Ser gorda dá trabalho??? E quando a gordofobia é empregada?

Ser gorda dá trabalho??? E quando a gordofobia é empregada?

trabalho

Desde 1995 que é  proibido por lei a exigência de “boa aparência”, entre outros pré requisitos considerados descriminatórios, para a candidatura à uma vaga de emprego. No entanto, embora abolida oficialmente, padrões estéticos costumam interferir nas seleções. Basta uma rápida busca no Google que encontraremos facilmente várias matérias onde profissionais de RH apontam a aparência como fator determinante para a contratação ou não de uma pessoa.

Infelizmente, a prática não se restringe ao setor privado. Vários candidatos aprovados em concurso público já tiveram sua posse negada após passarem por uma perícia médica que os considerou inaptos a exercer a função.  Como foi o caso de uma professora de Sociologia, de uma bióloga, e de uma diarista. Todas recorreram ao judiciário na tentativa de garantir as vagas para as quais se classificaram.

Como já tratamos em outros posts aqui no blog, há todo um discurso utilizado em nossa sociedade que associa pessoas gordas à falta de hábitos saudáveis, à patologização, à preguiça e consequentemente à baixa produtividade, enfim, pessoas gordas estão em desconformidade com os padrões estéticos.

E os problemas não param por aí. Após a admissão não são raras as situações onde pessoas (principalmente mulheres) são submetidas a situações constrangedoras que vão desde “brincadeirinhas inocentes” até humilhações explícitas. E basta uma reação para que se invoque o argumento de que aquele ato foi bem intencionado, que o autor estava preocupado apenas com nossa saúde. O que já estabelece um contraponto com o discurso propagado de forma ampla no meio corporativo, de que o pessoal não deve interferir no ambiente de trabalho.

O que é mais pessoal do que o corpo?

Profissionais devem ser avaliados a partir de sua formação, das vivências, experiências que podem de alguma forma contribuir para o desempenho das funções as quais se candidatam. E não pelo gênero, orientação sexual, existência de filhos ou intenção de tê-los, e muito menos pela aparência.

Porque as mulheres devem falar de gordofobia?

Porque as mulheres devem falar de gordofobia?

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Fonte: http://gordivah.blogspot.com.br/2015/10/cartazes-contra-gordofobia.html

Lembro que meses atrás postei no face 3 ou 4 frases, sobre sonhar com um mundo onde gordofobia não existiria e que uma gorda se amar não seria visto como uma afronta. Acho que não passou uma hora para uma conhecida responder que ela também sofria preconceito por ser “magrinha”, e que não adianta reclamar porque seja você gorda ou magra, sempre haverá quem critique nossa aparência.

Como eu ía explicar para ela que não era bem assim? Como eu poderia explicar o constrangimento de entrar em uma loja e ouvir da vendedora que nada do que era vendido lá provavelmente serviria em você? Como eu poderia explicar os olhares curiosos que são direcionados a você e seu prato em um restaurante self service? Como eu iria explicar que  ninguém deixa de ser contratado por ser magro, afinal, ser magro não é sinônimo de doença? Que eu nunca vi alguém associar magreza a desleixo e falta de amor próprio.

Eu não consegui explicar, na verdade nem respondi mais e me calei.

Relativizar um preconceito sofrido facilita a criação de uma invisibilidade e acaba gerando uma nova opressão. É o que chamamos de falsa simetria. Ou seja, quando você compara situações que aparentemente são parecidas, mas não avalia o contexto e os sujeitos nela envolvidos, e assim deixa de ver que as consequências delas são bastante distintos.

É inegável que a gordofobia atinge mais mulheres do que os homens, e para comprovar isso basta olhar as as pesquisas sobre transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia, a grande maioria dos pacientes diagnosticados são mulheres.

De quem é cobrada as unhas feitas, o cabelos macio (de preferência liso e com nuances douradas), as roupas e acessórios que estão em moda na estação? Vamos comparar quantas fotos de mulheres e de homens “abdômen trincado” ou ainda a tal “barriga negativa” são divulgadas na internet com o tom de elogio? Quantas fotos encontramos nos portais de notícias onde as marcas de celulite um homem são tratadas como um defeito?

Não vou comparar a gordofobia ao racismo, lesbofobia, transfobia…. São opressões distintas, que alcançam mulheres de modos diferentes com várias repercussões e que tem que ser cada vez mais e mais debatidas.  

Crescemos ouvindo um discurso onde mulher tem que se cuidar, tem que estar bonita, ser meiga, educada, delicada e desejável. Somos objetificadas, e nos encarar como obras de arte lapidadas durante toda a vida para brindar a contemplação alheia com um espetáculo. Ser gorda, bate de frente com essa idealização. E afrontar o status quo sempre vai ter um preço. Ser mulher gorda é isso, é afrontar quem você nunca viu com a sua existência. E aí de você se não mostrar o mínimo de constrangimento ou culpa por isso, existir e andar por aí.

as gordas
Fonte: http8tracks.comaline-valekchega-de-gordofobia

Por isso a gordofobia deve ser debatida dentro do feminismo. O discurso que cria padrões de corpo são um dos mais utilizados para fragilizar mulheres. Desde de nossa infância somos atiradas nessa corrida maluca em busca de um corpo, de um padrão estético por vezes inalcançável. E todo este processo deixa marcas para físicas e psicólógicas que carregaremos por toda nossa vida.

#ProjetoVerão – NO VERÃO 2016 VAI TER GORDA USANDO BIQUÍNI SIM!!!!

#ProjetoVerão – NO VERÃO 2016 VAI TER GORDA USANDO BIQUÍNI SIM!!!!

Basta uma busca no Instagram ou no Facebook pela hastag #ProjetoVerão para nos depararmos com uma infinidade de fotos tiradas na academia, de pratos fit com saladas, batata doce, shakes, suplementos, cápsulas, chás e mais meio mundo de coisas com a finalidade de deixar o corpo “em dia para o Verão”.

Essa pressão que tem o intuito de regular nossos corpos para “não fazer feio no verão” é tão grande, que nos impõem mil formas de emagrecer com tecnologias que não se sabe se fazem bem ou não. Elas são amplamente divulgadas nas redes sociais, em sua maioria por pessoas pouco qualificadas para falar sobre nutrição. Em alguns casos, incitam ao transtorno alimentar, chegando a beirar o absurdo para poder encaixar nossos corpinhos lindos dentro desse padrão estético. Um bom exemplo dessa propaganda é a “homenagem” prestada pelas Lojas Marisa fez em 2012.

 

Quer dizer que para sentir-se bem (para os outros) é preciso sentir-se mal?

A mensagem é clara: Você precisa emagrecer para poder usar um biquíni.

Ou seja, não importa se você sente calor, não importa se você está confortável. O direito de mostrar seu corpo deve ser conquistado, através de dietas, exercícios e qualquer outro procedimento que torne seu corpo a prova de críticas e olhares de desaprovação.

Eu já vi e ouvi algumas vezes que a praia é um espaço democrático. Mas a verdade não é bem essa, pelo menos não para as mulheres.

Homens são alvo de comentários bizarros e zoações, mas isso não chega nem perto do que as mulheres gordas sofrem quando a situação envolve exibir ou não o seu corpo. Isso porque os padrões estéticos impostos a um e a outro são bem distintos. Só para citar um exemplo, homens andam facilmente sem camisa, não só na praia, mas basta fazer calor que muitos deles passam a desfilam com peito e abdomên expostos sem grandes constrangimentos. Enquanto nós, temos que poderar entre sentir calor ou afrontar os outros com a exibição de nossos corpos.

Fonte: https://www.facebook.com/projetodeverao/photos/a.510605582284825.120007.510601692285214/536939132984803/?type=3&__mref=message_bubble
Fonte: https://www.facebook.com/projetodeverao/photos/a.510605582284825.120007.510601692285214/536939132984803/?type=3&__mref=message_bubble

Isso acontece porque nós mulheres somos desde cedo ensinadas a não gostar de nossos corpos. Propagandas, filmes, novelas e a grande maioria do conteúdo da internet passam uma mensagem clara de que só há um padrão de corpo feminino, e se você não obedece a ele, não tem o direito de deixar um pedacinho à mostra. Não interessando nesse contexto o conforto, bem estar e muito menos a auto estima.

Assim, somos levadas a crer que nosso corpo deve ser escondido, uma vez que não satisfaz a estes padrões. Deixamos de perceber que os corpos que estampam campanhas publicitárias não são comuns. Não se parecem com o nosso, com o de nossas mães, irmãs, tias e amigas.

Então, porque temos que nos esconder? Por que temos que cobrir nossos corpos com camadas e mais camadas de tecidos para preservar os outros da visão que eles julgam como inadequadas.
Onde quero chegar?

Que você tem o direito de curtir a praia, a piscina, o calçadão e qualquer outro lugar vestindo o que lhe deixar mais confortável. Pode ser biquini, maiô, shortinho, top ou o que mais lhe der vontade. Não acredite que seu corpo é algo feio e que por isso deve ser escondido. O direito de caminhar pela praia com o que te deixar mais confortável é seu, e não precisa ser conquistado.

Ensaio fotográfico realizado contra o preconceito às mulheres fora dos padrões de beleza impostos pela mídia e em apoio à professora Thaís Oliveira, moradora de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, que foi ofendida por internautas após publicar uma foto de biquíni em sua página no Facebook.
Ensaio feito em apoio à professora Thaís Oliveira, ofendida na internet após publicar uma foto de biquíni em sua página no Facebook.

Quando ser gorda interfere no seu relacionamento com os outros

Quando ser gorda interfere no seu relacionamento com os outros

Eu comecei a engordar rapidamente aos 8 ou 9 anos de idade devido à Síndrome dos Ovários Policísticos. A partir de então passei a ganhar apelidos e sofrer gozações. O que hoje se convencionou chamar de bullying, no meu colégio chamavam de brincadeira. Bem, eu não achava engraçado.

Essa rotina de agressões diárias interfere bastante no modo como você se relaciona consigo mesma e com os outros. Se tantas pessoas, textos, propagandas, novelas e programas de tv falam que há algo errado com o seu corpo, fica muito difícil não acreditar que isso não é real.

Eu sempre andava com os meninos, ficava muito próxima deles, mas não namorava ou ficava. Colecionei relacionamentos platônicos na adolescência.

Haviam horas de conversas, haviam indiretas, haviam comentários, haviam aqueles momentos onde ambos se calam, olhos se encontram e… daí não passava.

http://blogfattitude.com/gordinha-e-o-gordinho/
http://blogfattitude.com/gordinha-e-o-gordinho/

Eu não me sentia atraente, muito menos interessante. E como iria me sentir se eu tinha um mundo apontando para mim como se eu fosse uma aberração? Então, eu ficava naquela dúvida se o carinha tinha algum interesse, se queria ser apenas meu amigo ou se era um escroto que estava tirando onda com a minha cara.

Ah Martha, isso beira a paranóia.

Bem que eu queria que fosse paranóia.

Outro dia eu estava conversando com uma amiga, e ela me contou sobre uma guria que é gorda. Ela passava o dia no whatsapp conversando com um conhecido em comum. O carinha começou a dar em cima dela. Mas ao comentar com outras pessoas do grupo sobre isso, alguns reagiram com incredulidade, enquanto outros falaram que ele provavelmente estaria brincando e passaram a fazer piadinhas.

Nesse momento vários flashbacks vieram em minhas lembranças e me identifiquei muito com essa situação.

Um cenário como esse é preocupante por dois motivos.

O primeiro decorre do abalo na auto estima. Afinal, o que essa menina vai pensar ao perceber que seus próprios amigos não acham possível que alguém possa se sentir atraído por ela? Como não se sentir uma anomalia após se deparar com esta reação?

A segunda é pela impossibilidade dessa moça pedir ajuda em casos de assédio. Afinal, gordas não se enquadram no perfil de vítima ideal deste tipo de abuso. No entanto, não é pouco comum que o assediador se confie nesta incredulidade.

Gordas também não se enquadram no papel de namorada. Mãe e esposa até pode ser, por que se imagina que antes de se tornar uma das duas, com certeza era magra. Afinal, um corpo gordo, segundo o discurso que hoje impera, não pode ser desejado por outras pessoas. E quando isso ocorre busca-se uma justificativa.

Quem nunca ouviu alguém falar que “o importante é a beleza interior”, na tentativa de cortar o papo quando o assunto são os  padrões estéticos?

Desculpa aí, mas não preciso de meia sola para a minha auto estima. Eu já falei aqui que ser gorda não é crime.

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150204_dancarina_peso_sucesso_fn
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150204_dancarina_peso_sucesso_fn

Portanto, dispenso qualquer atenuante para isso.

E outra, também não me venha que não tem problema, que “é bom ter onde pegar”.

Para encerrar essa conversa, meu corpo não existe apenas para a satisfação alheia. Quer pegar/apertar algo? Almofadas, bolinhas de tênis e de silicone estão aí para que você faça isso.

Agora vou ali ser feliz. Beijas.

CONJUNÇÕES ADVERSATIVAS: você é gorda, MAS tem o rosto tão bonito

CONJUNÇÕES ADVERSATIVAS: você é gorda, MAS tem o rosto tão bonito

Precisamos falar sobre gordofobia. Não em sua versão escancarada, nua e crua. Precisamos trazer ao debate os modos em que ela se manifesta de uma forma velada, muitas vezes disfarçada em elogios ou ações de inclusão.

Suponhamos que você vai sair para uma baladinha ou outra programa legal. Toma um banho, ajeita o cabelo, escolhe uma roupa, se estiver afim passa uma maquiagem. Aí quando você está pronta alguém solta a bomba: Você tem o rosto tão bonito…

Era o que faltava para o efeito Sonrisal de sua autoestima dar as caras.

Ah, Martha, então agora até elogio é um modo de manifestar preconceito?
Considerando que geralmente o “elogio” vem acompanhado de críticas indiretas ao seu corpo, sugestões de dietas, fórmulas milagrosas, remédios e exercícios para emagrecer. Sim, isso é gordofobia

É muito comum ouvirmos um “mas” junto a um comentário positivo em relação a uma mulher gorda. Ela é gorda, mas sabe se vestir. Ela é gorda, mas é tão legal. Ela é gorda, mas é tão inteligente. Ela é gorda, mas tem cintura. Ela é gorda, mas quase não tem barriga.

O elogio atenua o crime de não entrar numa calça 38.

super wMas Martha, você tem que reconhecer que as coisas melhoraram muito, hoje temos modelos plus size, a indústria da moda já produz roupas maiores…

Bem, se observarmos não rola essa inclusão toda. Vemos que o corpo da ampla maioria das modelos plus size obedecem ao formato de violão ou ampulheta, muitas vezes devido ao uso de cintas e similares. Não é toda gorda que tem cintura marcada ou tem os traços da grande maioria delas.

Além disto, as grandes marcas de varejo continuam produzindo até o tamanho 46, há marcas que param no 44. Quem usa um número maior precisa recorrer a linhas/marcas específicas, que compram preços absurdos pelas roupas. É a lógica do mercado, se um produto é mais raro necessariamente será mais caro.

Como se não bastasse, a grande mensagem que o seguimento plus size tenta passar é que, mesmo sendo gorda uma mulher pode tentar se vestir bem. Ainda que gorda, ela pode tentar ser atraente. De certo ponto de vista, é um discurso de superação a uma deformidade evidente, onde não há uma mensagem de empoderamento, mas sim de aceitação de algo que é um grande empecilho, mas dá para aprender a conviver.

 A mensagem é clara, já que você é gorda, ache um meio disso não chamar atenção. Seja discreta. Não use roupas justas, dê preferência aos tons escuros e neutros, não use estampas chamativas. E se eu quiser usar tons florescentes? E se eu me sentir bem com uma roupa justa?

            E aí chegamos ao grande desafio, como empoderar uma mulher gorda quando temos um mundo de argumentos com base no discurso estético, da saúde e mais um caminhão de estereótipos?

            Não precisamos de migalhas, nem de concessões em troca de elogios.

Temos que reagir no momento que nos falam que temos um “rostinho bonito” e nos outros em que qualquer adjetivo favorável venha acompanhado de uma “mas” ou um “porém”. O rosto bonito tem uma dona, e vem acompanhado de um corpo. E se alguém não consegue ver a harmonia desse conjunto, não temos o que temer em falar que somos mais que isso. Não hesite em reagir ao preconceito. Se empodere e auto afirme. Seu corpo não é um obstáculo e sua barriga não é uma deformidade. Até porque não existe uma forma padrão de corpo. O ser humano é plural até nisso. Há mulheres mais altas, mais baixas, com cabelo cacheado ou liso, de pele das mais diversas tonalidades…

paul 2Quem disse que esse tom de pele, esse cabelo ou esse formato de corpo é o único que deve existir e ser admirado?

Sim, podemos nos amar. E se um terceiro se incomoda com nossa relação com nossos corpos e vê nosso amor próprio como uma afronta, isso não é um problema nosso.