O caso da feminista que quer emagrecer

O caso da feminista que quer emagrecer

por Evellyn Lima

Quando você se posiciona socialmente enquanto feminista o que não falta são questionamentos e vigilância comportamental vindos de todos em todos os espaços. “Mas você é feminista e se depila?  Então você não é feminista!”. Você é feminista e hétero? Não é feminista o suficiente.” “É feminista e quer casar e ter filhos? Devolve aqui a carteirinha de feminista”. Além de vir dos outros, às vezes esses questionamentos partem também de nós mesmas, como se fossemos incoerentes e/ou hipócritas. Mas é assim, é processo.

Assim, quando se é feminista e militante contra gordofobia, os questionamentos se avolumam. Se for feminista, militante contra a gordofobia e quer emagracer então, essa fiscalização se multiplica. Sou feminsita, militante antigordofobia e por enquanto não estou tentando emagracer. Veja, eu não disse que eu NÃO QUERO ou NÃO GOSTARIA porque quem nesta sociedade gordofóbica não é forçado a querer emagrecer, não é mesmo?! Mas por enquanto minhas prioridades e desejos são outros e na minha lista de prioridades emagrecer não aparece nem na décima posição, pois é um esforço que ainda não me parece vantajoso.

Mas é muito fácil entender porquê as pessoas, sejam elas feministas e militantes contra a gordofobia ou não, querem emagrecer. É muita coisa que se ganha só pelo fato de ser magra. Sendo magra eu não sou piada na televisão, na mesa do bar, na sala de casa. Sendo magra eu não vou me sentir a pior candidata naquela entrevista de emprego. Sendo magra eu vou ser paquerada na balada. Sendo magra talvez eu fique mais segura para aquele encontro com o crush do Tinder. Sendo magra eu não vou ficar com medo de não passar na catraca ou sentar naquela cadeira de plástico do bar. Sendo magra vou encontrar milhares de opções de roupa. Sendo magra eu não vou ter ninguém vigiando meu prato no selfservice ou no McDonalds. Sendo magra eu vou ser fotografada na balada. Enfim, acredito que já deu pra entender que a lista de benefícios sociais que se adquire quando se é magra ou quando se emagrece é gigantesca. Ou seja, quem não quer?

(Para além de tudo isso, lembre-se que Emagrecer não resolve seus problemas, como escreveu Marcella Alencar)

A psicóloga Marjorie Vicente diz que:

Há uma corrente de teóricos que acreditam que, com tantos avanços femininos (podemos acrescentar ‘feministas’ aqui, né?), a ditadura do corpo ideal é uma forma de ainda deter a mulher. E faz sentido, já que a maior parte acaba cedendo à pressão”.

E não se culpe por ceder. É o esperado. É o que todo mundo quer e trabalha para (todas as pessoas, todas as indústrias…). Esse vídeo aqui da Jout Jout fala um pouco sobre isso.

Mas ao ceder é importante entender o porquê, refletir e assumir suas escolhas. Vejo pessoas do movimento tentando emagrecer mas sempre de uma forma velada, tentando mascarar seu verdadeiro objetivo: “não, é só porque eu estava muito sendentária”, “não, é porque eu AMO malhar mesmo (pode ser, eu acredito)”, “estou fazendo só porque o médico pediu”, “é que estou trabalhando muito, nem percebi que estava emagrecendo”, “to bem chateada porque emagreci, sabe?”.

Todas essas afirmações podem ser realmente verdadeiras, mas quase sempre faz parte de um receio de dizer: SIM, sou FEMINISTA, luto contra a GORDOFOBIA e estou tentando EMAGRACER. Não tenham esse medo porque 1. Ninguém tem nada a ver com o que você faz ou deixa de fazer com o seu corpo. Isso é feminismo; 2. É totalmente compreensível toda mulher querer emagrecer, pois isso lhe dá um passaporte para ocupar um lugar social mais agradável. O magro ser o belo é construção social; 3. Assuma suas escolhas, sem medo. 4. Seja sincera com você e com os outros, é bem chato quando escutamos aquelas frases ali de cima apenas para tentar “não magoar a tadinha da gorda”.

 

 

O que eu penso sobre gordofobia? Meu senso comum

O que eu penso sobre gordofobia? Meu senso comum

Por Laura Gomes 

Tenho visto várias garotas iniciando uma luta contra os padrões que a sociedade impõe em relação ao conceito de mulher idealmente bela. Esta mulher, em quase todas as suas versões, é magra. Então uma boa parcela da sociedade feminina fica fora desse padrão e parte dela resolveu se pronunciar contra isso e se posicionar de forma empoderada.

Primeiramente, eu acho que para o bem ou para o mal, tudo se constrói a partir de padrões. Muitos deles são injustos e cruéis, como o ideal de beleza feminina. Sempre tive a ligeira impressão que por trás de todo o discurso de que é imprescindível ser bela estava uma indústria que produzia aquilo que precisaríamos para tentar chegar a esse ideal. Tentar, nunca chegar. Porque se chegássemos, essa indústria morreria e então não faria sentido para ela vender qualquer coisa que faria suas consumidoras nunca mais voltarem. Sendo assim, é absurdo querer se submeter a esse padrão que a indústria nos impõe. Sim, a indústria. Porque muitos acham que em nossa sociedade contemporânea os padrões e necessariamente os preconceitos nascem no seio da sociedade, do inconsciente coletivo puro, e que a indústria apenas pega essa ideia e a vende. Para mim é exatamente o oposto.

É a indústria que cria o padrão e massifica a ideia basicamente em tudo que vivenciamos. O ideal de beleza feminina está em todas as ações das mais diversas indústrias, e essas ações inundam nosso dia a dia, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

E obviamente não é apenas esse conceito que a indústria produz, mas todos os padrões que acreditamos ser ideais, sobre qualquer coisa. Então eu parto desse princípio, dessa ideia de “deus vivo”. Tudo que nós acreditamos ser certo ou errado, feio ou bonito, bom ou mau, entre milhares de outras dicotomias, não foi a sociedade que nos impôs, foi a indústria, o comércio. Alguém quer nos levar a consumir determinados produtos, então eles criam os estereótipos, criam os padrões, massificam, põem em todo lugar, toda hora, nos bombardeiam da hora que a gente nasce até a hora que morremos e por fim acabamos conhecendo apenas isso como verdade.

Um exemplo muito cruel disso eu percebi quando passei um tempo vendo filmes de comédia romântica. Muitos filmes de comédia romântica, um atrás do outro. Me intrigava o como a história era exatamente a mesma e mais importante do que isso: como os ideais eram sempre os mesmos. A mulher está solteira e se preocupando por estar velha demais para encontrar “o amor” (ainda que velha demais signifique 30 anos). Se sente deprimida e miserável por ter seu próprio dinheiro, seu próprio apartamento, seu próprio carro, sua própria vida social agitada com diversos homens que ela julgam atraente. Porque ela SÓ tem isso. Tudo isso só estará completo se ela encontrar “o amor”. Resumindo, nada está completo, nada é bom o suficiente, nenhuma conquista lhe deixa plena se ela não encontrou um homem que, numa situação bem elaborada, fique de joelhos para ela e lhe abra uma caixinha aveludada preta, contendo dentro um enorme e brilhante solitário, do qual ela vai se gabar para as amigas assim que puder como se aquilo fosse a coisa mais especial que pode acontecer a uma garota.

A Tiffany’s agradece por associar, em qualquer filme ou série, seus lindos solitários à prova de que um cara lhe ama, de que você é a garota mais especial do mundo. Por associar que uma mulher só pode ser completa com seus reluzentes solitários. E óbvio que não para por aí. Quem casa, quer casa. De preferência grande, espaçosa, com cercas brancas e gramado verde. E acima de tudo, cara. Cara ao ponto de você fazer uma hipoteca para carregar por toda a vida. E essa casa não ficará vazia. Existe uma infinidade de produtos que essa casa, que representa o ideal da mulher completa e realmente realizada.

Eu assisti dezenas de comédias românticas e em todas, sem exceção, é isso. Chegou um momento que eu, mesmo me sentindo jovem demais para casar, me senti miserável por não ter aquele homem de joelhos com um lindo anel para me fazer especial. E logo em seguida eu pensei “que porra é essa??”. Isso é tudo mentira, isso é tudo lavagem cerebral. E pior, isso faz as pessoas se sentirem tristes, deprimidas, miseráveis, porque aquele comercial não aconteceu com elas, e provavelmente nunca vai acontecer. Porque é um comercial.

O que isso tem a ver com gordofobia? Tudo! Outros gêneros de filmes, séries, comerciais, tudo que vemos e que de tanto vermos, fazemos associações com coisas prazerosas, nos ensinam que ser gordo é horrível, monstruoso. Quem não se lembra de um clássico como Professor Aloprado? O que nos ensinaram desde sempre é que gordo é nojento, fede, é repugnante, e que tocar num gordo é mesmo que mergulhar numa piscina de gordura pegajosa e viscosa. A pergunta é: de onde tiraram essa ideia? E uma pergunta melhor: o que se ganha se propagando essa ideia?

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Visitei recentemente uma médica ótima, bastante profissional e informada. Eu já havia lido sobre isso, mas ela confirmou com mais detalhes que a forma como nós comemos foi decidida há algumas décadas atrás. Para baratear ao máximo os custos na produção de alimentos, nos ensinaram a consumir mais carboidrato do que qualquer outro tipo de alimento, porque carboidratos são fontes fáceis de energia e é algo fácil e barato de produzir aos montes. E melhor! Existem muitas formas de “enfeitar” um prato composto em sua maior parte de carboidratos e vendê-lo como se fosse uma grande, imensa e cara fonte de prazer imediato. Resumindo, a indústria nos viciou em carboidratos. As pessoas no geral não morrem mais de fome, elas morrem pelo o oposto, por comer demais.

Só tem um pequeno detalhe: carboidrato engorda, e muito! Se ele não for consumido em forma de energia ele se deposita no corpo em forma de gordura. Mas a indústria não se importa com os alarmantes e crescentes índices de obesidade em todas as faixas etárias. Primeiro porque produzir obesidade dá muito dinheiro. Segundo porque outra indústria nos oferece (sempre a um alto custo) todo tipo de produtos para emagrecermos. Como costumo dizer, tem alguém ganhando na entrada e tem alguém ganhando na saída. Ou para ser mais clara, somos feitos de otários na entrada e na saída.

Nenhum desses produtos para emagrecimento realmente funciona, mas eles têm um aparato de marketing gigantesco. Tem seus próprios comerciais mostrando resultados milagrosos, bastando apenas você querer, e pagar. Mas eles têm um aparato muito maior do que isso: a ideia difundida em tudo que vemos desde sempre de que gordos são feios, magros são bonitos. Gordos são repulsivos, magros são veneráveis.

Se você ligar a tv da hora que acorda e assiste até a hora de ir dormir verá que existe propagandas brutalmente atraentes para: 1 – você comer mais e coisas cada vez mais deliciosamente engordativas (mesmo que isso garanta não só a obesidade como infartos, derrames, diabetes, entre outros), e 2 – lhe fazer sentir um lixo humano por não ter um corpo magro e atlético. Isso parece imensamente contraditório? Sim. Mas essa é a mágica de quem ganha dinheiro. Eles arranjam o problema para poder vender a solução.

E mais uma vez se pergunta: o que a gordofobia tem a ver com esse monte de informação? As pessoas gordas são os bodes expiatórios para que a indústria nunca pare de ganhar muito dinheiro. Não parece absolutamente cruel que para que pessoas ganhem muito dinheiro, outras tenham que sofrer muito a vida inteira, tentando se encaixar, tentando ser o que ela não é, mas que precisa ser, porque todo mundo, hipnotizado pela massiva, contínua e persistente propaganda, olha para ela como se fosse uma aberração? Isso parece justo? Vamos realmente nos deixar manipular assim?

E sobre a mulher gorda, Deus!, isso recai com uma força muito maior. Porque o que nos vendem é que a mulher é o centro de quase toda a beleza e sensualidade que há no mundo. O que nos vendem é que uma garota nos padrões consegue qualquer coisa. Então a mulher gorda é alvo de todo tipo de agressão que alguém resolveu decidir, arbitrariamente, que ela merecia. Ela está sendo sempre preterida nas relações amorosas, ela sempre é vista como a mulher que não tem amor próprio, que nunca vai conseguir um homem que a ame e a deseje, a não ser que seja por um bizarro fetiche.

A gordofobia, a meu ver, é uma forma vil e desumana de manipular a sociedade e fazer com que se consuma enlouquecidamente todo tipo de produto, gerando assim riquezas para pessoas que no fim das contas não dão à mínima se as pessoas são trucidadas emocionalmente por isso, se elas se machucam e morrem por causa disso. A luta contra a gordofobia é, portanto, uma luta extremamente válida, que visa em primeira instância acabar com essa perseguição imbecil e impensada contra pessoas gordas, mas num futuro fazer toda a sociedade perceber que é apenas uma marionete para que um grupo pequeno e seleto tire dela o máximo possível de dinheiro.

LEMBREM-SE:

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SOMOS DIVAS! NASCEMOS PARA BRILHAR! Foto: Silvana Denker 

 

Histórias do amor e do corpo: Sobre um homem que amei

Histórias do amor e do corpo: Sobre um homem que amei

Thamires Thamares

Eu amei um homem. Amei-o da forma mais bonita, platônica e triste que se pode imaginar. Chorei, escrevi cartas que nunca foram entregues, perdoei suas traições, vivi… e morri mais que vivi durante o tempo em que estivemos juntos. Eu amei um homem. Amei com a alma, a mesma alma dilacerada com palavras. A mesma alma que sangrava toda vez que eu enviava mensagem dizendo estar com saudade e recebia indiferença como resposta.

Eu amei um homem que se dizia perfeito. Amei um homem trabalhador, estudioso, atencioso. Amei um homem que cozinhava pra mim, que comprava remédio,que fazia coisas normais que qualquer pessoa faria, mas que eu considerava “especiais”. Eu amei um homem que tinha pelúcias em casa, um homem sensível, um homem de voz mansa e rouca.

O homem que eu amei não amava o meu corpo. O homem que eu amei não gostava de mulheres fora

Foto: Beatriz Alves
Foto: Beatriz Alves

do padrão, sem barriga chapada e pernas torneadas. O homem que eu amei ligava pra dizer que eu estava gorda, que precisava emagrecer e que devia pensar na minha saúde.

O homem que eu amei adorava destacar a estética da sua ex-namorada, inclusive, ficou com ela inúmeras vezes enquanto estava comigo. O homem que eu amava afirmou que preferia quando eu era magra, quando pesava 45 kilos, pois parecia mais com uma boneca, agora, apesar do rosto angelical, eu já não pareço mais uma Barbie.

O homem que eu amei reclamava das roupas que eu usava, dizia que minhas pernas tinham celulite, apontava minhas estrias, reclamava das fotos de biquíni nas redes sociais. O homem que eu amava sugeria que eu me alimentasse melhor, que fosse a academia perder peso e dizia que como jornalista eu devia ser magra.

O Homem que eu amei tinha um corpo atlético, era historiador e usou o discurso de preocupado com o meu futuro para reafirmar a necessidade de estar sempre esbelta.

O homem que eu amei me colocou em frente a um espelho que tinha na casa dele. Pediu que eu me avaliasse e com sua mão apontou cada “imperfeição” do meu corpo. Apertou as gordurinhas laterais, a barriga, as pernas e comentou que tudo aquilo poderia ser melhorado, bastava força de vontade.

O homem que eu amei sabia da minha rotina de sair as cinco da manhã e só voltar as 19h, sabia que eu trabalhava o dia todo, que na maioria das vezes não conseguia seguir dietas e horários. O homem que eu amei me trazia chocolates, oferecia vinho e ainda assim insistia em me chamar de gorda e querer que eu seguisse os padrões de beleza cruéis impostos pela sociedade.

O homem que eu amei brigava com minhas amigas nas redes sociais quando as mesmas me marcavam em publicações de empoderamento. O homem que eu amava dizia que a culpa por a gente não ter dado certo era minha por não saber respeitar o tempo dele. O homem que eu amei chamava pra conversar durante o São João para fazer um acordo de que deveríamos curtir a festa e não nos apegarmos. O homem que eu amei ficava com as mulheres mais magras e me contava. Dizia que estava com o ego inflado por conseguir ficar com uma “novinha” de 18 anos. O homem que eu amei dizia que não se importava com o atual da ex-dele por que ele era gordo. O homem que eu amei se vangloriava pelas mulheres bonitas que havia pegado . O homem que eu amei não suportava o fato de na frente dele eu mostrar segurança mesmo com todo o seu histórico de gordofobia e machismo. O homem que eu amei me apontou como incompetente por causa de um desabafo que fiz nas redes sociais quando soube que um policial militar queria dopar e estuprar as filhas de sua amante com a permissão dela alegando ser uma prova de amor. O homem que eu amei disse que eu não devia julgar um “pedófilo inocente” e devia medir as palavras pois a mesma polícia que eu criticava eu procurava para obter informações para o jornal que eu produzo. O homem que eu amei me deixou cicatrizes e alguns traumas, mas me mostrou o quanto é importante lutar contra o machismo arraigado e ainda mais:o quanto eu não preciso de um homem que me menospreze e que não ama o meu corpo. O homem que eu amei, eu já não amo mais…

Gordofobia e transtorno bipolar: um relato de Erika Morais

Gordofobia e transtorno bipolar: um relato de Erika Morais

Gostaria de compartilhar minha história com vocês, mas vou tentar resumir. Tenho 32 anos, sou casada com uma pessoa exemplar, meu anjo da guarda, tenho uma família que me apoia, tudo perfeito, se não fosse por um detalhe: tenho transtorno bipolar.

Sei que o foco aqui é o nosso corpo, mas precisei colocar isso pra poderem entender lá na frente. Sempre fui uma menina gorda, sofria o que hoje chamam de bullyng, mas tinha lá minhas amiguinhas. Nunca havia beijado até os 16 anos e, quando dei o meu primeiro beijo e comecei a namorar, minha mãe disse: você não tem capacidade de arrumar coisa melhor mesmo, né? Quando fiz 18 anos, meu corpo começou a mudar e dos meus 80 fui para os 60 kg, mas me achava gorda, fiquei com aquela minha imagem antiga na cabeça, então não conseguia me soltar, me arrumar, essas coisas. Tive muitos relacionamentos frustrados, alguns percalços e, depois que minha avó morreu em 2006, entrei em depressão. Comecei a tomar antidepressivos e melhorei. O problema é que melhorei demais. Gastei R$ 10.000,00 no cartão de crédito em uma semana, cada dia saía com uma pessoa diferente pra ir pro motel, estava me sentindo uma super mulher.

Na doença que eu tenho, isso chama-se euforia ou mania. Só que como a doença é cíclica, entrei em depressão novamente. Só procurava os médicos quando estava pra baixo, obviamente. Foi então que me diagnosticaram não com depressão somente, e sim com transtorno bipolar. Desde 2007 faço tratamento pra esse transtorno mental que se tornou um transtorno físico. Graças aos remédios, comecei a engordar e cheguei nos 85 kg. Fiz a burrice de parar com a medicação quando achei que estava boa, entrei numa academia, fiz reeducação alimentar e cheguei nos 59 kg, até fui capa daquela revista Sou Mais Eu da Abril. Novamente deprimida, voltei com a medicação em 2009 e então não parei mais. Ocorreram muitas oscilações no meu peso, mas definitivamente essa foi a mais significante: hoje estou com 120 kg. Não consigo sair pra andar, correr, enfim, fazer nada porque a doença me limita demais. Sempre fui gorda, mas dessa vez meu peso aumentou demais por causa dos remédios e não tenho previsão de quando vou emagrecer novamente, pois isso depende da diminuição dos remédios (hoje tomo 10 comprimidos, 5 tipos de remédio) ou sua suspensão, o que não é possível pois é um tratamento para vida inteira. Vejo gordas lindas, que se amam e não as recrimino por se amarem porque realmente também as acho lindas. Mas não consigo me aceitar assim. Não me acho uma pessoa feia, mas acho que nem é a questão do peso, e sim a questão da minha auto estima ser muito, muito baixa. Como disse, nem magra eu estava satisfeita. Mas como doente mental sofro muito preconceito, daí junta com ser gorda, por isso já fui chamada de preguiçosa, de relaxada, até de suja, porque transpiro demais. Ninguém senta do meu lado no ônibus porque simplesmente não cabe. Meu marido, tadinho, faz um sacrifício e fica todo apertadinho do meu lado. Diz que eu sou linda, que me ama como eu sou, mas nós que temos que nos amar, não é mesmo? Eu já estou passando com muita dificuldade na catraca do ônibus e esses dias fiquei presa, as pessoas xingando atrás de mim porque queriam entrar e eu não conseguia voltar porque a catraca trava, só vai pra frente. Depois de me machucar toda, consegui passar. Desço dele com dificuldade e medo, pois já caí várias vezes e ninguém veio me ajudar, passam e ficam olhando com aquela cara de “quem manda ser gorda”.

Os meus psiquiatras disseram que no momento preciso escolher entre ficar boa da cabeça ou do corpo, mas sem a cabeça no lugar não somos nada, por isso optei por continuar com meu tratamento. Fico muito, muito mal sem os remédios, oscilando entre euforia e depressão, às vezes até no mesmo dia. Enfim, esse é um resumo da minha história. Não sou uma gorda infeliz e nem posso cogitar isso, já que tenho uma família que me ama, um marido bondoso e amável e poucos amigos, mas que me fazem feliz. Mas quanto ao meu corpo sou indiferente, não me odeio mas também não me amo. Eu sempre trabalhei de social, muito bem arrumada. Hoje não aguento colocar um salto, não acho roupas sociais ou roupas bonitas que sejam baratas e devido a minha doença não estou trabalhando, por isso também perdi o interesse em me arrumar. Quando saio, visto o que é mais largo e confortável, geralmente de tênis, mas até o tênis está apertando o meu pé. Sapatilhas não entram, mesmo comprando números maiores. É vou vivendo essa vida, estabilizada pelos remédios mas sem maiores felicidades.

Desculpe o desabafo. Obrigada por proporcionar isso.

Quando a gordofobia não fala

Quando a gordofobia não fala

De forma simples e direta, gordofobia é o preconceito contra a pessoa gorda. E é muito fácil identificá-lo quando se escuta frases do tipo: “sai daqui sua gorda nojenta!” ou “você não tem vergonha de estar desse tamanho” ou ainda “você tem um rosto tão bonito, se emagrecesse ficaria linda!”. Algumas falas são mais sutis outras mais explícitas, mas quando se escuta é possível saber que a gordofobia está ali presente.

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Entretanto, dependendo do seu convívio social ou dos lugares que frequenta, nem sempre você vai escutar essas frases assim tão claramente. Então quer dizer que esses lugares e pessoas estão livres da gordofobia? Não! Só quer dizer que nesses espaços a gordofobia não fala. Ela é silenciosa, velada. Mas ainda assim pode ser notada.

Ninguém comenta, ninguém fala nada para você escutar. Mas você sempre sente no ar que em algum momento isso vai acontecer, ou que as pessoas estão falando pelas suas costas (às vezes pode ser que ninguém comente mesmo, mas não é isso que a gente sente). É nesse momento que a gente enxerga e entende como a gordofobia é algo estrutural e cruel porque não precisa ninguém falar nada ou comentar nada, ela está nos olhares, nos gestos, e até mesmo só na nossa cabeça (como muitos nos acusam). E a culpa não é nossa.

Por isso, não adianta você falar que não tem problemas com o meu corpo ou fazer posts antigordofobia nas redes sociais se o seu olhar me diz o contrário. A gordofobia não precisa falar para machucar. Ela está aí nos matando todos os dias, como Marcella explicou aqui.

Nossa, mas agora tudo é gordofobia? Não! Mas o que for a gente vai falar, vai reclamar, vai lutar porque agora estamos juntas, temos umas às outras e temos voz!

Apresentando a Tia do Feltro e As Gordas

Apresentando a Tia do Feltro e As Gordas

Hoje a gente quer apresentar para vocês uma ideia bem bacana que chegou até a gente. Fernanda, a Tia do Feltro, lá de Campo Grande (MS) faz um trabalho bem lindo. ❤ Bora saber mais?
Aproveita e depois dá uma passadinha lá na página dela!
Fala, Fernanda! 😀

 

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ain que fofa! 😀
“Me chamo Fernanda, sou formada em Artes Visuais, parei de dar aulas para ficar com minha filha. Comecei a fazer artesanato sem saber costurar, aprendendo com uma amiga e acabei criando o Tia do Feltro!
 
Comecei com coisas geeks, desenhos animados, bonecos personalizados, feitos a partir de fotos das pessoas. Os Mini Humanos. Os criei para minha filha levar eu e meu marido, para quando fosse dormir na casa da minha mãe, sentindo menos saudades nossas.
 
Agora com 7 anos, minha filha brincando com suas bonecas, parou e perguntou o por quê de nenhuma ser gorda. Bom, eu sou gorda, e por quê não fazer uma boneca com tamanho e cor real?
 
Fui e fiz a primeira, amei, depois a segunda, e agora estou aceitando encomendas para fazer cada mãe, tia, avó ou cada criança que seja com peso, altura ou cor diferentes das que as empresas fazem.”
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Linda, né?! ❤
Disney, eu também quero ser princesa!

Disney, eu também quero ser princesa!

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Desde pequena, sempre fui apaixonada por filmes da Disney, especialmente os de princesa. Sempre os assisti até saber todas as falas e músicas decoradas, e até hoje, com meus quase 24 anos, são filmes que fazem parte da minha rotina, e tenho sempre um carinho por eles, seja por seus ensinamentos ou apenas pela memória afetiva mesmo.

A primeira princesa foi Branca de Neve, em 1937. O ideal do imaginário feminino, princesa delicada, doméstica, passiva. E, como o nome já dizia, branca. Esse ideário foi repetido em diversas princesas que vieram nos anos seguintes, como Bela Adormecida, Cinderela.

A partir da década de 90, a Disney acompanhando de certa forma os avanços sociais, começou a chamada “Era da representatividade”, onde começamos a ver mudanças na imagem das princesas. E foi aí que começamos a ver indígenas, orientais, árabes. Foi a vez de Pocahontas, Fa Mulan, Jasmine. Uns dez anos depois, veio o “passo mais largo” com a nossa primeira princesa negra, Tiana (d’A Princesa e o Sapo). Além da mudança de imagem, a personalidade dessas princesas também mudou. Elas viraram princesas cada vez mais fortes, que salvavam seus príncipes, que salvavam seu país, que desafiavam os costumes da época. Ponto pra Disney!

Nos últimos anos, vieram as princesas ditas ~feministas~. Merida (Valente) termina seu filme solteira, a lindeza do Frozen fala do amor de irmã ser mais importante que o amor de um homem. Mais uma vez, ponto pra Disney! Mostra que mesmo que a passos lentos, vemos mensagens cada vez mais importantes sendo passadas nos filmes que, admitamos, influenciaram tanto nossa infância e continuam influenciando a vidinha de muitas menininhas por aí – e espero que continue por muitos anos, porque se um dia tiver filhas, quero que elas vejam os filmes da minha infância.

Mas aí você olha pra mim, e fala “Ok Adelis, esse blog não era sobre Disney. Porque você tá dando uma aula de princesas?”. E eu te conto agora mesmo. Por que uma das coisas mais importantes que todas essas mudanças nas princesas trouxeram pra vida foi a representatividade. Foi a menina poder ver no cinema, nos produtos, uma princesa com seu tom de cabelo, com seu tom de pele, com seu nariz.

E o que essas princesas todas tem em comum? Sejam elas brancas, negras, orientais, loiras, morenas? São todas magras. Inclusive, a cada ano mais magras. Mesmo com todo o boom da representatividade, a menina gordinha não vai se enxergar no filme. Ser gorda e ser princesa não combinam, a Disney manda a mensagem. E assim, vai ensinando desde a mais tenra idade que o cuidado com o peso, o olho na balança é uma coisa real!

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O artista brasileiro Edull redesenhou as princesas gordinhas, super modernas!

A gordura é vista como coisa ruim, literalmente. Basta lembrar que os personagens gordos que lembramos são todos vilões. É a Ursula, da Pequena Sereia, a Rainha de Copas, de Alice. Dessa forma, vamo lá perpetuando a mensagem.

Há uns anos, a Disney passou por diversas críticas por, na linha oficial das “Princesas” (linha comercial), além do tradicional trocar de vestidos, todas passaram por um embranquecimento (claro, as que já não eram brancas), e um “embelezamento”: afinaram, passaram maquiagem até na Pocahontas, domaram os cachos do cabelo da Merida. Depois de muitas críticas, a Disney cancelou essa mudança.

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Redesenho criticado das princesas em 2012, em que elas emagreceram, embranqueceram e afinaram os narizes.

Enfim, por mais que eu nunca tenha me sentido visualmente representada, um dos meus exercícios infantis na brincadeira de “ser princesa” era procurar alguma característica que eu pudesse me identificar e me encaixar. Era assim que eu “era” a Bela, da Bela e a Fera, por ela ser uma leitora compulsiva e ser “a única princesa que ganha uma biblioteca de presente”. Era o meu jeitinho de burlar.

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“Minha amiga decidiu dar a todas uma princesa para sua festa temática da Disney, mas eu fiquei imaginando quem eu vou ser, porque eu sou a única gorda que não parece com nenhuma princesa”

Continuo acompanhando os lançamentos, e a próxima princesa será Moana, a primeira polinésia. Mais um avanço na representação! E pela sinopse da história, que sai esse ano, ela vai continuar na linha das princesas fortes, corajosas, decididas (como somos nós, mulheres!). Eu continuo acompanhando e continuo torcendo pra que, um dia, eu também possa ser (ainda mais) princesa. Disney, manda uma gordinha aí!