Histórias do amor e do corpo: Sobre um homem que amei

Histórias do amor e do corpo: Sobre um homem que amei

Thamires Thamares

Eu amei um homem. Amei-o da forma mais bonita, platônica e triste que se pode imaginar. Chorei, escrevi cartas que nunca foram entregues, perdoei suas traições, vivi… e morri mais que vivi durante o tempo em que estivemos juntos. Eu amei um homem. Amei com a alma, a mesma alma dilacerada com palavras. A mesma alma que sangrava toda vez que eu enviava mensagem dizendo estar com saudade e recebia indiferença como resposta.

Eu amei um homem que se dizia perfeito. Amei um homem trabalhador, estudioso, atencioso. Amei um homem que cozinhava pra mim, que comprava remédio,que fazia coisas normais que qualquer pessoa faria, mas que eu considerava “especiais”. Eu amei um homem que tinha pelúcias em casa, um homem sensível, um homem de voz mansa e rouca.

O homem que eu amei não amava o meu corpo. O homem que eu amei não gostava de mulheres fora

Foto: Beatriz Alves
Foto: Beatriz Alves

do padrão, sem barriga chapada e pernas torneadas. O homem que eu amei ligava pra dizer que eu estava gorda, que precisava emagrecer e que devia pensar na minha saúde.

O homem que eu amei adorava destacar a estética da sua ex-namorada, inclusive, ficou com ela inúmeras vezes enquanto estava comigo. O homem que eu amava afirmou que preferia quando eu era magra, quando pesava 45 kilos, pois parecia mais com uma boneca, agora, apesar do rosto angelical, eu já não pareço mais uma Barbie.

O homem que eu amei reclamava das roupas que eu usava, dizia que minhas pernas tinham celulite, apontava minhas estrias, reclamava das fotos de biquíni nas redes sociais. O homem que eu amava sugeria que eu me alimentasse melhor, que fosse a academia perder peso e dizia que como jornalista eu devia ser magra.

O Homem que eu amei tinha um corpo atlético, era historiador e usou o discurso de preocupado com o meu futuro para reafirmar a necessidade de estar sempre esbelta.

O homem que eu amei me colocou em frente a um espelho que tinha na casa dele. Pediu que eu me avaliasse e com sua mão apontou cada “imperfeição” do meu corpo. Apertou as gordurinhas laterais, a barriga, as pernas e comentou que tudo aquilo poderia ser melhorado, bastava força de vontade.

O homem que eu amei sabia da minha rotina de sair as cinco da manhã e só voltar as 19h, sabia que eu trabalhava o dia todo, que na maioria das vezes não conseguia seguir dietas e horários. O homem que eu amei me trazia chocolates, oferecia vinho e ainda assim insistia em me chamar de gorda e querer que eu seguisse os padrões de beleza cruéis impostos pela sociedade.

O homem que eu amei brigava com minhas amigas nas redes sociais quando as mesmas me marcavam em publicações de empoderamento. O homem que eu amava dizia que a culpa por a gente não ter dado certo era minha por não saber respeitar o tempo dele. O homem que eu amei chamava pra conversar durante o São João para fazer um acordo de que deveríamos curtir a festa e não nos apegarmos. O homem que eu amei ficava com as mulheres mais magras e me contava. Dizia que estava com o ego inflado por conseguir ficar com uma “novinha” de 18 anos. O homem que eu amei dizia que não se importava com o atual da ex-dele por que ele era gordo. O homem que eu amei se vangloriava pelas mulheres bonitas que havia pegado . O homem que eu amei não suportava o fato de na frente dele eu mostrar segurança mesmo com todo o seu histórico de gordofobia e machismo. O homem que eu amei me apontou como incompetente por causa de um desabafo que fiz nas redes sociais quando soube que um policial militar queria dopar e estuprar as filhas de sua amante com a permissão dela alegando ser uma prova de amor. O homem que eu amei disse que eu não devia julgar um “pedófilo inocente” e devia medir as palavras pois a mesma polícia que eu criticava eu procurava para obter informações para o jornal que eu produzo. O homem que eu amei me deixou cicatrizes e alguns traumas, mas me mostrou o quanto é importante lutar contra o machismo arraigado e ainda mais:o quanto eu não preciso de um homem que me menospreze e que não ama o meu corpo. O homem que eu amei, eu já não amo mais…