O que eu penso sobre gordofobia? Meu senso comum

O que eu penso sobre gordofobia? Meu senso comum

Por Laura Gomes 

Tenho visto várias garotas iniciando uma luta contra os padrões que a sociedade impõe em relação ao conceito de mulher idealmente bela. Esta mulher, em quase todas as suas versões, é magra. Então uma boa parcela da sociedade feminina fica fora desse padrão e parte dela resolveu se pronunciar contra isso e se posicionar de forma empoderada.

Primeiramente, eu acho que para o bem ou para o mal, tudo se constrói a partir de padrões. Muitos deles são injustos e cruéis, como o ideal de beleza feminina. Sempre tive a ligeira impressão que por trás de todo o discurso de que é imprescindível ser bela estava uma indústria que produzia aquilo que precisaríamos para tentar chegar a esse ideal. Tentar, nunca chegar. Porque se chegássemos, essa indústria morreria e então não faria sentido para ela vender qualquer coisa que faria suas consumidoras nunca mais voltarem. Sendo assim, é absurdo querer se submeter a esse padrão que a indústria nos impõe. Sim, a indústria. Porque muitos acham que em nossa sociedade contemporânea os padrões e necessariamente os preconceitos nascem no seio da sociedade, do inconsciente coletivo puro, e que a indústria apenas pega essa ideia e a vende. Para mim é exatamente o oposto.

É a indústria que cria o padrão e massifica a ideia basicamente em tudo que vivenciamos. O ideal de beleza feminina está em todas as ações das mais diversas indústrias, e essas ações inundam nosso dia a dia, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

E obviamente não é apenas esse conceito que a indústria produz, mas todos os padrões que acreditamos ser ideais, sobre qualquer coisa. Então eu parto desse princípio, dessa ideia de “deus vivo”. Tudo que nós acreditamos ser certo ou errado, feio ou bonito, bom ou mau, entre milhares de outras dicotomias, não foi a sociedade que nos impôs, foi a indústria, o comércio. Alguém quer nos levar a consumir determinados produtos, então eles criam os estereótipos, criam os padrões, massificam, põem em todo lugar, toda hora, nos bombardeiam da hora que a gente nasce até a hora que morremos e por fim acabamos conhecendo apenas isso como verdade.

Um exemplo muito cruel disso eu percebi quando passei um tempo vendo filmes de comédia romântica. Muitos filmes de comédia romântica, um atrás do outro. Me intrigava o como a história era exatamente a mesma e mais importante do que isso: como os ideais eram sempre os mesmos. A mulher está solteira e se preocupando por estar velha demais para encontrar “o amor” (ainda que velha demais signifique 30 anos). Se sente deprimida e miserável por ter seu próprio dinheiro, seu próprio apartamento, seu próprio carro, sua própria vida social agitada com diversos homens que ela julgam atraente. Porque ela SÓ tem isso. Tudo isso só estará completo se ela encontrar “o amor”. Resumindo, nada está completo, nada é bom o suficiente, nenhuma conquista lhe deixa plena se ela não encontrou um homem que, numa situação bem elaborada, fique de joelhos para ela e lhe abra uma caixinha aveludada preta, contendo dentro um enorme e brilhante solitário, do qual ela vai se gabar para as amigas assim que puder como se aquilo fosse a coisa mais especial que pode acontecer a uma garota.

A Tiffany’s agradece por associar, em qualquer filme ou série, seus lindos solitários à prova de que um cara lhe ama, de que você é a garota mais especial do mundo. Por associar que uma mulher só pode ser completa com seus reluzentes solitários. E óbvio que não para por aí. Quem casa, quer casa. De preferência grande, espaçosa, com cercas brancas e gramado verde. E acima de tudo, cara. Cara ao ponto de você fazer uma hipoteca para carregar por toda a vida. E essa casa não ficará vazia. Existe uma infinidade de produtos que essa casa, que representa o ideal da mulher completa e realmente realizada.

Eu assisti dezenas de comédias românticas e em todas, sem exceção, é isso. Chegou um momento que eu, mesmo me sentindo jovem demais para casar, me senti miserável por não ter aquele homem de joelhos com um lindo anel para me fazer especial. E logo em seguida eu pensei “que porra é essa??”. Isso é tudo mentira, isso é tudo lavagem cerebral. E pior, isso faz as pessoas se sentirem tristes, deprimidas, miseráveis, porque aquele comercial não aconteceu com elas, e provavelmente nunca vai acontecer. Porque é um comercial.

O que isso tem a ver com gordofobia? Tudo! Outros gêneros de filmes, séries, comerciais, tudo que vemos e que de tanto vermos, fazemos associações com coisas prazerosas, nos ensinam que ser gordo é horrível, monstruoso. Quem não se lembra de um clássico como Professor Aloprado? O que nos ensinaram desde sempre é que gordo é nojento, fede, é repugnante, e que tocar num gordo é mesmo que mergulhar numa piscina de gordura pegajosa e viscosa. A pergunta é: de onde tiraram essa ideia? E uma pergunta melhor: o que se ganha se propagando essa ideia?

corpos

Visitei recentemente uma médica ótima, bastante profissional e informada. Eu já havia lido sobre isso, mas ela confirmou com mais detalhes que a forma como nós comemos foi decidida há algumas décadas atrás. Para baratear ao máximo os custos na produção de alimentos, nos ensinaram a consumir mais carboidrato do que qualquer outro tipo de alimento, porque carboidratos são fontes fáceis de energia e é algo fácil e barato de produzir aos montes. E melhor! Existem muitas formas de “enfeitar” um prato composto em sua maior parte de carboidratos e vendê-lo como se fosse uma grande, imensa e cara fonte de prazer imediato. Resumindo, a indústria nos viciou em carboidratos. As pessoas no geral não morrem mais de fome, elas morrem pelo o oposto, por comer demais.

Só tem um pequeno detalhe: carboidrato engorda, e muito! Se ele não for consumido em forma de energia ele se deposita no corpo em forma de gordura. Mas a indústria não se importa com os alarmantes e crescentes índices de obesidade em todas as faixas etárias. Primeiro porque produzir obesidade dá muito dinheiro. Segundo porque outra indústria nos oferece (sempre a um alto custo) todo tipo de produtos para emagrecermos. Como costumo dizer, tem alguém ganhando na entrada e tem alguém ganhando na saída. Ou para ser mais clara, somos feitos de otários na entrada e na saída.

Nenhum desses produtos para emagrecimento realmente funciona, mas eles têm um aparato de marketing gigantesco. Tem seus próprios comerciais mostrando resultados milagrosos, bastando apenas você querer, e pagar. Mas eles têm um aparato muito maior do que isso: a ideia difundida em tudo que vemos desde sempre de que gordos são feios, magros são bonitos. Gordos são repulsivos, magros são veneráveis.

Se você ligar a tv da hora que acorda e assiste até a hora de ir dormir verá que existe propagandas brutalmente atraentes para: 1 – você comer mais e coisas cada vez mais deliciosamente engordativas (mesmo que isso garanta não só a obesidade como infartos, derrames, diabetes, entre outros), e 2 – lhe fazer sentir um lixo humano por não ter um corpo magro e atlético. Isso parece imensamente contraditório? Sim. Mas essa é a mágica de quem ganha dinheiro. Eles arranjam o problema para poder vender a solução.

E mais uma vez se pergunta: o que a gordofobia tem a ver com esse monte de informação? As pessoas gordas são os bodes expiatórios para que a indústria nunca pare de ganhar muito dinheiro. Não parece absolutamente cruel que para que pessoas ganhem muito dinheiro, outras tenham que sofrer muito a vida inteira, tentando se encaixar, tentando ser o que ela não é, mas que precisa ser, porque todo mundo, hipnotizado pela massiva, contínua e persistente propaganda, olha para ela como se fosse uma aberração? Isso parece justo? Vamos realmente nos deixar manipular assim?

E sobre a mulher gorda, Deus!, isso recai com uma força muito maior. Porque o que nos vendem é que a mulher é o centro de quase toda a beleza e sensualidade que há no mundo. O que nos vendem é que uma garota nos padrões consegue qualquer coisa. Então a mulher gorda é alvo de todo tipo de agressão que alguém resolveu decidir, arbitrariamente, que ela merecia. Ela está sendo sempre preterida nas relações amorosas, ela sempre é vista como a mulher que não tem amor próprio, que nunca vai conseguir um homem que a ame e a deseje, a não ser que seja por um bizarro fetiche.

A gordofobia, a meu ver, é uma forma vil e desumana de manipular a sociedade e fazer com que se consuma enlouquecidamente todo tipo de produto, gerando assim riquezas para pessoas que no fim das contas não dão à mínima se as pessoas são trucidadas emocionalmente por isso, se elas se machucam e morrem por causa disso. A luta contra a gordofobia é, portanto, uma luta extremamente válida, que visa em primeira instância acabar com essa perseguição imbecil e impensada contra pessoas gordas, mas num futuro fazer toda a sociedade perceber que é apenas uma marionete para que um grupo pequeno e seleto tire dela o máximo possível de dinheiro.

LEMBREM-SE:

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SOMOS DIVAS! NASCEMOS PARA BRILHAR! Foto: Silvana Denker