Superando medos (e pessoas imbecis)

Superando medos (e pessoas imbecis)

O medo é um mecanismo de defesa do corpo pela consciência do perigo, um temor e um receio de algo. E esse medo, a maioria das vezes, é provocado justamente por PESSOAS. Seja pelo medo da violência física, ou então pelo medo de coisas que parecem “menores”, mas que provocam um impacto psicológico imenso causado pela falta de empatia ou mesmo pela falta de noção da galera.

E muitas vezes ter autoestima é justamente confrontar medos diários, que nos assombram por onde andamos e com quem nós convivemos e que, por vezes, fazem com que nós nos sintamos pessoas diminuídas de valor pelo único motivo de ter características que destoam do que é entendido como “normal”. Esses dias tive que me colocar diante de uma dessas situações. Algo que me fez rememorar medos antigos e inseguranças pelas quais nunca mais havia passado. E isso aconteceu ao voltar a cursar uma disciplina com um professor de sociologia com o qual já havia tido aula e com o qual não tive exatamente uma boa experiência (apesar de só perceber a violência que sofria anos após o ocorrido).as gordas

Segue um diálogo que um amigo me contou quando cogitei fazer cirurgia e que me matou durante anos:

Professor: E Marcella, hein? Ela é obesa né, cara! Ela não pensa em fazer nada não?

Amigo: Sim, ela pensa em botar um balão.

Professor: Um balão? Como é isso, hein? Além de gorda vai voar? Rsss

Amigo: Não, um balão no estômago, que substitui a bariátrica

Professor: Tô brincando, cara, haha

Esta situação me remete às violências simbólicas, que não adquirem forma necessariamente física (bater ou xingar alguém), mas que se apoiam no reconhecimento de uma determinada imposição de lugar privilegiado por parte de quem a pratica: “Ei, você não vale isso que você acha que vale. Eu valho mais” é o que a mensagem subliminar da violência simbólica quer passar.

 E essa violência acontece com muita gente JUSTAMENTE em lugares que não deveriam acontecer: pessoas sofrem dentro de ambientes tanto informais, como na família, relacionamentos, etc; como nos “formais”, na universidade, por exemplo, que foi este caso acima. Ambientes que, em muitos momentos, se destinam justamente a tentar diminuir os abismos sociais no intuito de entender as diferenças e entender as pessoas enquanto PESSOAS, na realidade só reforçam uma série de relações que estão por trás dessa lógica do poder. E também está dentro dessa lógica do poder a relação do professor/aluno, que era o que sentia constantemente dentro de sala de aula, inclusive sendo colocada em comparação com outras alunas. Estas violências reverberam em outras instâncias. Elas não falam apenas do corpo, elas falam de tudo e implicam numa série de consequências cotidianas e políticas.

A violência tem cor, gênero, classe e também adquire FORMA. O gordo tende, em diversas situações, a sentir-se menos capaz unicamente por ser gordo. O preconceito e a violência pode não assumir a forma de palavras, como aconteceu dessa vez, mas assume forma de olhares, risos, situações, dentre outros modos de diminuir alguém. E lidar com essa violência é lidar com o medo, lidar com o medo da gordofobia, algo que exclui e entende alguém como não pertencente a determinado ambiente pelo tamanho das roupas.gorda

Ser gorda, ser negra, ser uma pessoa com deficiência, ser pobre, ou ser alguém que foge das normas sociais é ser alguém que fica diariamente superando medos que dizem o tempo todo que não se deve ser quem se é, que não se deve estar ali, que você DEVE mudar. E não é preciso mudar para superar esses medos. Na realidade os OUTROS é que precisam mudar. E superar os medos tem a ver com enfrentar e tentar mudar essas situações. Quando o professor falou: “Ela não vai fazer nada?”,em relação a ser gorda, hoje em dia eu digo que tentarei sim mudar algumas coisas, mas no intuito de exigir respeito das pessoas, a começar por este senhor, que se aproveita de seu status social para constranger os aluno(a)s. Não deixem que estas coisas aconteçam. Resistam e superem seus medos.

Emagrecer não resolve seus problemas

Emagrecer não resolve seus problemas

Esse texto não nasceu com o intuito de desencorajar ninguém a emagrecer. Ele é mais um relato de experiência, algo que venho passando desde que perdi peso e é um texto que eu desenhei há alguns meses na cabeça, mas só escrevi agora encorajada pela publicação de Marco Magoga (LEIA AQUI), que, quando li, me senti muito contemplada. Então iniciarei contando um pouco do meu processo.

Desde que me vejo e entendo por gente fui gorda e, como acontece com a maioria das pessoas gordas pressionadas socialmente, passei a vida em tentativas (falhas) de fazer dietas. Sempre perdia 10kg, mas engordava o dobro. Nunca foi por falta de “força de vontade”, como muitos dizem. Outros motivos e vivências sempre me levaram a permanecer gorda. Em 2011, com 130kg e usando tamanho 56, iniciei uma nova tentativa de emagrecer, de modo turbulento, em meio a uma tentativa forçada dos meus pais em me enviar para um spa: sempre havia discussões com meu pai e minha mãe em que eles diziam como eu deveria emagrecer com aquele velho discurso: “É pela sua saúde”. É verdade. Talvez fosse pela minha saúde mental, porque é de adoecer qualquer cidadão a quantidade de críticas e opiniões (recheadas de gordofobia) que a pessoa gorda acaba recebendo apenas pelo simples fato de existir.

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Depois de um ano de dieta emagreci 55kg e alcancei um padrão socialmente aceito. Atualmente sou lida como alguém “magra”, não tenho meu corpo patologizado e nem medicalizado. Como relatei uma vez aqui nesse link, hoje em dia tenho um corpo “desejável” e eu entendo esse desejo como algo atrelado à ideia de um corpo mais perto da norma que foi estabelecida para os corpos, menos invisível socialmente, mais pessoas me elogiam, mais homens me paqueram… Enfim, NOSSA! Que ótimo, não? Imaginar que aquilo tudo que você viveu com seu “eu gordo” some, você é agora uma nova pessoa… Lamento informar que não é assim que funciona.

Minha vida é feita de vivências, discursos, sensações, rastros, que foram construídos ao longo de toda uma vida. E as experiências passadas comportam quem eu sou hoje. Muitas pessoas sempre me questionam motivos pra minha insegurança, tentam compreender minha baixa autoestima, afinal eu não sou mais gorda, não é? Além de ser um problema pensar que apenas pessoas gordas tem problemas com autoestima, é tão problemático pensar também que as memórias se apagam na hora em que se emagrece.

O que sinto que aconteceu é que tiraram de mim uma “capa protetora”, um lugar de conforto, em que eu podia expressar minha insegurança, meus problemas, pois afinal de contas, eu era gorda. E ser gorda é um problema pra sociedade, logo, se torna compreensível que em uma sociedade gordofóbica pessoas gordas tenham problemas (quando, na realidade, são as outras pessoas quem causam, na maioria das vezes, esses problemas).

Depois de muitos tapas na cara, entendi porque sempre engordava novamente. Não me ensinaram a como ser magra, assim como não ensinam ninguém a isso. Ninguém está preocupado com a “ressocialização” das pessoas que foram gordas. Ou você É magra ou você não É. As pessoas não entendem a transitoriedade como um lugar de falar.  Ninguém É em absoluto algo. Estamos o tempo todo falando e dizendo que nós SOMOS isso ou aquilo. O verbo SER é diferente do ESTAR. Nesse caso, nós não somos, nós apenas estamos, assim como nós estamos no mundo apenas de passagem.

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E ser lida como magra não me faz me enxergar como uma 24h do dia. Então vivo essa incoerência entre como as pessoas enxergam meu corpo e como eu penso sobre mim. Ainda querem me forçar a me ver como as outras pessoas me enxergam “Você não deveria mais pensar assim, você é outra pessoa”. Mas eu não sou outra pessoa. Eu sou a mesma Marcella e compartilho as mesmas experiências que essa Marcella antiga que tanto falam.

Esses dias fui a um bar e peguei uma cadeira e, na hora em que sentei, ouvi um estalo e logo me imaginei quebrando-a. Às vezes me esqueço que hoje em dia não tenho problemas com acessibilidade ou com médicos ou com roupas, e que me adaptei fisicamente ao mundo que nos força a ser pessoas magras. Diversas vezes a insegurança ainda me faz acreditar precisar fazer mais esforço que o necessário para alcançar determinados objetivos em que meu corpo é exposto, como é no caso de uma paquera, por exemplo, que é algo muito mais fácil para quem é magro. E acreditem, meus problemas não cessaram quando eu emagreci, inclusive me perdi em diversos momentos, tentando entender quem eu era agora, quando descobri que sou o que fui e que me construo diariamente. Emagrecer não resolve seus problemas, pode, inclusive, potencializá-los, gerando transtornos psicológicos porque você pode não conseguir sustentar o corpo magro que tanto foi exigido de você: “Manter-se magro pode ser uma pressão tão aterrorizante quanto tornar-se magro quando a magreza é colocada como único meio possível de vida.” (Marco Magoga)

Minha proposta aqui não é desestimular alguém que queira emagrecer. Mas é de alertar que é preciso se entender e entender os motivos pelos quais quer perder peso, para poder entrar em um processo que não ocorra de forma traumática. Não entre nessa de que você LUTA contra o peso ou contra seu atual corpo, afinal de contas, ele não é seu inimigo,
ele é seu aliado, seu templo e seu lugar.
Você é o seu corpo. Soa clichê, mas é importante aprender a se amar da forma que se é, porque os problemas atuais não serão perdidos iguais aos quilos. Eles podem, inclusive se potencializar ou surgir outros problemas, caso você não pare de lutar contra si mesma.

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Ser gorda ou emagrecer? Uma questão que vai além das vontades individuais

Ser gorda ou emagrecer? Uma questão que vai além das vontades individuais

Vez por outra eu me pego olhando no espelho e pensando: “queria perder só mais uns 10 quilos…” e, ao mesmo tempo, tento afastar esse pensamento da minha cabeça, porque como é que eu, feminista que luta contra gordofobia, quer emagrecer e não consegue se aceitar da maneira que é? Ou mais: por que eu, depois de tantos anos sendo gorda, resolvi emagrecer, fazer plástica, me aproximar de um padrão de beleza e agora acho que é fácil chegar e falar sobre gordofobia e lutar para que as mulheres gordas se aceitem? É mais fácil falar quando não se tem esse peso (social) em si… E por isso estão em mim muitas dúvidas que envolvem uma série de questões éticas acerca de qual meu lugar de fala.

 Não quero entrar no mérito da filosofia que discute o que é ética (e acho que nem saberia discutir), mas recorri ao Google pra pegar uma definição pra poder guiar o texto:

ética

A questão da ética é muito ligada à ideia de que existem princípios universais que orientam o comportamento humano e geram uma série de normas sociais. Já é lugar comum afirmar que existe um “padrão de beleza”, que existe uma norma que está ligada à ideia de VALOR HUMANO. E quanto mais a gente se afasta dessa norma, menos valor humano a gente tem nesse caso. Vamos todos pensar agora em uma pessoa aleatória, que você não conhece… Qual o corpo que ela tem? Acredito que boa parte das pessoas que estão lendo esse texto o imaginaram magro.

Então: ser magra é a norma, é o que é disseminado como sendo comum, usual, apesar de que na vida “real”, não encontramos muitas pessoas que estejam dentro dessa norma, então as pessoas vão “perdendo pontos” conosco porque: “ah, ela não tem bunda”, “ela é muito baixinha”, e mais uma série de questões que a gente vai levantando e diminuindo o valor daquela pessoa porque ela não está  naquele ideal que a gente imaginou. E isso é uma questão de padrão de beleza.

A gordofobia vai mais além….Ela foge da norma completamente, ela é o oposto da norma. Pessoas gordas perdem, em inúmeras situações, o seu valor de humanidade. Prova disso é o caso da mulher que não pôde assumir o cargo de professora após passar em concurso público apenas por estar gorda (ela é incapaz por ser gorda?), ou até mesmo em lojas de roupas, que os fashionistas (ou sei lá quem é responsável por fazer as roupas), não fazem numeração acima de 46 e, quando fazem, são roupas que mais parecem sacos.

Então eu volto a questão da ética aqui: QUEM NO MUNDO gostaria de estar fora das normas colocadas na ética? Quem é que gosta de ter seu valor humano diminuído? Seria muito bom, muito simples e muito menos complicado se nós não tivéssemos determinado tantas “questões éticas-corporais” para tratar com pessoas. Será que realmente existe uma “essência” da norma?  E quem não está contemplado por essa essência, fica onde?

 Acho que é nesse aspecto que entra a questão da gordofobia e da vontade de emagrecer e de que a vontade de emagrecer não é apenas individual. Nós nos guiamos, involuntariamente, por um modo de vida que é visto como melhor. E ele acaba se tornando melhor porque acreditamos nisso, porque todo mundo quer nos fazer pensar isso. Então ser magra é melhor, infelizmente. Não é o ideal, porque nunca, JAMAIS alcançaremos o ideal (então pode tirar o cavalinho da chuva achando que sua vida vai se tornar perfeita ao emagrecer), mas não acho que devemos julgar as pessoas que querem emagrecer e que sentem essa necessidade. Ninguém sabe quais as subjetividades daquela pessoa ou quais as necessidades que o mundo foi criando nela.corpo

 Mas também é nosso dever parar de julgar quem é gordo ou diminuir seu valor diante de quem emagreceu ou quem é magro. Se o mundo não tivesse tantas normas que devêssemos seguir para atender ao “bom costume” do que a ética tradicional manda, talvez não precisássemos sentir a necessidade de emagrecer, não é? É por esse caminho que a luta anti gordofobia quer ir: entender que não é uma questão pessoal se sentir mal por ser gorda, mas que isso envolve algo SOCIAL, construído pelos outros e reproduzido por todos nós. Será mais fácil no dia em que ser magra não será ser melhor. E que não existirá um “melhor” ou “pior” guiando nossos corpos e nossas vontades.

A mulher gorda e as mortes cotidianas

A mulher gorda e as mortes cotidianas

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Há uns meses peguei o livro “As Esganadas”, de Jô Soares para ler (lembrando: isso não é uma propaganda do livro, até porque me incomodou o estereótipo da gorda gulosa que ele propõe e mais uma série de coisas), logo no início havia essa frase (que está aí em cima) de Shelley Bovey, escritora do Reino Unido, que me fez relembrar situações que vivi da infância à juventude, coisas que hoje em dia não passo mais, já que não morro diariamente por isto, mas elas são revividas constantemente como se me lembrassem que estou um pouco morta por pessoas e circunstâncias.

Enquanto mulher gorda, nós tentamos traçar nossa rotina normalmente, ir ao trabalho, caminhar, comer,  ir às festas com os amigos… Mas os sinais nos lembram o tempo todo que:

“Ei, você não é normal!”

“Este aqui não é seu lugar”

“Acho que você deveria emagrecer”

Vivemos em uma sociedade feita para e por pessoas magras, brancas, sem deficiência, cisgêneras e isso implica em que outros tipos de pessoas (e convenhamos, somos muitos) sejam excluídas do modelo de vida que foi construído por esse público dominante. É como se nos dissessem o tempo todo que precisamos nos adequar para caber exatamente naquele encaixe, ou caber, no caso da mulher gorda, naquela cadeira de plástico, sem medo de cair no chão, ou para um deficiente físico, que a cadeira dele deve caber naquele lugar específico no cinema, dedicado exclusivamente a ele, quando,  por sorte, existe  acessibilidade. “Fique na sua casa, não saia daí, o mundo não foi feito para você”, a gente ouve silenciosamente o tempo todo quando passamos por algumas situações como:

Pegar ônibus

Sentar ao lado de alguém (quando a pessoa não sai quando você senta), passar na catraca do ônibus e desejar não ficar entalada.

Andar/ correr na rua

O ato de sair de casa parece que incomoda os outros, não é? Só isso explica os comentários gordofóbicos “vê se emagrece” “olha o tamanho daquela menina” “Corre gordinha”, quando se ousa andar na rua. E só entregam aquele panfletinho da Herbalife para quem é gordo, afinal de contas, pressupõe-se que se estamos gordos, logo estamos tentando emagrecer o tempo todo.

Ir pra festas/encontros

Escolher uma roupa para sair já é um problema, isto quando há roupas para escolher, já que o mercado aparentemente só fabrica sacos de batata para quem é gorda, além de que toda pessoa gorda precisa ser rica, por que as ditas roupas plus sizes custam o dobro do preço de roupas lidas como normais. Sair de casa com o(a)s amigo(a)s magro(a)s, tentar paquerar em uma balada, mas você nunca faz o tipo de ninguém ali. Escolher algo pra comer ou petiscar e ouvir comentários de que aquilo vai lhe engordar “cuidaaaaaado! Você não acha que isso é muito não?” “Assim você não emagrece nunca”.

E não, gente, emagrecer NÃO soluciona problemas. O problema são as outras pessoas que criam.

É por isso que as pessoas gordas preferem ficar em casa. É mais confortável ver o mundo passando e sentir-se mais viva que tolerar as pequenas mortes diárias. Mas somos um movimento contra gordofobia, não é? É preciso deixar claro que nos matam diariamente para que tomem consciência do que acontece, mas, como movimento social, sei que é preciso resistir, é preciso sair de casa, viver e lembrar que sim, este mundo é feito para nós e precisamos criar nossos espaços e nos infiltrar em outros para que, um dia, as diferenças entre os seres humanos nos coloquem enquanto HUMANOS e não como anomalias sociais, porque a igualdade de acesso, de respeito e de amor é feita através dessas diferenças. Porque todas as pessoas tem o primeiro e mais necessário direito humano: o direito à vida. Então nos deixem viver, não queremos (e nem permitiremos) sermos mortas diariamente.

Desenho por: Negahamburguer http://www.negahamburguer.com/
Desenho por: Negahamburguer  http://www.negahamburguer.com/
“Diga-me com quem andas, que direis quem és”: Pode se relacionar com pessoa gorda?

“Diga-me com quem andas, que direis quem és”: Pode se relacionar com pessoa gorda?

Estava, esses dias, conversando com minha cunhada, esposa do meu irmão mais velho, que é gordo. E ela me perguntou se eu não poderia escrever um texto sobre a pressão que ela sofre (o correto seria ela escrever ou até mesmo meu irmão). Me perguntei automaticamente qual pressão ela sofreria por conta de Thiago, meu irmão, e ela me respondeu logo em seguida um motivo que eu achei bem válido:

– É muito chato ter que ficar ouvindo questionamentos dos meus parentes que ficam me perguntando o motivo de eu ter casado logo com Thiago, que é gordo.

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        Estes são minha cunhada e meu irmão. 🙂

Fui pensar em outros relacionamentos e em outras coisas que se ouve durante a vida e que a pessoa gorda escuta passivamente, já que ela aparece, para quem faz esse tipo de comentário, sempre como um “acessório” de alguém magro. Isso me fez perceber como não só alguém não pode ser gordo, mas também ninguém pode se relacionar com uma pessoa gorda, porque isso a torna uma pessoa diferente:

“Porque você não dá um jeito nele?”

“Você bem que poderia aconselhar ele a fazer uma dieta”

“Você merecia coisa melhor”

Estes são alguns dos comentários que as pessoas magras que namoram, são família, são amigos, de pessoas gordas escutam durante a vida. A partir disso podemos perceber como as pessoas, de modo geral, sofrem com os respingos da gordofobia que cai sobre o(a) gordo(a). Estes respingos não são necessariamente e diretamente ligada ao corpo ou padrão de quem passa por isso, ou seja, namorada(o), irmã(o)s, pais, amigo(a)s. A sociedade anda tão preocupada com quem nós andamos e com quem nos relacionamentos, desnecessariamente, diga-se de passagem, que reverbera aquele velho ditado e os velhos preconceitos de que você é igual a quem você anda. Isso vale não só pra gordofobia, mas também pra comentários homofóbicos, lesbofóbicos, racistas, classistas, capacitistas, como a gente sempre procura ressaltar nos nossos textos.

Logo, se você se relaciona com alguém gordo ou: 1. Você merece alguém melhor, 2. Vai ficar igual a ele. Este, certamente, não é o maior problema da gordofobia, mas é importante. Eu sei que existe muita gente que acompanha o blog que não é gorda. E isso é importante também, pois precisamos deixar claro situações de preconceito que são “invisíveis”, visto que é tão naturalizado que só a pessoa gorda sente. Provavelmente, em algum momento, todos nós já ouvimos comentários como os que listei acima ou até pra quem é mãe ou pai, que ouve coisas do tipo: “Você não cuida da saúde da sua filha não?”.

Tais comentários, regulando, julgando ou se preocupado demais com a vida e os relacionamentos alheios (por motivos inúteis) faz com que quem se relaciona com pessoas gordas se sinta sim incomodada, pressionada e, obviamente, também faz muito mal à pessoa gorda, que se sente um objeto sendo carregado, sem vontades e escolhas próprias. Isto, inclusive, leva a algumas pessoas gordas a se tornarem mais solitárias por medo de julgamento, por não se acharem merecedoras da amizade ou amor alheio pelo modo como terceiros falam.

Pessoas gordas passam a vida toda ouvindo (mesmo que de forma subliminar) que devem ser ótimas, mais engraçadas, melhores de cama para compensar essa característica de ser gordo que os outros consideram como algo negativo por conta da gordofobia. As pessoas, muitas vezes, tendem a dizer que “devemos olhar além do fato de alguém ser gordo”. Mas não é assim. Devemos olhar as pessoas e suas características, seja ela qual for, ninguém é aquilo que está além. Nós somos isso. Corpo, carne, pensamentos, sorrisos, roupas. Então conviva, aprenda, ame quem você quiser da maneira que ela é, levando em consideração suas diferenças, porque são elas que nos constituem como seres humanos diferentes e únicos.

E pessoas magras: namorar alguém gordo(a) não lhe faz nem melhor (não se ache um ser especial que  vê mais ou melhor que os outros) e nem pior. Faz  de você apenas uma pessoa normal :).

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“Corre, gordinha!” – Sobre exercitar-se sendo gorda e superar julgamentos

“Corre, gordinha!” – Sobre exercitar-se sendo gorda e superar julgamentos

Pra quem acompanha o blog e me conhece, sabe que fui gorda a vida inteira e acabei emagrecendo há pouco tempo, o que não me livrou de comentários gordofóbicos de alguns colegas que patrulham minha saúde com comentários do tipo “Cuidado pra ver se não engorda tudo de novo, né??”, como se ganhar peso fosse sinônimo de algo ruim ou falta de cuidado com a saúde. Mas eu acho que não é novidade que ser gorda não está diretamente relacionado à falta de uma alimentação adequada ou com falta de exercícios.

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Não era por que eu era gorda que eu não praticava exercícios físicos. Eu fiz karatê durante seis anos da minha vida e era gorda quando praticava. Isso nunca me impediu de fazer nada ou de deixar de realizar movimento nenhum. (E aí vai uma foto bem queimação porque, né, não basta dizer, tem que mostrar, hehe)

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Aliás, devido ao karatê minha aptidão física sempre foi muito boa. Praticar karatê não bastava pra eu ouvir comentários diariamente como: “Precisa se exercitar mais” ou ouvir do médico: “Precisa dar uma caminhadinha”, mesmo tendo meus exames na mais perfeita ordem. Exercício físico sempre foi uma paixão pra mim, desde quando pratiquei karatê. E lá no dojo (local onde ocorriam as aulas) eu não sofria preconceitos, mas fui, aos poucos, deixando de lado essa paixão, porque começou a se tornar uma obrigação, já que eu deveria, para os outros, sempre buscar resultados de emagrecimento fazendo exercícios.

Só depois de uns quatro anos é que retornei a me exercitar. Caminhava e depois comecei, aos poucos, a correr. Sentia vergonha de ir a uma academia com meus 130kg e isso é tão comum entre mulheres de modo geral… Pessoas gordas que sofrem gordofobia tendem a não frequentar determinados ambientes cansadas de ouvir comentários ou aguentar olhares de julgamento alheio.

Por isso sempre tive uma batalha contra a exposição do meu corpo. Nunca me esqueço quando comecei a correr e, logo no primeiro dia que me arrisquei, ouvi: “CORRE, GORDINHA!”, de um grupo de homens que passou por mim. E eu continuei correndo sim e como corro até hoje e continuo sendo, por vezes, assediada (muitas vezes dá vontade de dar uma rasteira em quem é invasivo demais).

As pessoas invadem demais o corpo alheio. E o exercício acaba se tornando chato, coisa que não deveria ser. Exercício é amor e prazer, é serotonina, é divertir-se, movimentar-se. Mas essa política de regulação corporal faz tudo parece uma grande merda, um grande martírio. Hoje frequento uma academia e descobri nela aulas de ginástica que, por vezes, eu faço e gosto muito. Acredito que o ambiente da sala de ginástica julga menos que uma sala de musculação e isso deixa, de fato, as pessoas mais à vontade.

Mas, mesmo sendo um ambiente mais receptivo, isso não me poupa de comparações. Tenho uma colega gorda em uma das aulas e algumas pessoas sabem que perdi peso durante a vida. Já ouvi comentários do tipo: “Tá vendo? Marcella conseguiu, você só precisa ter força de vontade”, sem sequer a pessoa gorda ter sido perguntada se ela quer ou não emagrecer. E se ela não quiser, e se quiser só se divertir, ter descargas de hormônios de prazer no corpo?? E afinal, o que é “força de vontade”? E se, simplesmente, eu não quiser ter força de vontade?

Hoje em dia o que mais a gente vê e acompanha são “blogueiras fitness” que passam dietas, exercícios e tantas outras coisas mais no intuito de manter-se magra O que já é errado, porque só quem pode receitar algo são nutricionistas, médicos e educadores físicos. Qualquer coisa vale a pena. A coisa tá ficando tão crítica que até uma dessas blogueiras incitou o vazamento de imagens da colega caso a outra não cumprisse a dieta semanal. O quão doentio é essa política de manter-se saudável??

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A política de manter-se saudável que eu apoio é poder apenas sentir-se bem e frequentar o ambiente que quiser, usar a roupa que quiser, dançar zumba, praticar musculação, correr…ou então ficar em casa e sentar assistindo séries e comendo uma pipoquinha. Porque devemos fazer o que queremos. E, depois que vi esse vídeo curtinho é que percebi mais ainda que nós podemos tudo:

“This Girl Can” é uma campanha que celebra as mulheres que não se importam como elas aparentam ou o quão suadas elas ficam. Elas estão aqui para nos inspirar a mexer, balançar, se mover e provar que o julgamento é uma barreira que pode ser superada”

“Eu balanço, logo existo”

“Suando quem nem uma porca”

“Se sentindo como uma raposa”

“Eu chuto bolas”

“Isso mesmo, eu me sinto ‘quente’”

Gorda sofre #primeiroassedio? Machismo, gordofobia e suas relações

Gorda sofre #primeiroassedio? Machismo, gordofobia e suas relações

      Criamos essa página há alguns meses no intuito de ter um espaço confortável e aconchegante para mulheres gordas (e para pessoas que se identificam com o tema), nossa intenção era propiciar um ambiente saudável de discussão sobre por quê as pessoas têm um problema tão grande com gente gordas, principalmente mulheres. Uma vez que nós que escrevemos para a página semanalmente nos identificamos como mulheres.

           Final de outubro para cá, começamos a observar um aumento de curtidas de homens na página, muitos. Até aí tudo ok, tranquilo, queremos que esse seja um espaço que todos tenham acesso e possam conversar conosco. O problema é quando esses homens usam nosso espaço de forma invasiva ou inapropriada. Mensagens enviadas por homens querendo encontros ou “dar só uns beijinhos” começaram a surgir. Ontem mesmo um rapaz deu o número do whatsapp. Infelizmente apagamos, mas podemos compartilhar algumas mensagens que ficaram inbox:

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Estamos até internacional:
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As mulheres sofrem diariamente com assédio na rua. Atualmente, inclusive, o tema se tornou um dos mais comentados nas redes sociais. Hashtags como #primeiroassedio começaram a surgir no twitter e Facebook e muitas mulheres começaram a compartilhar as violências simbólicas (e físicas, psicológicas, etc) que sofreram durante a vida, no intuito de falar mesmo sobre esse machismo e a apropriação do corpo feminino, como se ele fosse algo “público”. E sim, isso acontece muito. E as mulheres devem, o tempo todo, estar em processo de resistência, falar sobre isso, para que essas coisas deixem de ser cotidianas. Mas, e as mulheres gordas?

            Vamos ser bem sinceros, né? A gente ouve muitas pessoas magras falarem sobre assédio e eu diria que 70% destes depoimentos são de mulheres magras (vou logo avisando que sou péssima em estatísticas). E a gente tende a generalizar essas opressões. As mulheres gordas também sofrem com o assédio sim. Mas, diferente das mulheres magras, as mulheres gordas sofrem um assédio que tem um olhar “fetichizado”, isto é, as pessoas olham as mulheres gordas como seres “sobrenaturais”, algo fora do comum e notícias sobre “conheça o fetiche de fulano por pessoas gordas”, etc, são bem comuns. A gente nunca vê “conheça o fetiche de fulano por pessoas magras” por aí, ou notícias como “fulano fez um ensaio sensual com pessoas magras”, mas engraçado como o GORDA é sempre enfatizado como algo surreal ou, como aprendi na faculdade de jornalismo, o comum e trivial nunca aparece como notícia quente, né?  Mas a mulher gorda aparece, infelizmente:

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Enfim, o que acontece é que: Sim, mulheres gordas sofrem assédio e esse assédio é uma ferramenta própria do machismo, tanto quanto a gordofobia. E qual a relação de ambos? Acho que já deu pra perceber que as mulheres gordas muitas vezes também são coisificadas, objetificadas, por não se encaixarem dentro do padrão de gênero feminino que está cristalizado socialmente e que a gente, querendo ou não, reproduz.  Já é difícil, como mulher, se enquadrar nos padrão de feminilidade normativo imposto pela sociedade, imagina para uma mulher gorda! Ela não pode ser tão mulher quanto as outras. Ela é uma “mulher diferente” e sempre vai ser vista como esse olhar “diferenciado”  e ela não vai ser tão mulher como as outras. E o nome disso, meus caros, é machismo também. E, claro, quem ama ou curte mulheres gordas também entram no patamar do exótico, porque parece que a gente não pode amar as pessoas como PESSOAS. A mulher gorda é posta em um contexto engraçado, estranho, exótico, fora do normal.

E o pior, tem gente que acha que merece um pirulito por amar mulheres gordas, olhem só esse rapaz que é do meu círculo social e insiste em falar comigo:

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O corpo é onde se que constrói quem nós somos, nosso gênero, o que sentimos e como seremos. E os homens acham que as mulheres gordas devem agradecer por elas terem sido cantadas na rua, ou acham que amar uma mulher gorda deve ser feito escondido, ou procuram mulheres especificamente gordas para encontros, relações. Precisamos reaprender a amar e parar de achar que “tudo é uma questão de gosto”. E precisamos também pensar e repensar o porquê gostamos mais de uma coisa ou de outra.

Algo que me incomodava muito quando eu estava gorda era também não saber quando um cara realmente gostava de você, quando lhe cantava  porque estava interessado ou quando  eu era apenas fruto do riso alheio, como acontece quando a gente acha que as pessoas curtem a página por um motivo e na verdade fazem que nem esse rapazinho que curtiu e compartilhou a página:

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E além de não saber qual a real intenção de quando alguém nos paquera ou assedia, temos também que nos sentir LISONJEADAS pelo assédio. Que maravilha, hein? Além de nunca ser vista como pessoa, quando somos, acabam nos exotificando e nos colocando dentro de um fetiche que, muitas vezes, não nos sentimos nem um pouco confortáveis. E mais! Devemos levantar as mãos para o céu e agradecer porque apareceu um homem para nós! Lembrem: nossa vida não gira em torno de homens nem para homens. Precisamos, primeiro, aprender a nos amar.

Mulheres gordas não precisam de piedade e não precisam do amor dos homens. As pessoas precisam deixar de colocar nas nossas cabeças, como, por exemplo: que a gente devia agradecer “que fulano gosta de você. Porque é difícil achar alguém que goste de você do jeito que você tá, né?”, como eu já ouvi em casa e já ouvi uma amiga falando. Devemos é aprender a nos amar mais e entender que não somos obrigadas a aceitar as cantadas dos homens na rua, como se eles estivessem fazendo um favor em nos achar bonitas. Cantada não é elogio, é assédio e nós não devemos baixar a cabeça pra isso. Parem com o assédio, evitem outros #primeirosassédios  na rua, em casa, na internet ou onde quer que sejam. E homens, parem de curtir nossa página no intuito de procurarem relacionamento ou deixar whatsapp, tá ficando chato.