Sobre estereótipos e padronização corporal (irreal)

Sobre estereótipos e padronização corporal (irreal)

Texto por Caroline Mafaldo publicado originalmente em: https://padraoincorreto.wordpress.com/

Hoje eu venho a vocês sem filtros e um pouco mais triste. No dia 8 de janeiro desse ano, exatamente 3 dias após meu aniversário, eu escrevi meu primeiro manifesto, o “pelo direito de ser normal, de ser real”. Se eu achei aquele difícil de escrever, o de hoje é um pouco mais. Reli meu manifesto de verão. Reli mais de três vezes e fui tentando colocar tudo o que eu acreditava e acredito em prática. Fui feliz durante meu janeiro inteiro, fevereiro e depois dali, só ladeira abaixo.

Atualmente, o ser gorda parece algo ofensivo. E é muito, mas muito, muito difícil aprender a se respeitar e a se amar. Não acontece assim do nada. Quando eu era pequena, sempre fui um tanto gordinha, não muito e meu cabelo era muito cacheado. Piada pronta, não? Claro que sim. Que cabelo horrível, hein? Eu tinha 8-9 anos.

É fácil falar que se ama e se aceita usando roupas 38-40. É fácil porque tu consegue por um shorts e sair bem pra rua, sem medo da reação das pessoas. E claro, porque provavelmente se tu veste menos de 42, tu nunca passou pelo constrangimento de não achar roupa, de ouvir bobagem de vendedor, tu nunca foi piada na escola e quando precisou de ajuda, tu sempre teve a quem recorrer. Eu não.

Perdi as contas de quantas vezes eu chorei porque eu não conseguia me olhar no espelho. Odeio shorts, prefiro passar calor a ver as pessoas me olhando com nojo, com nojo de mim, do meu corpo, odeio ver e ter que lidar com gente me constrangendo. Nos meus 13 anos colaram um papel com “me chute” nas costas e encheram meu capuz de papel e ponta de lápis. Eu não percebi, meus “amigos” não me avisaram e riram. Uma menina de duas séries antes da minha, me avisou quando eu já tinha passado pela escola toda. Eu chorei, chorei muito. IMPLOREI pra minha mãe me tirar daquele lugar e nunca mais me deixar passar por aquilo. E como era de se esperar, passei meu resto de ano sozinha. Com medo de todo mundo.

O ser gorda me trouxe vários problemas. O medo é o maior deles. Eu tenho medo de falar, de sair, eu tenho medo de rejeição, de que aconteça tudo de novo e eu continue sem saber lidar. Eu tenho medo das pessoas rindo e me olhando, porque mais uma vez, o motivo pode ser eu. E eu sei que fui um dia. Eu tive medo de sair de casa, das pessoas me olharem, de eu me olhar. Toda essa sensação, que parece paranoia pra vocês, pra mim é só parte do meu complexo de inferioridade.

O que tu entende de complexo de inferioridade tendo só 19 fucking anos? Muita coisa. Mais do que eu queria e deveria. Vocês sabiam que eu fiz 5 progressivas porque eu tinha nojo do meu cabelo? Isso mesmo, NOJO. E pela primeira vez em anos, eu tenho aceitado ele exatamente do jeito que é. Eu o tenho amado. Cacheado mesmo, castanho-loiro brilhante e absurdamente bonito. Eu queria poder dizer pra minha versão de 8 anos que não tinha o porque mudar, que eu podia acreditar em mim e que essa necessidade de padronizar beleza é tipo cebola pra nós (eu e a minha versão de oito anos): insuportável, inútil e detestável. Antes que digam que gordo é doente, fico feliz em dizer que meus exames estão perfeitos.

Hoje é dia 21/11/2015, eu ainda tenho medo da reação das pessoas, odeio praia porque tenho medo de que riam de mim usando biquíni e eu não sei fazer amigos. Eu morro de medo que se aproximem de mim pra me fazer sofrer ou pra simplesmente me tornarem piada de novo.

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     “Não há uma maneira errada de possuir um corpo”

Não peço que ninguém se comova com isso tudo que eu contei. Eu só peço um pouco de bom senso e respeito. Faz bem e todo mundo gosta. Enquanto isso, eu continuo sendo saudável, usando meus shorts quando me convém e amadurecendo a medida que o tempo passa. Quem sabe vocês ainda não me verão de cropped? Apesar de que esse aí vai demorar um tempão pra eu olhar. A gente ainda luta pelo direito de ser normal e BEM real. Tente lidar com as pessoas sem estereótipos na tua cabeça, principalmente estéticos. E não invente de constranger ninguém, você não sabe o que aquilo é capaz de desencadear. Ah, outra coisa, parem com os “fazendo gordice”. Não tem graça pra ninguém e não se faz, né?

Minha atual relação com o espelho varia muito. Atualmente, estamos instáveis. Aceitamos os dias bons e os aproveitamos ao extremo, nos evitamos em dias ruins e pensamos muita besteira quando eles acontecem. Lutamos para que um mundo de escravização dos corpos pela padronização midiática não sobreviva por muito tempo. E eu sei que eu não estou sozinha, agradeço muito por não estar

Com celulite, estrias, cabelo cacheado e coxas grandes,

Caroline.

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