Sobre estereótipos e padronização corporal (irreal)

Sobre estereótipos e padronização corporal (irreal)

Texto por Caroline Mafaldo publicado originalmente em: https://padraoincorreto.wordpress.com/

Hoje eu venho a vocês sem filtros e um pouco mais triste. No dia 8 de janeiro desse ano, exatamente 3 dias após meu aniversário, eu escrevi meu primeiro manifesto, o “pelo direito de ser normal, de ser real”. Se eu achei aquele difícil de escrever, o de hoje é um pouco mais. Reli meu manifesto de verão. Reli mais de três vezes e fui tentando colocar tudo o que eu acreditava e acredito em prática. Fui feliz durante meu janeiro inteiro, fevereiro e depois dali, só ladeira abaixo.

Atualmente, o ser gorda parece algo ofensivo. E é muito, mas muito, muito difícil aprender a se respeitar e a se amar. Não acontece assim do nada. Quando eu era pequena, sempre fui um tanto gordinha, não muito e meu cabelo era muito cacheado. Piada pronta, não? Claro que sim. Que cabelo horrível, hein? Eu tinha 8-9 anos.

É fácil falar que se ama e se aceita usando roupas 38-40. É fácil porque tu consegue por um shorts e sair bem pra rua, sem medo da reação das pessoas. E claro, porque provavelmente se tu veste menos de 42, tu nunca passou pelo constrangimento de não achar roupa, de ouvir bobagem de vendedor, tu nunca foi piada na escola e quando precisou de ajuda, tu sempre teve a quem recorrer. Eu não.

Perdi as contas de quantas vezes eu chorei porque eu não conseguia me olhar no espelho. Odeio shorts, prefiro passar calor a ver as pessoas me olhando com nojo, com nojo de mim, do meu corpo, odeio ver e ter que lidar com gente me constrangendo. Nos meus 13 anos colaram um papel com “me chute” nas costas e encheram meu capuz de papel e ponta de lápis. Eu não percebi, meus “amigos” não me avisaram e riram. Uma menina de duas séries antes da minha, me avisou quando eu já tinha passado pela escola toda. Eu chorei, chorei muito. IMPLOREI pra minha mãe me tirar daquele lugar e nunca mais me deixar passar por aquilo. E como era de se esperar, passei meu resto de ano sozinha. Com medo de todo mundo.

O ser gorda me trouxe vários problemas. O medo é o maior deles. Eu tenho medo de falar, de sair, eu tenho medo de rejeição, de que aconteça tudo de novo e eu continue sem saber lidar. Eu tenho medo das pessoas rindo e me olhando, porque mais uma vez, o motivo pode ser eu. E eu sei que fui um dia. Eu tive medo de sair de casa, das pessoas me olharem, de eu me olhar. Toda essa sensação, que parece paranoia pra vocês, pra mim é só parte do meu complexo de inferioridade.

O que tu entende de complexo de inferioridade tendo só 19 fucking anos? Muita coisa. Mais do que eu queria e deveria. Vocês sabiam que eu fiz 5 progressivas porque eu tinha nojo do meu cabelo? Isso mesmo, NOJO. E pela primeira vez em anos, eu tenho aceitado ele exatamente do jeito que é. Eu o tenho amado. Cacheado mesmo, castanho-loiro brilhante e absurdamente bonito. Eu queria poder dizer pra minha versão de 8 anos que não tinha o porque mudar, que eu podia acreditar em mim e que essa necessidade de padronizar beleza é tipo cebola pra nós (eu e a minha versão de oito anos): insuportável, inútil e detestável. Antes que digam que gordo é doente, fico feliz em dizer que meus exames estão perfeitos.

Hoje é dia 21/11/2015, eu ainda tenho medo da reação das pessoas, odeio praia porque tenho medo de que riam de mim usando biquíni e eu não sei fazer amigos. Eu morro de medo que se aproximem de mim pra me fazer sofrer ou pra simplesmente me tornarem piada de novo.

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     “Não há uma maneira errada de possuir um corpo”

Não peço que ninguém se comova com isso tudo que eu contei. Eu só peço um pouco de bom senso e respeito. Faz bem e todo mundo gosta. Enquanto isso, eu continuo sendo saudável, usando meus shorts quando me convém e amadurecendo a medida que o tempo passa. Quem sabe vocês ainda não me verão de cropped? Apesar de que esse aí vai demorar um tempão pra eu olhar. A gente ainda luta pelo direito de ser normal e BEM real. Tente lidar com as pessoas sem estereótipos na tua cabeça, principalmente estéticos. E não invente de constranger ninguém, você não sabe o que aquilo é capaz de desencadear. Ah, outra coisa, parem com os “fazendo gordice”. Não tem graça pra ninguém e não se faz, né?

Minha atual relação com o espelho varia muito. Atualmente, estamos instáveis. Aceitamos os dias bons e os aproveitamos ao extremo, nos evitamos em dias ruins e pensamos muita besteira quando eles acontecem. Lutamos para que um mundo de escravização dos corpos pela padronização midiática não sobreviva por muito tempo. E eu sei que eu não estou sozinha, agradeço muito por não estar

Com celulite, estrias, cabelo cacheado e coxas grandes,

Caroline.

Me chame de gorda, obrigada.

Me chame de gorda, obrigada.

Nesta linda e maravilhosa sociedade na qual vivemos quando você passa de determinados números na balança, você começa a ganhar alguns adjetivos carinhosos e a ser identificada unicamente por uma caraterística física. Aquela gordinha, a cheinha, a fofinha, a fortinha, nunca A GORDA, porque a palavra gorda é muito pesada, é ofensa, é pejorativo, não pode. Mas olha só, deixa eu te contar que GORDA não é xingamento não (no caso, não deveria ser). É tão ridículo achar que uma característica física pode ser usada para diminuir e humilhar alguém. Em uma busca rápida no Google você tem acesso a listas e mais listas com diversos xingamentos que você pode usar contendo a palavra gorda. Pra quê isso?

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Por outro lado, criou-se uma ideia que usar diminutivos para fazer referência ao nosso corpo é algo carinhoso, respeitoso, mas isso só mostra o quanto você ainda é preconceituoso e gordofóbico. Porque pra você a palavra Gorda é carregada de significados ruins, logo não pode ser usada. Gorda é sinônimo de feia, de mal amada, de preguiçosa, de desleixada, logo, você não pode usar uma palavra tão horrível quanto essa com uma pessoa que você gosta. Mas eu também não lhe culpo não. Foi assim que a gente aprendeu a vida toda: não pode chamar de gorda porque magoa. Entretanto é sempre hora de desconstruir, reconstruir e ressignificar, né?

E não é fácil. Até encontrar o feminismo, eu ficava magoadíssima se me chamassem de fofinha, de cheinha ou de gorda. Pra mim era como se dissessem: você é horrível, desprezível, ninguém nunca vai gostar de você! Mas finalmente o dia de me aceitar chegou! Infelizmente ainda não chegou para todas nós, então vamos ter cuidado ao tentar insultar e resumir uma pessoa a uma característica da sua aparência.

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Imagem do site Grandes Mulheres

Por isso a gente tá aqui pra dizer que Gorda é linda, gorda pode, gorda arrasa! E no dia que a gente consegue dizer: PODE ME CHAMAR DE GORDA, a gente se livra de um peso enorme, e não to falando dos números na balança não.

Relato de Josy Diniz

Relato de Josy Diniz

josyHoje eu acordei um pouco mais confiante e finalmente sai com aquela saia que bate na altura da canela. Tive todo um cuidado em escolher uma blusa que combinasse com a estampa da saia, coloquei uma sapatilha e sai de casa cheia de mim.

Eu estava radiante. Eu percebi as pessoas olhando pra minha direção. Não quis interpretar nenhum daqueles olhares, não estava nem um pouco interessada.

Quando cheguei ao meu trabalho recebi elogios. Desconfiei de alguns, afinal de contas a nossa historia pessoal nos deixa mais arisca.

Estava tudo bem. Eu estava bem, mas, tinha de acontecer. De novo. Um colega de trabalho com aquela voz cheia de boas intenções (argh!) perguntou:

– O que aconteceu com aquela sua dieta? Abandonou?

– Aquela dieta estava atacando meu fígado. Excesso de proteína – Respondi na esperança que ele simplesmente calasse a boca.

Dai, numa fala repleta de reprovação: – Não menina! Tem que fazer a dieta direito! Não pode ser só proteína, tem que balancear direitinho.

Dei as costas revoltada. Estou alternando entre ódio e tristeza. Estou com vontade de sair gritando que ninguém paga a minhas contas, mas, se eu o fizer, serei a “destemperada”. É muito difícil. Às vezes me sinto perdida.

Gorda sofre #primeiroassedio? Machismo, gordofobia e suas relações

Gorda sofre #primeiroassedio? Machismo, gordofobia e suas relações

      Criamos essa página há alguns meses no intuito de ter um espaço confortável e aconchegante para mulheres gordas (e para pessoas que se identificam com o tema), nossa intenção era propiciar um ambiente saudável de discussão sobre por quê as pessoas têm um problema tão grande com gente gordas, principalmente mulheres. Uma vez que nós que escrevemos para a página semanalmente nos identificamos como mulheres.

           Final de outubro para cá, começamos a observar um aumento de curtidas de homens na página, muitos. Até aí tudo ok, tranquilo, queremos que esse seja um espaço que todos tenham acesso e possam conversar conosco. O problema é quando esses homens usam nosso espaço de forma invasiva ou inapropriada. Mensagens enviadas por homens querendo encontros ou “dar só uns beijinhos” começaram a surgir. Ontem mesmo um rapaz deu o número do whatsapp. Infelizmente apagamos, mas podemos compartilhar algumas mensagens que ficaram inbox:

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Estamos até internacional:
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As mulheres sofrem diariamente com assédio na rua. Atualmente, inclusive, o tema se tornou um dos mais comentados nas redes sociais. Hashtags como #primeiroassedio começaram a surgir no twitter e Facebook e muitas mulheres começaram a compartilhar as violências simbólicas (e físicas, psicológicas, etc) que sofreram durante a vida, no intuito de falar mesmo sobre esse machismo e a apropriação do corpo feminino, como se ele fosse algo “público”. E sim, isso acontece muito. E as mulheres devem, o tempo todo, estar em processo de resistência, falar sobre isso, para que essas coisas deixem de ser cotidianas. Mas, e as mulheres gordas?

            Vamos ser bem sinceros, né? A gente ouve muitas pessoas magras falarem sobre assédio e eu diria que 70% destes depoimentos são de mulheres magras (vou logo avisando que sou péssima em estatísticas). E a gente tende a generalizar essas opressões. As mulheres gordas também sofrem com o assédio sim. Mas, diferente das mulheres magras, as mulheres gordas sofrem um assédio que tem um olhar “fetichizado”, isto é, as pessoas olham as mulheres gordas como seres “sobrenaturais”, algo fora do comum e notícias sobre “conheça o fetiche de fulano por pessoas gordas”, etc, são bem comuns. A gente nunca vê “conheça o fetiche de fulano por pessoas magras” por aí, ou notícias como “fulano fez um ensaio sensual com pessoas magras”, mas engraçado como o GORDA é sempre enfatizado como algo surreal ou, como aprendi na faculdade de jornalismo, o comum e trivial nunca aparece como notícia quente, né?  Mas a mulher gorda aparece, infelizmente:

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Enfim, o que acontece é que: Sim, mulheres gordas sofrem assédio e esse assédio é uma ferramenta própria do machismo, tanto quanto a gordofobia. E qual a relação de ambos? Acho que já deu pra perceber que as mulheres gordas muitas vezes também são coisificadas, objetificadas, por não se encaixarem dentro do padrão de gênero feminino que está cristalizado socialmente e que a gente, querendo ou não, reproduz.  Já é difícil, como mulher, se enquadrar nos padrão de feminilidade normativo imposto pela sociedade, imagina para uma mulher gorda! Ela não pode ser tão mulher quanto as outras. Ela é uma “mulher diferente” e sempre vai ser vista como esse olhar “diferenciado”  e ela não vai ser tão mulher como as outras. E o nome disso, meus caros, é machismo também. E, claro, quem ama ou curte mulheres gordas também entram no patamar do exótico, porque parece que a gente não pode amar as pessoas como PESSOAS. A mulher gorda é posta em um contexto engraçado, estranho, exótico, fora do normal.

E o pior, tem gente que acha que merece um pirulito por amar mulheres gordas, olhem só esse rapaz que é do meu círculo social e insiste em falar comigo:

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O corpo é onde se que constrói quem nós somos, nosso gênero, o que sentimos e como seremos. E os homens acham que as mulheres gordas devem agradecer por elas terem sido cantadas na rua, ou acham que amar uma mulher gorda deve ser feito escondido, ou procuram mulheres especificamente gordas para encontros, relações. Precisamos reaprender a amar e parar de achar que “tudo é uma questão de gosto”. E precisamos também pensar e repensar o porquê gostamos mais de uma coisa ou de outra.

Algo que me incomodava muito quando eu estava gorda era também não saber quando um cara realmente gostava de você, quando lhe cantava  porque estava interessado ou quando  eu era apenas fruto do riso alheio, como acontece quando a gente acha que as pessoas curtem a página por um motivo e na verdade fazem que nem esse rapazinho que curtiu e compartilhou a página:

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E além de não saber qual a real intenção de quando alguém nos paquera ou assedia, temos também que nos sentir LISONJEADAS pelo assédio. Que maravilha, hein? Além de nunca ser vista como pessoa, quando somos, acabam nos exotificando e nos colocando dentro de um fetiche que, muitas vezes, não nos sentimos nem um pouco confortáveis. E mais! Devemos levantar as mãos para o céu e agradecer porque apareceu um homem para nós! Lembrem: nossa vida não gira em torno de homens nem para homens. Precisamos, primeiro, aprender a nos amar.

Mulheres gordas não precisam de piedade e não precisam do amor dos homens. As pessoas precisam deixar de colocar nas nossas cabeças, como, por exemplo: que a gente devia agradecer “que fulano gosta de você. Porque é difícil achar alguém que goste de você do jeito que você tá, né?”, como eu já ouvi em casa e já ouvi uma amiga falando. Devemos é aprender a nos amar mais e entender que não somos obrigadas a aceitar as cantadas dos homens na rua, como se eles estivessem fazendo um favor em nos achar bonitas. Cantada não é elogio, é assédio e nós não devemos baixar a cabeça pra isso. Parem com o assédio, evitem outros #primeirosassédios  na rua, em casa, na internet ou onde quer que sejam. E homens, parem de curtir nossa página no intuito de procurarem relacionamento ou deixar whatsapp, tá ficando chato.

Gordofobia na família

Gordofobia na família

“família é a unidade básica da sociedade, formada por indivíduos com ancestrais em comum ou ligados por laços afetivos.”

Quando se fala em família, a primeira coisa que vem à cabeça da maioria de nós é um grupo de pessoas que se ama, se respeita, ou seja, são os laços afetivos primários que temos e onde desfrutamos de um espaço de paz e aceitação. Mas nem sempre é assim. Principalmente quando você é gorda.

Quando você é gorda, ou engordou recentemente, em todo almoço de família você vai ter que estar pronta para:

“engordou, né?”

“mulher, não come isso que engorda?”

“já chegou nos 100 kgs?”

“você era tão bonita!”

“você não pensa em emagrecer, não?”

“valha! o que aconteceu com você?”

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E não para por aí. A maioria dos comentários são complementados por falsas preocupações com a sua saúde e bem estar. Mas por mais que tentem, a gente sente que no fundo existe aquele sorrizinho de quem sabe que está magoando alguém. Talvez alguns pensem de verdade que estão ajudando com esse tipo de comentário, talvez. Mas na verdade, esses comentários só conseguem fazer com que você não queira mais fazer parte desse grupo, não queira estar junto, estar perto, você só quer se distanciar mais e mais para não ter que passar  por isso. Falar que você engordou muito e ficaria mais bonita se emagrecesse não te incentiva a emagrecer (se for isso que você queira), pelo contrário, para quem tem compulsão alimentar, só te deixa mais ansiosa e você come ainda mais, ou ainda, na pior das hipóteses lhe causa um quadro de depressão. Então, tias, segurem as línguas. 😉

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Diante desses comentários, cada pessoa reage de um forma, alguns conseguem revidar e responder a inconveniência à altura, outros não conseguem passar do sorrizinho amarelo e engolir calados, outros ficam dias remoendo aquelas palavras, outros tentam ser didáticos e explicar que não existe nada demais em ser gordo. Mas todos tem uma coisa em comum, ninguém gosta. Ninguém gosta, não porque concorda que ser gordo realmente é a pior coisa do mundo, ou porque não se aceita e não se ama. Ninguém gosta porque para a sociedade, gordo é sinônimo de relaxado, asqueroso, nojento, preguiçoso, feio, mal amado, estorvo, doente e muito mais.

Entretanto, acredito que este não seja um defeito da instituição família, pois como está na definição acima, família é um grupo de indivíduos, e por mais que estes tenham ancestrais em comum, continuam sendo seres diferentes, que pensam e agem de formas distintas. Esses indivíduos, portanto, estão impregnados com a nossa cultura machista e gordofóbica que diz que o gordo é feio e indesejável.

Mas nós, As Gordas, também temos um comentário: PAREM DE GORDOFOBIA QUE TÁ FEIO! Obrigada.

Relato – Bruna Talita: Infância, Dança e Gravidez

Relato – Bruna Talita: Infância, Dança e Gravidez

            Meu nome é Bruna, tenho 27 anos. Algumas pessoas podem até me questionar do porque estou fazendo um relato pra um blog que fala de mulheres gordas, pois, para muita gente não chego a ser gorda (amigos e família, é claro!). Eu nunca fui magra, também nunca fui gorda, sempre estive na margem do peso que os médicos consideram ideal. Quando eu era criança, tipo uns 4 ou 5 anos de idade, eu já encolhia a barriga quando as pessoas se aproximavam de mim, era impressionante o complexo desde criança. Às vezes o espelho me mostrava uma Bruna totalmente deturpada, que se via como um bicho feio de 7 cabeças. E sabe meninas, o mundo hoje é tão cruel que, não basta você vestir o seu tamanho 40, não basta não estar acima do peso, se você tem um rostinho redondo ( como o meu), quadril largo, e uma barriga proporcional ao seu corpo sem ser precisamente aquela barriga chapada de academia, você ainda vai ser vista como A GORDA! Mas, ser vista como gorda não é a parte ruim, o triste é que por alguém te enxergar como gorda, ela logo te imagina sentada na frente de uma tv o dia todo com um pote de sorvete e bacon nas mãos, não trabalha, não faz nada, apenas come como uma porca ( adjetivo que eu escutei muito nos tempos da escola), contribuindo assim pra que a cada dia eu me odiasse mais e mais. Quando fiz 16 anos, resolvi que tinha que acabar com a fama de porca comilona: passei 6 meses me alimentando apenas de maçã e água!, Sim, foi isso mesmo que vocês leram!!! E o que eu ganhei? Uma bela de uma anemia que até hoje não consegui me livrar.

            Deixo bem claro que me relato não é pra dizer o quanto me sinto ou me senti gorda, e sim pra falar de aceitação, independente do corpo que a gente possui. Me tornei adulta e o complexo de inferioridade continuou me acompanhando, fiz universidade, ficava dias sem comer toda vez que alguém me via e dizia que eu estava mais cheinha, isso era frustrante pra mim, por que na minha cabeça uma pessoa cheinha não podia e nem deveria fazer nada e nem existir. Então, conheci a dança Oriental (ventre), e aos poucos fui conseguindo me ver mais bonita do jeito que eu era. Por um tempo eu até relaxei, mas quando cheguei a fase mais profissional deste meio, voltei a me sentir inferior, a tal ponto que já cheguei a cancelar apresentações por que estava com a barriga inchada do período pré menstrual.

            Quando passei a ser professora desta dança conheci inúmeras mulheres que eram gordinhas e muito bem resolvidas, inclusive minha mestra, a que me ajudou a dar os primeiros passos, foi uma bailarina incrível e não era nada magra. A dança Oriental tem esta liberdade corporal, não tem padrão de corpo, ela levanta a autoestima automaticamente. Mas aí, o que aconteceu depois? Engravidei!!! E todo o medo do meu próprio corpo veio a tona novamente. Engordei exatos 28 kg na minha gestação, ganhei inúmeras estrias, e acabei tendo um inicio de depressão pós-parto quando tive minha bebê. Todo o ódio pelo meu corpo veio em dobro, o medo de nunca mais recuperar o corpo de antes. Era alegria por ter minha filha linda nos meus braços e tristeza porque me senti um lixo depois de tudo isso.

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Na sequência: durante a gravidez, 1 mês após o fim da gestação e 2 meses depois

Hoje, faço uma reeducação alimentar pra conseguir voltar ao que era, não porque eu ache que não sou especial se não for magra, mas porque tive muitas complicações na minha gestação, diabetes gestacional, pré-eclâmpsia e colesterol bem alto. Hoje estou emagrecendo por questões de saúde, e graças a Deus tenho um marido que adora cada estria do meu corpo, as marcas do maior presente que dei a ele. Não vou dizer pra vocês que já me aceitei totalmente, mas digo com toda certeza qu12212012_1147885568562399_1196476904_ne eu luto todos osdias pra me ver como realmente sou, e não como os outros acham que eu sou. A luta continua!

           Eu consegui emagrecer já 22 destes 28 que engordei, por questões de saúde mesmo. Meu relato é diferente do das outras, porque todas falam do quanto são poderosas e se sentem bem, mas o meu fala dos sentimentos de muitas mulheres que ainda estão na luta pra conseguirem se aceitar e se verem lindas da maneira que são.

#ProjetoVerão – NO VERÃO 2016 VAI TER GORDA USANDO BIQUÍNI SIM!!!!

#ProjetoVerão – NO VERÃO 2016 VAI TER GORDA USANDO BIQUÍNI SIM!!!!

Basta uma busca no Instagram ou no Facebook pela hastag #ProjetoVerão para nos depararmos com uma infinidade de fotos tiradas na academia, de pratos fit com saladas, batata doce, shakes, suplementos, cápsulas, chás e mais meio mundo de coisas com a finalidade de deixar o corpo “em dia para o Verão”.

Essa pressão que tem o intuito de regular nossos corpos para “não fazer feio no verão” é tão grande, que nos impõem mil formas de emagrecer com tecnologias que não se sabe se fazem bem ou não. Elas são amplamente divulgadas nas redes sociais, em sua maioria por pessoas pouco qualificadas para falar sobre nutrição. Em alguns casos, incitam ao transtorno alimentar, chegando a beirar o absurdo para poder encaixar nossos corpinhos lindos dentro desse padrão estético. Um bom exemplo dessa propaganda é a “homenagem” prestada pelas Lojas Marisa fez em 2012.

 

Quer dizer que para sentir-se bem (para os outros) é preciso sentir-se mal?

A mensagem é clara: Você precisa emagrecer para poder usar um biquíni.

Ou seja, não importa se você sente calor, não importa se você está confortável. O direito de mostrar seu corpo deve ser conquistado, através de dietas, exercícios e qualquer outro procedimento que torne seu corpo a prova de críticas e olhares de desaprovação.

Eu já vi e ouvi algumas vezes que a praia é um espaço democrático. Mas a verdade não é bem essa, pelo menos não para as mulheres.

Homens são alvo de comentários bizarros e zoações, mas isso não chega nem perto do que as mulheres gordas sofrem quando a situação envolve exibir ou não o seu corpo. Isso porque os padrões estéticos impostos a um e a outro são bem distintos. Só para citar um exemplo, homens andam facilmente sem camisa, não só na praia, mas basta fazer calor que muitos deles passam a desfilam com peito e abdomên expostos sem grandes constrangimentos. Enquanto nós, temos que poderar entre sentir calor ou afrontar os outros com a exibição de nossos corpos.

Fonte: https://www.facebook.com/projetodeverao/photos/a.510605582284825.120007.510601692285214/536939132984803/?type=3&__mref=message_bubble
Fonte: https://www.facebook.com/projetodeverao/photos/a.510605582284825.120007.510601692285214/536939132984803/?type=3&__mref=message_bubble

Isso acontece porque nós mulheres somos desde cedo ensinadas a não gostar de nossos corpos. Propagandas, filmes, novelas e a grande maioria do conteúdo da internet passam uma mensagem clara de que só há um padrão de corpo feminino, e se você não obedece a ele, não tem o direito de deixar um pedacinho à mostra. Não interessando nesse contexto o conforto, bem estar e muito menos a auto estima.

Assim, somos levadas a crer que nosso corpo deve ser escondido, uma vez que não satisfaz a estes padrões. Deixamos de perceber que os corpos que estampam campanhas publicitárias não são comuns. Não se parecem com o nosso, com o de nossas mães, irmãs, tias e amigas.

Então, porque temos que nos esconder? Por que temos que cobrir nossos corpos com camadas e mais camadas de tecidos para preservar os outros da visão que eles julgam como inadequadas.
Onde quero chegar?

Que você tem o direito de curtir a praia, a piscina, o calçadão e qualquer outro lugar vestindo o que lhe deixar mais confortável. Pode ser biquini, maiô, shortinho, top ou o que mais lhe der vontade. Não acredite que seu corpo é algo feio e que por isso deve ser escondido. O direito de caminhar pela praia com o que te deixar mais confortável é seu, e não precisa ser conquistado.

Ensaio fotográfico realizado contra o preconceito às mulheres fora dos padrões de beleza impostos pela mídia e em apoio à professora Thaís Oliveira, moradora de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, que foi ofendida por internautas após publicar uma foto de biquíni em sua página no Facebook.
Ensaio feito em apoio à professora Thaís Oliveira, ofendida na internet após publicar uma foto de biquíni em sua página no Facebook.