Emagrecer não resolve seus problemas

Emagrecer não resolve seus problemas

Esse texto não nasceu com o intuito de desencorajar ninguém a emagrecer. Ele é mais um relato de experiência, algo que venho passando desde que perdi peso e é um texto que eu desenhei há alguns meses na cabeça, mas só escrevi agora encorajada pela publicação de Marco Magoga (LEIA AQUI), que, quando li, me senti muito contemplada. Então iniciarei contando um pouco do meu processo.

Desde que me vejo e entendo por gente fui gorda e, como acontece com a maioria das pessoas gordas pressionadas socialmente, passei a vida em tentativas (falhas) de fazer dietas. Sempre perdia 10kg, mas engordava o dobro. Nunca foi por falta de “força de vontade”, como muitos dizem. Outros motivos e vivências sempre me levaram a permanecer gorda. Em 2011, com 130kg e usando tamanho 56, iniciei uma nova tentativa de emagrecer, de modo turbulento, em meio a uma tentativa forçada dos meus pais em me enviar para um spa: sempre havia discussões com meu pai e minha mãe em que eles diziam como eu deveria emagrecer com aquele velho discurso: “É pela sua saúde”. É verdade. Talvez fosse pela minha saúde mental, porque é de adoecer qualquer cidadão a quantidade de críticas e opiniões (recheadas de gordofobia) que a pessoa gorda acaba recebendo apenas pelo simples fato de existir.

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Depois de um ano de dieta emagreci 55kg e alcancei um padrão socialmente aceito. Atualmente sou lida como alguém “magra”, não tenho meu corpo patologizado e nem medicalizado. Como relatei uma vez aqui nesse link, hoje em dia tenho um corpo “desejável” e eu entendo esse desejo como algo atrelado à ideia de um corpo mais perto da norma que foi estabelecida para os corpos, menos invisível socialmente, mais pessoas me elogiam, mais homens me paqueram… Enfim, NOSSA! Que ótimo, não? Imaginar que aquilo tudo que você viveu com seu “eu gordo” some, você é agora uma nova pessoa… Lamento informar que não é assim que funciona.

Minha vida é feita de vivências, discursos, sensações, rastros, que foram construídos ao longo de toda uma vida. E as experiências passadas comportam quem eu sou hoje. Muitas pessoas sempre me questionam motivos pra minha insegurança, tentam compreender minha baixa autoestima, afinal eu não sou mais gorda, não é? Além de ser um problema pensar que apenas pessoas gordas tem problemas com autoestima, é tão problemático pensar também que as memórias se apagam na hora em que se emagrece.

O que sinto que aconteceu é que tiraram de mim uma “capa protetora”, um lugar de conforto, em que eu podia expressar minha insegurança, meus problemas, pois afinal de contas, eu era gorda. E ser gorda é um problema pra sociedade, logo, se torna compreensível que em uma sociedade gordofóbica pessoas gordas tenham problemas (quando, na realidade, são as outras pessoas quem causam, na maioria das vezes, esses problemas).

Depois de muitos tapas na cara, entendi porque sempre engordava novamente. Não me ensinaram a como ser magra, assim como não ensinam ninguém a isso. Ninguém está preocupado com a “ressocialização” das pessoas que foram gordas. Ou você É magra ou você não É. As pessoas não entendem a transitoriedade como um lugar de falar.  Ninguém É em absoluto algo. Estamos o tempo todo falando e dizendo que nós SOMOS isso ou aquilo. O verbo SER é diferente do ESTAR. Nesse caso, nós não somos, nós apenas estamos, assim como nós estamos no mundo apenas de passagem.

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E ser lida como magra não me faz me enxergar como uma 24h do dia. Então vivo essa incoerência entre como as pessoas enxergam meu corpo e como eu penso sobre mim. Ainda querem me forçar a me ver como as outras pessoas me enxergam “Você não deveria mais pensar assim, você é outra pessoa”. Mas eu não sou outra pessoa. Eu sou a mesma Marcella e compartilho as mesmas experiências que essa Marcella antiga que tanto falam.

Esses dias fui a um bar e peguei uma cadeira e, na hora em que sentei, ouvi um estalo e logo me imaginei quebrando-a. Às vezes me esqueço que hoje em dia não tenho problemas com acessibilidade ou com médicos ou com roupas, e que me adaptei fisicamente ao mundo que nos força a ser pessoas magras. Diversas vezes a insegurança ainda me faz acreditar precisar fazer mais esforço que o necessário para alcançar determinados objetivos em que meu corpo é exposto, como é no caso de uma paquera, por exemplo, que é algo muito mais fácil para quem é magro. E acreditem, meus problemas não cessaram quando eu emagreci, inclusive me perdi em diversos momentos, tentando entender quem eu era agora, quando descobri que sou o que fui e que me construo diariamente. Emagrecer não resolve seus problemas, pode, inclusive, potencializá-los, gerando transtornos psicológicos porque você pode não conseguir sustentar o corpo magro que tanto foi exigido de você: “Manter-se magro pode ser uma pressão tão aterrorizante quanto tornar-se magro quando a magreza é colocada como único meio possível de vida.” (Marco Magoga)

Minha proposta aqui não é desestimular alguém que queira emagrecer. Mas é de alertar que é preciso se entender e entender os motivos pelos quais quer perder peso, para poder entrar em um processo que não ocorra de forma traumática. Não entre nessa de que você LUTA contra o peso ou contra seu atual corpo, afinal de contas, ele não é seu inimigo,
ele é seu aliado, seu templo e seu lugar.
Você é o seu corpo. Soa clichê, mas é importante aprender a se amar da forma que se é, porque os problemas atuais não serão perdidos iguais aos quilos. Eles podem, inclusive se potencializar ou surgir outros problemas, caso você não pare de lutar contra si mesma.

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