Mais uma vez: pelo fim da Gordice!

Mais uma vez: pelo fim da Gordice!

Diversos sites e blogs sobre gordofobia já falaram sobre isso, mas parece que não foi suficiente. Dando uma olhada rápida no instagram, logo somos expostas a diversas fotos de comidas com #gordice. Então, mais uma vez: parem de usar essa expressão! Mas por quê? Porque assim como “tuas nêga” é uma expressão racista, “gordice” e seus derivados é uma expressão gordofóbica.

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Busca no Instagram

Ao usá-la você reduz toda a diversidade da população gorda, ao ato de comer. Quer dizer que magro também não come?! Quer dizer que gordo só come brigadeiro e magro só come alface?! Gordo come sim! Mas gordo também trabalha, namora, pratica esportes, vai ao cinema, ou seja, faz tudo que todas as pessoas fazem. Então porquê associar a pessoa gorda apenas à comida? Vamos parar, né?

Com um olhar mais minucioso, a gente repara também que a maioria dessas publicações, vem (Ó PASMEM) de pessoas MAGRAS. Engraçado, né? Fica fácil então perceber que se nós, gordas, não usamos esta expressão é porque ela não é legal. Então, cabe a vocês que não são gordos, que não sofrem gordofobia, entenderem e pararem.

Sem falar que quando usada esta expressão é carregada de culpa e arrependimento, transformando o ato de comer em algo ruim e que vai te fazer virar a pior coisa que você poderia ser: UMA GORDA. Quando você posta a foto de um brigadeiro com #gordice, você para pra pensar naquela pessoa gorda com compulsão alimentar que não come 1, mas 10 brigadeiros em uma tarde? Se você se mostra culpada e arrependida por comer 1 brigadeiro, nós gordas que comemos 10, temos que fazer o quê? Desaparecer do planeta?! Utilizzando esta linguagem você só contribui para o aumento de transtornos alimentares, tanto em pessoas gordas, quanto em pessoas magras.

Além desta expressão está espalhada nos perfis pessoais nas redes sociais afora, é comum ver também marcas e a mídia fazer uso dela. O que torna a coisa bem pior, devido o alcance ser maior. Jornalistas e meios de comunicação que na teoria deveriam ser responsáveis por tornar o mundo menos ignorante e preconceituoso através da informação acabam reproduzindo termos sem a menor preocupação em problematizá-los e analisar suas consequências.

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Chamada do Portal G1

Então, fica aqui um pedido: da próxima vez que for postar foto com as amigas magras comendo hambúrguer com #gordice, pensa nisso, tá?!

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Imagem do site Beleza sem Tamanho
O drama do bracinho

O drama do bracinho

Um dos grandes complexos das mulheres com seus corpos é com relação aos braços. Braço bom é só aquele bracinho magrinho, fininho, de preferência só a pele e o osso. Não pode ser gordo. Nem pode ter músculo também, porque mulher musculosa, NOSSA, um horror né, não pode. Também não pode ser velho, ter aquela pelanquinha que o passar dos anos trouxe. Senhorinhas têm que esconder seus bracinhos e dar um tchauzinho contido, pra nada balançar.

Então só mulher magra e jovem, de bracinho fininho pode sair na rua despreocupada com blusa sem manga. Né não?

Bom, não.

Pessoas são diferentes, corpos são diferentes, braços são diferentes. Não existe um braço errado, não existe um braço certo. Braços gordos podem – e devem – desfilar por aí sem mangas, porque ninguém merece se esconder sob camadas de tecido nesse calor infernal.

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“Sem mangas e sem medo”

É meio surreal pensar que até pra nossos braços existem um padrão. Na verdade existe um padrão pra cada parte do nosso corpo, inventam que devemos ser assim ou assado, e se não somos desse jeito (Dica: ninguém é, nunca vai ser, porque o padrão é inatingível), inventam formas de chegar lá, ou pelo menos de continuar tentando.

A realidade é que esse padrão inalcançável existe porque mulheres satisfeitas com suas aparência e com seus corpos não geram lucro. Imagina quantas empresas de produtos de beleza e quantas clínicas estéticas iriam à falência se um belo dia todas as mulheres do mundo acordassem contentes com a sua aparência e não mais desejassem modificar, disfarçar ou esconder essa ou aquela parte do corpo? Manter mulheres infelizes e insatisfeitas dá dinheiro pra muita gente.

Naomi Wolf, uma escritora feminista estadounidense, escreveu um livro chamado “O Mito da beleza – Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres”. Nele, Naomi fala como esse padrão de beleza louco oprime as mulheres em seis campos: trabalho, cultura, religião, sexo, violência e fome.  Ela fala que:

“(…) a gordura na mulher é alvo de paixão pública, e as mulheres sentem culpa com relação à gordura, porque reconhecemos implicitamente que, sob o domínio do mito, os nossos corpos não pertencem a nós mas à sociedade, que a magreza não é uma questão de estética pessoal e que a fome é uma concessão social exigida pela comunidade. Uma fixação cultural na magreza feminina não é uma obsessão com a beleza feminina mas uma obsessão com a obediência feminina.”

De fato, uma mulher com fome, infeliz e preocupada com o próprio corpo é muito mais maleável, muito mais fácil de subjugar.

Nossos braços, como parte do nosso corpo, também sofrem com essa pressão pra se adequar a padrão ideal de magreza e juventude. Se você não se adequa, precisa escolher muito bem as roupas pra disfarçar o bracinho. nada de listras, use sempre uma manga longa ou 3/4, o mínimo de volume possível. Nossas opções são poucas. Muitas vezes deixamos de sair e se divertir porque não conseguimos achar nada que “disfarce” esse grande problema. E assim vamos nos privando do convívio social, de ocupar os espaços, vamos comprovando que o lugar de gente gorda é escondida em casa, onde ninguém nos veja.

Eu sei que não é fácil, que é um processo contínuo e muitas vezes doloroso, mas precisamos sair, precisamos ser vistas, precisamos mostrar nosso bracinho por aí, porque ele não é da conta de ninguém, e se alguém se incomoda com nosso braço gordo, ou velho, ou musculoso, ou caído, ou pelancudo, o problema é deles, não nosso. Liberdade aos bracinhos, porque o verão tá aí!

Eu sempre tive problemas com meus braços, mesmo no tempo que eu era magra. Há tempos que eu queria fazer uma tatuagem no braço e tava com um receio de pôr o bracinho pra fora, mas aí pensei que não vou esperar emagrecer pra fazer as coisas que eu quero e gosto, não vou viver esperando uma coisa no futuro que talvez nem venha. Decidi que vou viver agora e aproveitar a vida como eu sou, que é o melhor que eu posso ter. Nem todo dia o pensamento é positivo assim, mas vamos caminhando.

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“Soy capaz, soy fuerte, soy invencible, SOY MUJER!”

Porque vai ter braço gordo tatuado SIM!

Quem quiser ler o livro completo de Naomi Wolf, aqui tem a obra completa em PDF: brasil.indymedia.org/…/2007/01/370737.pdf

Relato anônimo: sobre a dura fase da aceitação

Relato anônimo: sobre a dura fase da aceitação

Por Marcella Alencar e leitora anônima

Ultimamente temos recebido bastante mensagens: dicas de páginas, pessoas falando que gostam de nossa página, homens escrotos querendo marcar encontros (sim, ainda recebemos) e também os relatos que publicamos semanalmente. Esta semana o relato é anônimo justamente porque para nós, pessoas gordas, precisamos passar por uma árdua fase de aceitação e que nos deixa vulneráveis a muita coisa.

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Estamos diariamente tentando fazer com que nos sintamos bem e que percebamos que somos ALGUÉM. E em diversos momentos dessa nossa aceitação, aparecem pessoas e situações que nos fazem duvidas de quem nós somos. Ontem estava conversando com uma amiga que também faz parte desse blog e ela estava justamente falando que se sente hipócrita por, muitas vezes, não se sentir da forma que ela escreve, isso por conta do receio e a falta de vontade de ir para a praia com a família dela no ano novo:

“Meus tios me olham como se eu tivesse sarna. Não estou preparada psicologicamente pra lidar com isso ainda. A cada passo que eu dou, vão fazer comentários escrotos. E as pessoas não entendem. Não sabem como é lidar com isso.”

A gente prega tanto o empoderamento das mulheres gordas, mas parece que é difícil praticar de vez em quando, né? Pois é, gente. Não é fácil só chegar e falar: “faça isso, sua vida vai melhorar”. É como explorar um novo território, chegar em um campo que você desconhece e ir podando os sentimentos ruins e fertilizar os sentimentos bons, esperando que algum dia aquilo gere frutos – isso se ninguém de fora chegar e tentar destruir tudo aquilo que você tem tentado cultivar.

Por isso, persistam, insistam, se amem. Não é fácil para ninguém, mas um dia você vai acordar, se olhar e se sentir linda (digo isso por experiência), mas não se deixe abalar se um dia você acordar e se sentir mal consigo mesma. Levante, olhe e diga que aquilo você irá superar, como já superou uma vez.

E, abaixo, colo o relato da nossa leitora. Espero que sua fase dura de aceitação passe pra comemorarmos com você =)

Oi, boa noite. Eu gostaria de não ter meu nome publicado, acho que ainda estou passando pela dura fase da aceitação…

Desde pequena, nunca fui magra. Ouvi piadinhas desde que entrei na escola e até hoje. Auto estima sempre no chão, e as coisas só pioravam com o passar do tempo. De tentativas de suicídio até exclusão social, tudo que passei sempre foi, para minha família, “por culpa de uns quilinhos a mais”. O ápice pra mim foi quando comecei a frequentar psicólogos, falei da minha insegurança e ela disse “pq você não faz uma dieta?” Cara, acho que no fundo o que me fez largar a terapia foi isso. Estava insatisfeita? Sim. Mas nunca disse que era com meu corpo. Estava insatisfeita com meu pensamento, e hoje, ainda passando por metamorfoses, vou a cada dia mais me aceitando como sou. Não era meu corpo que precisava mudar e sim minha mente..”

Porque as mulheres devem falar de gordofobia?

Porque as mulheres devem falar de gordofobia?

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Fonte: http://gordivah.blogspot.com.br/2015/10/cartazes-contra-gordofobia.html

Lembro que meses atrás postei no face 3 ou 4 frases, sobre sonhar com um mundo onde gordofobia não existiria e que uma gorda se amar não seria visto como uma afronta. Acho que não passou uma hora para uma conhecida responder que ela também sofria preconceito por ser “magrinha”, e que não adianta reclamar porque seja você gorda ou magra, sempre haverá quem critique nossa aparência.

Como eu ía explicar para ela que não era bem assim? Como eu poderia explicar o constrangimento de entrar em uma loja e ouvir da vendedora que nada do que era vendido lá provavelmente serviria em você? Como eu poderia explicar os olhares curiosos que são direcionados a você e seu prato em um restaurante self service? Como eu iria explicar que  ninguém deixa de ser contratado por ser magro, afinal, ser magro não é sinônimo de doença? Que eu nunca vi alguém associar magreza a desleixo e falta de amor próprio.

Eu não consegui explicar, na verdade nem respondi mais e me calei.

Relativizar um preconceito sofrido facilita a criação de uma invisibilidade e acaba gerando uma nova opressão. É o que chamamos de falsa simetria. Ou seja, quando você compara situações que aparentemente são parecidas, mas não avalia o contexto e os sujeitos nela envolvidos, e assim deixa de ver que as consequências delas são bastante distintos.

É inegável que a gordofobia atinge mais mulheres do que os homens, e para comprovar isso basta olhar as as pesquisas sobre transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia, a grande maioria dos pacientes diagnosticados são mulheres.

De quem é cobrada as unhas feitas, o cabelos macio (de preferência liso e com nuances douradas), as roupas e acessórios que estão em moda na estação? Vamos comparar quantas fotos de mulheres e de homens “abdômen trincado” ou ainda a tal “barriga negativa” são divulgadas na internet com o tom de elogio? Quantas fotos encontramos nos portais de notícias onde as marcas de celulite um homem são tratadas como um defeito?

Não vou comparar a gordofobia ao racismo, lesbofobia, transfobia…. São opressões distintas, que alcançam mulheres de modos diferentes com várias repercussões e que tem que ser cada vez mais e mais debatidas.  

Crescemos ouvindo um discurso onde mulher tem que se cuidar, tem que estar bonita, ser meiga, educada, delicada e desejável. Somos objetificadas, e nos encarar como obras de arte lapidadas durante toda a vida para brindar a contemplação alheia com um espetáculo. Ser gorda, bate de frente com essa idealização. E afrontar o status quo sempre vai ter um preço. Ser mulher gorda é isso, é afrontar quem você nunca viu com a sua existência. E aí de você se não mostrar o mínimo de constrangimento ou culpa por isso, existir e andar por aí.

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Fonte: http8tracks.comaline-valekchega-de-gordofobia

Por isso a gordofobia deve ser debatida dentro do feminismo. O discurso que cria padrões de corpo são um dos mais utilizados para fragilizar mulheres. Desde de nossa infância somos atiradas nessa corrida maluca em busca de um corpo, de um padrão estético por vezes inalcançável. E todo este processo deixa marcas para físicas e psicólógicas que carregaremos por toda nossa vida.

CAPACITISMO: O QUE É, ONDE VIVE, COMO SE REPRODUZ?

CAPACITISMO: O QUE É, ONDE VIVE, COMO SE REPRODUZ?

POR SIDNEY ANDRADE

Desde que fui convidado a escrever este texto, passei longas horas pensando bem, tentando decidir qual experiência vivida por mim, nestes quatro anos de pessoa cega, ilustraria com satisfatória clareza o impacto ruim que o capacitismo impõe às pessoas com deficiência. No entanto, apenas na véspera de quando agora escrevo é que experimentei o real amargor quase intragável deste tipo de preconceito. Só que, dessa vez, não foi especificamente comigo, o que acabou deixando a situação ainda mais lamentável.

Sou instrutor do laboratório de informática do Instituto de atendimento a pessoas cegas de minha cidade, recebo gente das mais diversas faixas etárias, inclusive crianças e pré-adolescentes que precisam dos computadores e da acessibilidade que eles oferecem como apoio pedagógico para, de certo modo, tentar compensar a falta de acessibilidade experimentada pelos alunos com deficiência visual nas escolas regulares. Sendo assim, não raro discuto com eles, durante o processo, sobre os temas que precisam pesquisar.

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Prazer, este sou eu: Sidney Andrade

Com este aluno em específico, há dois dias, conversei sobre mudanças climáticas, ao ponto de desembocarmos no interesse dele sobre se o mundo realmente poderia acabar por causa delas. Muito curioso, o menino de 12 anos tem baixa-visão, isto é, sua capacidade visual não é nula, mas está aquém do considerado normal, necessitando, por causa disso, DE FERRAMENTAS PARA AMPLIAÇÃO, UMA VEZ QUE ÓCULOS COMUNS NÃO SÃO SUFICIENTES PARA LEITURA OU VISUALIZAÇÃO DE DETALHES, POR EXEMPLO. A condição visual dele é degenerativa e começou muito cedo, o que significa que o garoto vem tendo que lidar com a sua deficiência há muito mais tempo do que eu. Acho que a fala dele teria, inclusive, muito mais a acrescentar do que a minha.

Acabou que, ao tratarmos da possibilidade do fim, chegamos, por consequência, ao questionamento do início do planeta, o que nos levou a uma interessante discussão sobre o Big Bang, etc. e tal. Contente com a sede dele por conhecimento, prometi que levaria, no dia seguinte, um episódio da série Cosmos, apresentada pelo divulgador científico norte-americano neil degrasse Tyson, que reapresenta e atualiza para os dias de hoje as discussões científicas feitas na série homônima da década de 1980, então apresentada pelo tão famoso astrofísico Carl Sagan.

O garoto, reitero, tem baixa-visão, de modo que conseguia desfrutar, mesmo com alguma dificuldade, do espetáculo de imagens que a série mostra, ao ilustrar conceitos como Supernovas, Galáxias distantes, planetas em formação. Era gostoso sentir a nítida empolgação de uma criança descobrindo a infinitude do universo, estampada na voz, nas perguntas, no jeito que ele se espantava diante de conceitos com tamanha grandeza. Até que, em metade do episódio, chegamos ao ponto crítico. Transbordando de empolgação pelas novidades, depois que eu o informo de que, além de apresentador, Neil também é astrofísico, ele explode: “Caraca, eu quero ser cientista!”

Tão rápido quanto um piscar, porém, ele completou, depois de um suspiro que, senti, pesava uma atmosfera inteira sobre seus olhos: “Ah, mas eu não posso…”

Calou-se. Na sala, por outro instante muito grave, apenas a voz do Tyson se ouvia. Com um nó na garganta, perguntei-lhe, embora eu já imaginasse a resposta: “Por que não?” Ao que ele me replicou, infelizmente, sem nenhum traço de hesitação: “Porque eu sou deficiente.”

Em última instância, assim, eu poderia dizer-lhes que Capacitismo é essa força invisível que faz um menino de 12 anos não se sentir no direito de sonhar, porque seus olhos não estão de acordo com o que um conceito construído de normalidade espera deles.

Mas, em termos técnicos, a lógica capacitista se configura como uma mentalidade que lê a pessoa com deficiência como não igual, incapaz e inapta tanto para o trabalho quanto para, até mesmo, cuidar da própria vida e tomar as próprias decisões enquanto sujeito autônomo e independente. Tudo isso porque, culturalmente, construiu-se um ideal de corpo funcional tido como normal para a raça humana, do qual, portanto, quem foge é tido, consciente ou inconscientemente, como menos humano.

O grande problema deste tipo de preconceito é ele ser extremamente sorrateiro, quase imperceptível a olho nu, vindo, inclusive, no mais das vezes, escondido sobre uma capa de Boas intenções muito difícil de ser questionada. Não é incomum ouvir histórias de colegas também cegos irritados com o modo como foram abordados na rua, porque, na maioria das vezes, quem se propõe a ajudar um estranho com deficiência não se importa em saber se a pessoa em questão realmente precisa ou mesmo quer ser ajudada. De modo tal que, se reclamamos do estranho que nos puxa pelo braço ao nos ver ao pé da calçada, automaticamente somos taxados de ingratos. Não passa  pela cabeça desses paladinos das ruas o fato surpreendente de que, talvez, não quiséssemos atravessar, mas estivéssemos apenas esperando alguém, por exemplo.

O melhor jeito de ajudar a alguém com deficiência é muito simples: PERGUNTE. O jeito mais fácil de entender a deficiência de alguém é: pergunte. No entanto, a mentalidade de que qualquer pessoa com deficiência está em situação de necessidade e, portanto, não precisa ser questionada sobre suas próprias vontades, essa falta de interesse sobre a vida interior da pessoa com deficiência está enraizada no comportamento social devido a processos históricos que encararam a presença do corpo fora do padrão de normalidade de diversas formas. Ao longo da história, a sociedade já tratou da deficiência por alguns vieses: o do extermínio, que é autoexplicativo; do isolamento, em que aqueles considerados fisicamente incapazes são separados do corpo social “funcional”,etc.

O modo de encarar a questão mais próximo de nossa geração, contudo, é o da medicalização. Isto é, tratar a deficiência enquanto problema de saúde, uma vez que ser ou tornar-se deficiente, de acordo com esta lógica, passa essencialmente pela dinâmica de ter uma doença, lesão  ou síndrome que devem ser tratadas. Assim, lemos as pessoas com deficiência enquanto enfermos , fato este que acaba por despejar sobre os sujeitos a sensação de obrigatoriedade da busca pela cura ou reversão do problema. O que, obviamente, nem sempre será possível. Diante da irreversibilidade da deficiência, então, surgem dois estereótipos bastante prejudiciais para quem tem que conviver com limitações diariamente se quiser conseguir transitar pela vida social: o coitado e o herói.

Quem olha para uma pessoa com deficiência vendo um coitado acaba subestimando as capacidades do indivíduo, higienizando seu comportamento e criando imagens de inocência e pureza inexistentes em quaisquer seres humanos, tenha ele uma deficiência ou não: gente com deficiência não rouba, não transa, não trai, não mente, são anjos que precisam ter sua candura preservada. Este tipo de preconceito causa uma dificuldade ímpar: temos que, diariamente, provar para quem nos olha de fora que somos iguais e merecemos tratamento, direitos e condições iguais de exercer nossa dignidade. Ao nos desumanizar, a sociedade se isenta de nos encarar enquanto participantes, o que acaba desembocando no problema da exclusão social.

Aqui reside a nem tão sutil diferença entre inclusão e assistencialismo. Encarar o sujeito com deficiência enquanto coitado quase sempre desembocará em políticas públicas e atitudes discriminatórias. O assistencialismo separa a população “problemática” da população “normal”, sob a justificativa de que aquela parcela precisa de atendimento especializado, diferenciado e, portanto, incompatível com as dinâmicas comuns. Então, para remendar o capacitismo nosso de cada dia, separamos dois caixas no supermercado, para quem tem “necessidades especiais”, quando, a bem da verdade, a minha necessidade ali é a mesma de qualquer outro: pagar minhas compras. De modo que, por esse exemplo, em uma sociedade minimamente informada, empática e educada, qualquer um dos caixas do supermercado deveria servir, pois o que se precisa, nesta situação, é de PREFERÊNCIA, e não ESPECIALIZAÇÃO. Qualquer sujeito poderia ceder sua vez na fila comum para o próximo que, devido à sua condição física, não consegue esperar o mesmo tempo que a maioria das pessoas.

Dessa discrepância entre aquilo que a sociedade me oferece e aquilo que tenho como limitação de meu corpo é que surge o estereótipo do herói: exemplo de superação que, apesar de todas as injustiças, obstáculos  e problemas, é capaz de sustentar uma vida produtiva e até se destacar em alguma atividade. Criamos, com este mito, o estigma cruel  que, subliminarmente, obriga toda e qualquer pessoa com deficiência a se conformar com a ideia de que o mundo não foi feito para ela , que ela precisará sempre se contorcer e fazer esforços sobre-humanos para conseguir, depois de tudo isso, o mesmo resultado que alguém sem deficiência conseguiria se esforçando apenas o suficiente.

Não deveria ser tão difícil de entender que muitos dos  problemas de acessibilidade cotidianos se resolveriam com a simples mudança de atitude das pessoas em seu convívio coletivo. Mudança essa que, obviamente, só aconteceria depois de todos os cidadãos serem bem informados sobre o que é ser deficiente.

Mas o que é mesmo ser deficiente?

Propõe-se, hoje, que superemos aquele modo de tratar a deficiência do ponto de vista da medicalização, ultrapassado e nocivo, para adotarmos uma mentalidade de inclusão que, oposta ao assistencialismo, pretende que, na vida diária, nos lugares públicos e no cotidiano das pessoas, tudo seja projetado de forma tal que alguém sem deficiência alguma esteja transitando pelos mesmos locais que pessoas com os mais diversos tipos de deficiência. A chamada universalização do acesso viabiliza a convivência e seria capaz de anular a impressão de que não existem deficientes e, por isso, os espaços não precisam ser adaptados.

Em outras palavras, uma sociedade capacitista subverte a lógica da oferta/demanda em favor de manter seu conformismo confortável. Um dono de restaurante, por exemplo, argumenta que não investe em cardápios em Braille porque não recebe clientes cegos, quando, na verdade, ele precisaria dispor desse material de antemão, para que clientes cegos se sentissem impelidos a frequentar seu estabelecimento. Assim, acabamos por levar a culpa pela própria falta de acessibilidade que nos impede de transitar pela cidade. Este é o perigo do capacitismo: uma vez que não temos condições de frequentar lugares públicos, devido à falta de acessibilidade, é lógico que ninguém vê pessoas com deficiência nesses lugares, o que acaba criando a ilusão de que essas pessoas não existem.

Deficiência, desse modo, não é o meu médico quem determina, mas o comportamento cultural. Meu médico me diz: descolamento das retinas, glaucoma, visão nula em ambos os olhos. A sociedade, então, por sua vez, em função desse diagnóstico, me força a ficar em casa, porque mesmo sair na rua, para ir até a padaria, no final da avenida, é praticamente impossível: calçadas irregulares, falta de padrões, pessoas despreparadas para lidar com um transeunte que empunha uma bengala e não é idoso… De modo que, o essencial é compreender que deficiência é uma condição social que resulta dessa expectativa coletiva de que todos os corpos funcionem do mesmo jeito. Dentro do meu quarto, por exemplo, eu deixo de ser deficiente, pois, adaptado e organizado como está, consigo dispor do espaço sem me privar e sem depender de olhos alheios. Em uma cidade onde as calçadas fossem padronizadas, devidamente sinalizadas e acessíveis para circulação universal, eu não seria mais uma pessoa com deficiência. Seria apenas cego, somente um aspecto particular meu, uma característica, como meu cabelo ser castanho.

Por fim, vamos ao uso dos termos, porque, mais do que um preciosismo, entendemos que o modo pelo qual nos referimos a uma situação acaba expressando e reforçando o modo como lidamos com ela. Em textos oficiais, institucionais e quando estamos falando de sujeitos não íntimos de nosso convívio, precisamos pensar no modo como usamos as palavras. Durante muito tempo, usou-se a expressão “portador de necessidades especiais” para se referir a estas pessoas. Esse termo é problemático por vários motivos. Primeiro, o termo “portador” passa duas ideias equivocadas: a de que eu disponho da minha deficiência e a carrego comigo, portando-a; além de ser o termo cunhado e utilizado no discurso médico, dando a entender que ainda percebemos a deficiência enquanto problema de saúde, e não problema de atitude. Depois, “necessidades especiais” não calha pois aquilo que esperamos são condições para usufruirmos dos mesmos serviços e tratamentos que pessoas sem deficiência dispõem. Isto é, acesso à vida pública e privada com autonomia é essencial para a dignidade humana e, frise-se bem, dignidade não é uma necessidade especial. Sendo assim, apesar de não haver consenso, o uso geral e corrente se vale do termo “pessoa com deficiência”, pois destaca que o aspecto humano, a pessoa, vem antes da limitação, sendo esta um fator que não pode nem deve determinar o sujeito em sua integridade.

Links interessantes sobre deficiência e capacitismo

Este artigo: Por uma genealogia do capacitismo: da eugenia estatal a narrativa capacitista social

Este alerta da Priscylla Piucco: Apagamento da mulher com deficiência no feminismo

Este texto do Victor Caparica: Sobre Deficiência, Opressão e Assistencialismo

Este episódio do Podcast Dragões de Garagem: Dragões de Garagem #64 Ciência e deficiência

Este episódio do Podcast Rock Com Ciência: Acessibilidade – Visão (S06E29)

Este episódio do Podcast Mamilos: Mamilos 17 – Sindrome de Down e Inclusão, Achacadores, Batgirl e Mamaço

O canal no Youtube da Fatine Oliveira: Disbuga

“Corre, gordinha!” – Sobre exercitar-se sendo gorda e superar julgamentos

“Corre, gordinha!” – Sobre exercitar-se sendo gorda e superar julgamentos

Pra quem acompanha o blog e me conhece, sabe que fui gorda a vida inteira e acabei emagrecendo há pouco tempo, o que não me livrou de comentários gordofóbicos de alguns colegas que patrulham minha saúde com comentários do tipo “Cuidado pra ver se não engorda tudo de novo, né??”, como se ganhar peso fosse sinônimo de algo ruim ou falta de cuidado com a saúde. Mas eu acho que não é novidade que ser gorda não está diretamente relacionado à falta de uma alimentação adequada ou com falta de exercícios.

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Não era por que eu era gorda que eu não praticava exercícios físicos. Eu fiz karatê durante seis anos da minha vida e era gorda quando praticava. Isso nunca me impediu de fazer nada ou de deixar de realizar movimento nenhum. (E aí vai uma foto bem queimação porque, né, não basta dizer, tem que mostrar, hehe)

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Aliás, devido ao karatê minha aptidão física sempre foi muito boa. Praticar karatê não bastava pra eu ouvir comentários diariamente como: “Precisa se exercitar mais” ou ouvir do médico: “Precisa dar uma caminhadinha”, mesmo tendo meus exames na mais perfeita ordem. Exercício físico sempre foi uma paixão pra mim, desde quando pratiquei karatê. E lá no dojo (local onde ocorriam as aulas) eu não sofria preconceitos, mas fui, aos poucos, deixando de lado essa paixão, porque começou a se tornar uma obrigação, já que eu deveria, para os outros, sempre buscar resultados de emagrecimento fazendo exercícios.

Só depois de uns quatro anos é que retornei a me exercitar. Caminhava e depois comecei, aos poucos, a correr. Sentia vergonha de ir a uma academia com meus 130kg e isso é tão comum entre mulheres de modo geral… Pessoas gordas que sofrem gordofobia tendem a não frequentar determinados ambientes cansadas de ouvir comentários ou aguentar olhares de julgamento alheio.

Por isso sempre tive uma batalha contra a exposição do meu corpo. Nunca me esqueço quando comecei a correr e, logo no primeiro dia que me arrisquei, ouvi: “CORRE, GORDINHA!”, de um grupo de homens que passou por mim. E eu continuei correndo sim e como corro até hoje e continuo sendo, por vezes, assediada (muitas vezes dá vontade de dar uma rasteira em quem é invasivo demais).

As pessoas invadem demais o corpo alheio. E o exercício acaba se tornando chato, coisa que não deveria ser. Exercício é amor e prazer, é serotonina, é divertir-se, movimentar-se. Mas essa política de regulação corporal faz tudo parece uma grande merda, um grande martírio. Hoje frequento uma academia e descobri nela aulas de ginástica que, por vezes, eu faço e gosto muito. Acredito que o ambiente da sala de ginástica julga menos que uma sala de musculação e isso deixa, de fato, as pessoas mais à vontade.

Mas, mesmo sendo um ambiente mais receptivo, isso não me poupa de comparações. Tenho uma colega gorda em uma das aulas e algumas pessoas sabem que perdi peso durante a vida. Já ouvi comentários do tipo: “Tá vendo? Marcella conseguiu, você só precisa ter força de vontade”, sem sequer a pessoa gorda ter sido perguntada se ela quer ou não emagrecer. E se ela não quiser, e se quiser só se divertir, ter descargas de hormônios de prazer no corpo?? E afinal, o que é “força de vontade”? E se, simplesmente, eu não quiser ter força de vontade?

Hoje em dia o que mais a gente vê e acompanha são “blogueiras fitness” que passam dietas, exercícios e tantas outras coisas mais no intuito de manter-se magra O que já é errado, porque só quem pode receitar algo são nutricionistas, médicos e educadores físicos. Qualquer coisa vale a pena. A coisa tá ficando tão crítica que até uma dessas blogueiras incitou o vazamento de imagens da colega caso a outra não cumprisse a dieta semanal. O quão doentio é essa política de manter-se saudável??

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A política de manter-se saudável que eu apoio é poder apenas sentir-se bem e frequentar o ambiente que quiser, usar a roupa que quiser, dançar zumba, praticar musculação, correr…ou então ficar em casa e sentar assistindo séries e comendo uma pipoquinha. Porque devemos fazer o que queremos. E, depois que vi esse vídeo curtinho é que percebi mais ainda que nós podemos tudo:

“This Girl Can” é uma campanha que celebra as mulheres que não se importam como elas aparentam ou o quão suadas elas ficam. Elas estão aqui para nos inspirar a mexer, balançar, se mover e provar que o julgamento é uma barreira que pode ser superada”

“Eu balanço, logo existo”

“Suando quem nem uma porca”

“Se sentindo como uma raposa”

“Eu chuto bolas”

“Isso mesmo, eu me sinto ‘quente’”