Hoje tenho orgulho de mim, de quem sou, de onde cheguei, do meu potencial!

Hoje tenho orgulho de mim, de quem sou, de onde cheguei, do meu potencial!

Por Magdalena Ribeiro

Desde quando sou gorda??? Bem, desde sempre!

Eu era o bebê mais gordo, a maior criança da sala de aula com os títulos mais inusitados: “Miss Brasil Gás”, “Bolo fofo”, “Balão”, “Botijão de Gás”… Ninguém imaginava, nem eu, que a timidez da reclusa nos cantos das salas de aula era um reflexo dos jargões que tinha que ouvir diariamente.

Fonte: http://www.artflakes.com/en/products/fat-woman-character-design
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Você não imagina, quão humilhante é descobrir que o seu colega de classe topou dançar quadrilha de são João com você porque o nosso professor de inglês prometeu um 10,0 pra ele. Até descobrir que isso aconteceu nos 3 anos que você dançou…

Dentro da família não era muito diferente, apesar do meu amor incondicional por minha avó materna, era evidente a preferência dela pelos netos não obesos. Sim, porque a obesidade não era privilégio meu, meus irmãos também se tornaram obesos. Chegando no fim do ano, ela sempre dava pra gente nossas roupas de festas (Natal e Ano Novo), era um martírio, quantas vezes não ouvi: “Nossa Maria Magdalena, você é gorda demais.”, entre outras coisas… Essas frases me marcaram por muito tempo!

A sensação que eu tinha é que era inferior aos meus primos, pois eu acreditava que eles eram mais bonitos que eu… Lembro muito bem de quando anunciei à família que faria Vestibular para Física e Engenharia Elétrica, as críticas crueis que ouvi: “Você não tem capacidade de passar pra Elétrica!” – “Você devia escolher um curso mais fácil” – “Pobre, Feia e Gorda, não fez curso de inglês pra passar na federal, deveria se contentar de achar um homem que queira casar com você!”… Era difícil acreditar em si mesma quando todos dizem que você não é capaz!!!

Aproveito aqui para fazer uma observação… Queria muito entender porque taxam os gordos de um monte de coisas! Ser gordo é motivo de piadas… De incredulidade, “Não acredito que esse gato tá com essa gorda!”… De incapacidade… “Ah, ela é gorda, não pode fazer isso, não pode fazer aquilo!” “Ela é gorda, tadinha, tão burrinha..” Uma vez ouvi uma pessoa falar que todo gordo fede, nossa, isso me deu uma revolta tão grande, até porque a pessoa que estava falando também era obesa, respondi: “Só se você não toma banho pra feder, porque eu, no auge da minha obesidade mórbida, sou uma gordinha muito cheirosa!” Nossa como esses rótulos me irritam!! Algumas vezes fui taxada de lésbica só porque sou grande e gorda.

Minha autoestima era tão baixa, que eu era incapaz de acreditar que alguém pudesse me amar pelo que eu sou. Tive muitas paixões platônicas, e namorados que eu não gostava, nem tinha interesse neles, simplesmente pelo fato de achar que se não aceitasse aquilo, ninguém mais iria me querer.

Aos 21 anos ultrapassei a casa do 100kg… Na época eu era apaixonada pelo meu melhor amigo, e imaginava que se eu emagrecesse ele se interessaria por mim também. Comecei a viver de Club Social e Diet Shake, perdi uns 20kg, chegando aos 83kg, muitos já estavam me achando muito magra, mas eu ainda me via de modo deturpado, embora já me achasse um pouquinho mais aceitável. Depois de emagrecer me declarei a ele, e tomei um belo fora! Pra ele eu nada mais era que uma amiga.

Me mantive entre 85 – 90kg por uns dois ou três anos, quando comecei a namorar um cara de outra cidade que foi fazer mestrado na mesma faculdade que eu estudava. Não era um relacionamento saudável, mas eu não enxerguei isso por anos. Tive com ele minha primeira relação sexual, e o cara duvidou que eu fosse virgem, em meio a esse relacionamento aconteceram várias coisas, uma delas foi um ano inteirinho na França, que eu não aproveitei porque preferia ficar no MSN/Skype com esse namorado que estava no Brasil – diga-se de passagem, no Brasil me xifrando – do que sair e aproveitar a experiência em outro país!

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Fonte: https://www.pinterest.com/chrysanthemum86/lady-heros/

Nesse período na França eu tive um acidente onde quebrei meu tornozelo, resultando num ganho de peso gigante. Voltei da França obesa novamente, mas na minha cabeça, só estava mais obesa do que já era. Um ano e pouco depois que voltei, esse cara terminou o relacionamento comigo com a justificativa que eu havia engordado demais, e que por estar muito Gorda não era mulher para ele, que tinha sido um choque me ver quando eu voltei da França, mas que por mais de um ano ele esperou que eu emagrecesse… Bem, hoje eu sei que quem perdeu foi ele, como disse, era um relacionamento doentio, que não me fazia bem, mas novamente a sensação de que “se não for esse cara, ninguém mais vai me querer” não me deixava sair dessa relação.

Os anos foram passando, fiz terapia com algumas psicólogas com intuito de resolver minha questão com a comida e emagrecer, até porque segundo a terapia, a comida era minha muleta. Mas, embora eu realmente usasse a comida como muletas, um fato não posso negar, eu gosto de comer! Comer é tudo de bom!

Já tive o privilégio de curar muitas feridas, e aprender a me valorizar por quem sou e não pelo meu corpo. Só depois de ter essa clareza, consegui tomar decisões saudáveis pra minha vida.

Antigamente, quando via uma gordinha bem resolvida consigo mesma, aquilo era inconcebível pra mim, inacreditável! Até o dia que eu me tornei uma gorda de bem comigo mesma! Fiz as pazes com o espelho. Vi que era até mais saudável que muitas magras. Comecei um relacionamento que me faz bem, e não tem o peso nem a cobrança do outro ser responsável pela minha felicidade! Isso veio depois dos 30 anos, mas antes tarde que nunca!

Hoje sou mãe, tive uma gravidez difícil por causa de um pré eclampsia. Depois disso me tornei hipertensa e passei a ter muitas outras comorbidades por causa da obesidade. A obesidade chegou no grau III, IMC 44, dificuldade de me locomover e um risco potencialmente alto de um infarto ou AVC.

Nessa fase, vestia 58, fui humilhada em algumas lojas, que ao chegar, além de ter que aturar o olhar constrangedor das atendentes, algumas chegaram a dizer que nada ali serveria pra mim, enquanto apenas olha a vitrine.

Por uma questão de saúde, há quase 3 meses me submeti à redução de estômago. O foco não é um corpo escultural, é

Fonte: http://alexheberling.tumblr.com/post/13112282030
Fonte: http://alexheberling.tumblr.com/post/13112282030

saúde pra desarmar a bomba relógio que havia me tornado, e realizar o sonho de ter outro filho! Eu relutei muito para não fazer a cirurgia, eu não queria! Queria poder continuar comendo o quê e o quanto quisesse, mas pra poder sentar no chão e brincar com meu filho de 3 anos, poder andar sem dores, trocar os remédios de hipertensão, resistência à insulina, ansiedade, enxaqueca, entre outros por uma vitamina, resolvi fazer a cirurgia. Não é o processo mais fácil, muito pelo contrário, é abrir mão de algo que eu gosto, comer, pra ser mais saudável! Minha meta não é ficar magra, e disso não depende minha felicidade.

Hoje tenho orgulho de mim, de quem sou, de onde cheguei, do meu potencial! Não tenho vergonha da minha obesidade. Sou feliz por ter me encontrado em mim mesma e ter aprendido que a opinião mais importante pra mim é a minha, eu não posso mudar o outro, por isso não posso por nele a responsabilidade das minhas escolhas, tão pouco da minha felicidade.

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