Gordofobia e transtorno bipolar: um relato de Erika Morais

Gordofobia e transtorno bipolar: um relato de Erika Morais

Gostaria de compartilhar minha história com vocês, mas vou tentar resumir. Tenho 32 anos, sou casada com uma pessoa exemplar, meu anjo da guarda, tenho uma família que me apoia, tudo perfeito, se não fosse por um detalhe: tenho transtorno bipolar.

Sei que o foco aqui é o nosso corpo, mas precisei colocar isso pra poderem entender lá na frente. Sempre fui uma menina gorda, sofria o que hoje chamam de bullyng, mas tinha lá minhas amiguinhas. Nunca havia beijado até os 16 anos e, quando dei o meu primeiro beijo e comecei a namorar, minha mãe disse: você não tem capacidade de arrumar coisa melhor mesmo, né? Quando fiz 18 anos, meu corpo começou a mudar e dos meus 80 fui para os 60 kg, mas me achava gorda, fiquei com aquela minha imagem antiga na cabeça, então não conseguia me soltar, me arrumar, essas coisas. Tive muitos relacionamentos frustrados, alguns percalços e, depois que minha avó morreu em 2006, entrei em depressão. Comecei a tomar antidepressivos e melhorei. O problema é que melhorei demais. Gastei R$ 10.000,00 no cartão de crédito em uma semana, cada dia saía com uma pessoa diferente pra ir pro motel, estava me sentindo uma super mulher.

Na doença que eu tenho, isso chama-se euforia ou mania. Só que como a doença é cíclica, entrei em depressão novamente. Só procurava os médicos quando estava pra baixo, obviamente. Foi então que me diagnosticaram não com depressão somente, e sim com transtorno bipolar. Desde 2007 faço tratamento pra esse transtorno mental que se tornou um transtorno físico. Graças aos remédios, comecei a engordar e cheguei nos 85 kg. Fiz a burrice de parar com a medicação quando achei que estava boa, entrei numa academia, fiz reeducação alimentar e cheguei nos 59 kg, até fui capa daquela revista Sou Mais Eu da Abril. Novamente deprimida, voltei com a medicação em 2009 e então não parei mais. Ocorreram muitas oscilações no meu peso, mas definitivamente essa foi a mais significante: hoje estou com 120 kg. Não consigo sair pra andar, correr, enfim, fazer nada porque a doença me limita demais. Sempre fui gorda, mas dessa vez meu peso aumentou demais por causa dos remédios e não tenho previsão de quando vou emagrecer novamente, pois isso depende da diminuição dos remédios (hoje tomo 10 comprimidos, 5 tipos de remédio) ou sua suspensão, o que não é possível pois é um tratamento para vida inteira. Vejo gordas lindas, que se amam e não as recrimino por se amarem porque realmente também as acho lindas. Mas não consigo me aceitar assim. Não me acho uma pessoa feia, mas acho que nem é a questão do peso, e sim a questão da minha auto estima ser muito, muito baixa. Como disse, nem magra eu estava satisfeita. Mas como doente mental sofro muito preconceito, daí junta com ser gorda, por isso já fui chamada de preguiçosa, de relaxada, até de suja, porque transpiro demais. Ninguém senta do meu lado no ônibus porque simplesmente não cabe. Meu marido, tadinho, faz um sacrifício e fica todo apertadinho do meu lado. Diz que eu sou linda, que me ama como eu sou, mas nós que temos que nos amar, não é mesmo? Eu já estou passando com muita dificuldade na catraca do ônibus e esses dias fiquei presa, as pessoas xingando atrás de mim porque queriam entrar e eu não conseguia voltar porque a catraca trava, só vai pra frente. Depois de me machucar toda, consegui passar. Desço dele com dificuldade e medo, pois já caí várias vezes e ninguém veio me ajudar, passam e ficam olhando com aquela cara de “quem manda ser gorda”.

Os meus psiquiatras disseram que no momento preciso escolher entre ficar boa da cabeça ou do corpo, mas sem a cabeça no lugar não somos nada, por isso optei por continuar com meu tratamento. Fico muito, muito mal sem os remédios, oscilando entre euforia e depressão, às vezes até no mesmo dia. Enfim, esse é um resumo da minha história. Não sou uma gorda infeliz e nem posso cogitar isso, já que tenho uma família que me ama, um marido bondoso e amável e poucos amigos, mas que me fazem feliz. Mas quanto ao meu corpo sou indiferente, não me odeio mas também não me amo. Eu sempre trabalhei de social, muito bem arrumada. Hoje não aguento colocar um salto, não acho roupas sociais ou roupas bonitas que sejam baratas e devido a minha doença não estou trabalhando, por isso também perdi o interesse em me arrumar. Quando saio, visto o que é mais largo e confortável, geralmente de tênis, mas até o tênis está apertando o meu pé. Sapatilhas não entram, mesmo comprando números maiores. É vou vivendo essa vida, estabilizada pelos remédios mas sem maiores felicidades.

Desculpe o desabafo. Obrigada por proporcionar isso.