como a Ju Romano, que faz uma série sensacional chamada Gorda Pode? em que ela usa todas essas peças e modas que são “proibidos pra gordinhas”. Tem calça estampada, short curto, top cropped, transparência. Maravilhosa. Outras blogueiras, modelos gordas estão aí. Cada vez mais as gordas estão aí, mostrando a cara, o corpo e rompendo esses espaços, mostrando que sim, estilo não tem tamanho e que vão ter que nos engolir! Não consigo mensurar e contar a minha felicidade da primeira vez que usei um top cropped e não me importei com os olhares tortos na rua. Quão empoderada eu me senti naquele momento e o quanto eu queria que todas as gordas pudessem se sentir assim.

Ju Romano, do blog
Ju Romano, do blog “Entre Topetes e Vinis”, diva inspiradora

Empoderamento, pra mim, é aceitar a realidade: Seu corpo é lindo, independente do que qualquer um, mídia ou o que seja, diga pra você. E se expressar através da moda é parte grande e importante disso. Não aceita mais um não, garota. Você pode, e pode muito!

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2 comentários sobre “Sobre moda, ser gorda, e poder. Poder muito.

  1. O importante é ter SAÚDE! Caso você seja gorda e saudável, ok. O mesmo serve pras magras, como eu. A moda apenas auxilia no que vai nos favorecer ou não, ela não impõe! Cabe a você decidir o que fica melhor no seu corpo, eu, por exemplo, sou magra e nem por isso uso tudo que tá disponível no mercado por questão de BOM SENSO.
    É verdade que as marcas fazem roupa até um certo tamanho, mas você já parou pra pensar que gente obesa não é saudável? quantos problemas pode gerar a gordura excessiva… Não tô dizendo que tem que ser magrela doente (anoréxica), mas você falou do tamanho que usa, tu és uma gordinha, não chega ao nível do que tô falando.
    Eu vejo esse pensamento de moda plus size o mesmo que é da moda pra magricelas, pq da mesma forma que tem gente morrendo pra ser magra, tem gente morrendo por se aceitar obesa e não ligar com as questões de saúde pq agora ser gordinha é aceitável.
    Bom, é isso que passa para mim! E colega, se tu desejas vestir uma roupa e não tem teu tamanho pega o modelo e vai na costureira! hahahaha, além de economizar fica feito sob medida, quer algo melhor?

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    1. Oi Anna. Eu acho que você não entendeu muito bem a proposta do texto.
      Para começar, essa questão de saúde é bastante relativa, e muitas vezes patologizar acaba tocando a gordofobia. Isso porque pessoas acima do peso passam a serem vistas como doentes, quando na verdade nem são. Já ocorreram vários erros de diagnósticos em pessoas gordas porque o profissional que elas consultaram em vez de busca a causa do incômodo que a paciente se queixava,a atribuía tudo ao peso dela.
      Em relação da modo favorecer ou não esse ou aquele tipo de corpo, e ao que você chamou de “bom senso”, o problema está justamente aí. O que é “favorecer”? É vestir algo que agrade mais aos olhos dos outros? É disfarçar braços e pernas grossos e também meu abdômen? E se eu não quiser disfarçar nada?
      O que muda na vida das pessoas que passam por mim na rua se eu uso roupas claras, um top croped ou listras horizontais?
      A proposta é que usemos aquilo que nos faz, que aceitemos nossos corpos.

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