Ser gorda ou emagrecer? Uma questão que vai além das vontades individuais

Ser gorda ou emagrecer? Uma questão que vai além das vontades individuais

Vez por outra eu me pego olhando no espelho e pensando: “queria perder só mais uns 10 quilos…” e, ao mesmo tempo, tento afastar esse pensamento da minha cabeça, porque como é que eu, feminista que luta contra gordofobia, quer emagrecer e não consegue se aceitar da maneira que é? Ou mais: por que eu, depois de tantos anos sendo gorda, resolvi emagrecer, fazer plástica, me aproximar de um padrão de beleza e agora acho que é fácil chegar e falar sobre gordofobia e lutar para que as mulheres gordas se aceitem? É mais fácil falar quando não se tem esse peso (social) em si… E por isso estão em mim muitas dúvidas que envolvem uma série de questões éticas acerca de qual meu lugar de fala.

 Não quero entrar no mérito da filosofia que discute o que é ética (e acho que nem saberia discutir), mas recorri ao Google pra pegar uma definição pra poder guiar o texto:

ética

A questão da ética é muito ligada à ideia de que existem princípios universais que orientam o comportamento humano e geram uma série de normas sociais. Já é lugar comum afirmar que existe um “padrão de beleza”, que existe uma norma que está ligada à ideia de VALOR HUMANO. E quanto mais a gente se afasta dessa norma, menos valor humano a gente tem nesse caso. Vamos todos pensar agora em uma pessoa aleatória, que você não conhece… Qual o corpo que ela tem? Acredito que boa parte das pessoas que estão lendo esse texto o imaginaram magro.

Então: ser magra é a norma, é o que é disseminado como sendo comum, usual, apesar de que na vida “real”, não encontramos muitas pessoas que estejam dentro dessa norma, então as pessoas vão “perdendo pontos” conosco porque: “ah, ela não tem bunda”, “ela é muito baixinha”, e mais uma série de questões que a gente vai levantando e diminuindo o valor daquela pessoa porque ela não está  naquele ideal que a gente imaginou. E isso é uma questão de padrão de beleza.

A gordofobia vai mais além….Ela foge da norma completamente, ela é o oposto da norma. Pessoas gordas perdem, em inúmeras situações, o seu valor de humanidade. Prova disso é o caso da mulher que não pôde assumir o cargo de professora após passar em concurso público apenas por estar gorda (ela é incapaz por ser gorda?), ou até mesmo em lojas de roupas, que os fashionistas (ou sei lá quem é responsável por fazer as roupas), não fazem numeração acima de 46 e, quando fazem, são roupas que mais parecem sacos.

Então eu volto a questão da ética aqui: QUEM NO MUNDO gostaria de estar fora das normas colocadas na ética? Quem é que gosta de ter seu valor humano diminuído? Seria muito bom, muito simples e muito menos complicado se nós não tivéssemos determinado tantas “questões éticas-corporais” para tratar com pessoas. Será que realmente existe uma “essência” da norma?  E quem não está contemplado por essa essência, fica onde?

 Acho que é nesse aspecto que entra a questão da gordofobia e da vontade de emagrecer e de que a vontade de emagrecer não é apenas individual. Nós nos guiamos, involuntariamente, por um modo de vida que é visto como melhor. E ele acaba se tornando melhor porque acreditamos nisso, porque todo mundo quer nos fazer pensar isso. Então ser magra é melhor, infelizmente. Não é o ideal, porque nunca, JAMAIS alcançaremos o ideal (então pode tirar o cavalinho da chuva achando que sua vida vai se tornar perfeita ao emagrecer), mas não acho que devemos julgar as pessoas que querem emagrecer e que sentem essa necessidade. Ninguém sabe quais as subjetividades daquela pessoa ou quais as necessidades que o mundo foi criando nela.corpo

 Mas também é nosso dever parar de julgar quem é gordo ou diminuir seu valor diante de quem emagreceu ou quem é magro. Se o mundo não tivesse tantas normas que devêssemos seguir para atender ao “bom costume” do que a ética tradicional manda, talvez não precisássemos sentir a necessidade de emagrecer, não é? É por esse caminho que a luta anti gordofobia quer ir: entender que não é uma questão pessoal se sentir mal por ser gorda, mas que isso envolve algo SOCIAL, construído pelos outros e reproduzido por todos nós. Será mais fácil no dia em que ser magra não será ser melhor. E que não existirá um “melhor” ou “pior” guiando nossos corpos e nossas vontades.

Por que magrofobia não existe?

Por que magrofobia não existe?

Sempre que tentamos falar sobre gordofobia, seja na Internet ou fora dela, surge:

“Mas todo mundo sofre!” ou

“Eu sou magra e também sofro”

Quando alguém diz: mas eu sofro magrofobia!

Aí você, gorda, para, respira, e tenta não perder o controle, né? Mas por dentro pensa: “Como alguém ousa dizer que nesta sociedade, gordas e magras sofrem igualmente?!” Com uma visão mais otimista você sabe que se pararem cinco minutinhos logo irão perceber que não. Ser muito gordo (ou pouco também) e ser muito magro levam à pressões e opressões sim. Mas são bem diferentes, em forma, nível e intensidade.

Dentro desta sociedade machista em que somos socializadas, apenas o fato de ser mulher já nos imprime uma carga gigantesca de opressão. E se você é mulher gorda, aí isso só aumenta. Assim, mulheres gordas e magras comungam de uma mesma opressão: o machismo e a pressão estética que dele deriva. Até aí tudo ok. Até aí toda mulher é vítima de uma sociedade que determina como ela deve ser, e a qual padrão ela deve atender. E isso causa dor porque esses padrões são muitas vezes inalcançáveis, e nos leva a passar a vida numa tentativa frustada de conquistá-los.

Desde criança toda mulher é ensinada a se preocupar com o peso, a ser vaidosa, a viver numa batalha diária contra a balança. Até aqui magras e gordas são igualmente vítimas de pressão estética. É essa pressão/opressão que magras sofrem. E em momento nenhum colocamos em dúvida que isso gera sofrimentos e dores na autoestima e no dia a dia dessas mulheres. Mas, diferente do que alguns alegam, não existe um sistema estrutural e sistemática que mina essas pessoas em todas as esferas da sua vida social e profissional, lhes tirando direitos e oportunidades, e é por isso que podemos afirmar que MAGROFOBIA NÃO EXISTE.

Enquanto a gordofobia é uma opressão estrutural, como já falamos algumas vezes aqui, a pressão estética é um aspecto do machismo e de sua reverberação sob a vida das mulheres. Por isso, é triste quando gordas e magras entram numa competição para decidir quem sofre mais e quem merece mais atenção, enquanto poderíamos estar juntas lutando contra o mal maior e que nos oprime igualmente. Nós, gordas, sabemos o quão a gordofobia nos mata dia-a-dia e como temos que combatê-la: primeiro, de uma forma mais subjetiva, aceitando nossos corpos e reconstruindo diariamente nossa autoestima e segundo, confrontando os poderes públicos e a sociedade em geral em busca da garantia do nosso direito de existir e viver. Por isso existe esse movimento antigordofobia.

Entendido? Isso não é uma olimpíada do sofrimento. Quando você ouvir sobre gordofobia não diga que isso é mimimi e que a vida é assim, pois todo mundo sofro. Isso magoa, fere e atrapalha nossa vida. Tenta trabalhar a partir da perspectiva da Empatia, comece assistindo esse vídeo fofo e didático:

Magrafobia não existe, mas estamos aqui para todas as mulheres e pelo fim da gordofobia.

Texto complementar da Revista Capitolina: http://revistacapitolina.com.br/entendendo-diferenca-entre-pressao-estetica-e-gordofobia-sim-ela-existe/

Vídeo:

Quando a gordofobia não fala

Quando a gordofobia não fala

De forma simples e direta, gordofobia é o preconceito contra a pessoa gorda. E é muito fácil identificá-lo quando se escuta frases do tipo: “sai daqui sua gorda nojenta!” ou “você não tem vergonha de estar desse tamanho” ou ainda “você tem um rosto tão bonito, se emagrecesse ficaria linda!”. Algumas falas são mais sutis outras mais explícitas, mas quando se escuta é possível saber que a gordofobia está ali presente.

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Entretanto, dependendo do seu convívio social ou dos lugares que frequenta, nem sempre você vai escutar essas frases assim tão claramente. Então quer dizer que esses lugares e pessoas estão livres da gordofobia? Não! Só quer dizer que nesses espaços a gordofobia não fala. Ela é silenciosa, velada. Mas ainda assim pode ser notada.

Ninguém comenta, ninguém fala nada para você escutar. Mas você sempre sente no ar que em algum momento isso vai acontecer, ou que as pessoas estão falando pelas suas costas (às vezes pode ser que ninguém comente mesmo, mas não é isso que a gente sente). É nesse momento que a gente enxerga e entende como a gordofobia é algo estrutural e cruel porque não precisa ninguém falar nada ou comentar nada, ela está nos olhares, nos gestos, e até mesmo só na nossa cabeça (como muitos nos acusam). E a culpa não é nossa.

Por isso, não adianta você falar que não tem problemas com o meu corpo ou fazer posts antigordofobia nas redes sociais se o seu olhar me diz o contrário. A gordofobia não precisa falar para machucar. Ela está aí nos matando todos os dias, como Marcella explicou aqui.

Nossa, mas agora tudo é gordofobia? Não! Mas o que for a gente vai falar, vai reclamar, vai lutar porque agora estamos juntas, temos umas às outras e temos voz!

A mulher gorda e as mortes cotidianas

A mulher gorda e as mortes cotidianas

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Há uns meses peguei o livro “As Esganadas”, de Jô Soares para ler (lembrando: isso não é uma propaganda do livro, até porque me incomodou o estereótipo da gorda gulosa que ele propõe e mais uma série de coisas), logo no início havia essa frase (que está aí em cima) de Shelley Bovey, escritora do Reino Unido, que me fez relembrar situações que vivi da infância à juventude, coisas que hoje em dia não passo mais, já que não morro diariamente por isto, mas elas são revividas constantemente como se me lembrassem que estou um pouco morta por pessoas e circunstâncias.

Enquanto mulher gorda, nós tentamos traçar nossa rotina normalmente, ir ao trabalho, caminhar, comer,  ir às festas com os amigos… Mas os sinais nos lembram o tempo todo que:

“Ei, você não é normal!”

“Este aqui não é seu lugar”

“Acho que você deveria emagrecer”

Vivemos em uma sociedade feita para e por pessoas magras, brancas, sem deficiência, cisgêneras e isso implica em que outros tipos de pessoas (e convenhamos, somos muitos) sejam excluídas do modelo de vida que foi construído por esse público dominante. É como se nos dissessem o tempo todo que precisamos nos adequar para caber exatamente naquele encaixe, ou caber, no caso da mulher gorda, naquela cadeira de plástico, sem medo de cair no chão, ou para um deficiente físico, que a cadeira dele deve caber naquele lugar específico no cinema, dedicado exclusivamente a ele, quando,  por sorte, existe  acessibilidade. “Fique na sua casa, não saia daí, o mundo não foi feito para você”, a gente ouve silenciosamente o tempo todo quando passamos por algumas situações como:

Pegar ônibus

Sentar ao lado de alguém (quando a pessoa não sai quando você senta), passar na catraca do ônibus e desejar não ficar entalada.

Andar/ correr na rua

O ato de sair de casa parece que incomoda os outros, não é? Só isso explica os comentários gordofóbicos “vê se emagrece” “olha o tamanho daquela menina” “Corre gordinha”, quando se ousa andar na rua. E só entregam aquele panfletinho da Herbalife para quem é gordo, afinal de contas, pressupõe-se que se estamos gordos, logo estamos tentando emagrecer o tempo todo.

Ir pra festas/encontros

Escolher uma roupa para sair já é um problema, isto quando há roupas para escolher, já que o mercado aparentemente só fabrica sacos de batata para quem é gorda, além de que toda pessoa gorda precisa ser rica, por que as ditas roupas plus sizes custam o dobro do preço de roupas lidas como normais. Sair de casa com o(a)s amigo(a)s magro(a)s, tentar paquerar em uma balada, mas você nunca faz o tipo de ninguém ali. Escolher algo pra comer ou petiscar e ouvir comentários de que aquilo vai lhe engordar “cuidaaaaaado! Você não acha que isso é muito não?” “Assim você não emagrece nunca”.

E não, gente, emagrecer NÃO soluciona problemas. O problema são as outras pessoas que criam.

É por isso que as pessoas gordas preferem ficar em casa. É mais confortável ver o mundo passando e sentir-se mais viva que tolerar as pequenas mortes diárias. Mas somos um movimento contra gordofobia, não é? É preciso deixar claro que nos matam diariamente para que tomem consciência do que acontece, mas, como movimento social, sei que é preciso resistir, é preciso sair de casa, viver e lembrar que sim, este mundo é feito para nós e precisamos criar nossos espaços e nos infiltrar em outros para que, um dia, as diferenças entre os seres humanos nos coloquem enquanto HUMANOS e não como anomalias sociais, porque a igualdade de acesso, de respeito e de amor é feita através dessas diferenças. Porque todas as pessoas tem o primeiro e mais necessário direito humano: o direito à vida. Então nos deixem viver, não queremos (e nem permitiremos) sermos mortas diariamente.

Desenho por: Negahamburguer http://www.negahamburguer.com/
Desenho por: Negahamburguer  http://www.negahamburguer.com/
Ser gorda dá trabalho??? E quando a gordofobia é empregada?

Ser gorda dá trabalho??? E quando a gordofobia é empregada?

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Desde 1995 que é  proibido por lei a exigência de “boa aparência”, entre outros pré requisitos considerados descriminatórios, para a candidatura à uma vaga de emprego. No entanto, embora abolida oficialmente, padrões estéticos costumam interferir nas seleções. Basta uma rápida busca no Google que encontraremos facilmente várias matérias onde profissionais de RH apontam a aparência como fator determinante para a contratação ou não de uma pessoa.

Infelizmente, a prática não se restringe ao setor privado. Vários candidatos aprovados em concurso público já tiveram sua posse negada após passarem por uma perícia médica que os considerou inaptos a exercer a função.  Como foi o caso de uma professora de Sociologia, de uma bióloga, e de uma diarista. Todas recorreram ao judiciário na tentativa de garantir as vagas para as quais se classificaram.

Como já tratamos em outros posts aqui no blog, há todo um discurso utilizado em nossa sociedade que associa pessoas gordas à falta de hábitos saudáveis, à patologização, à preguiça e consequentemente à baixa produtividade, enfim, pessoas gordas estão em desconformidade com os padrões estéticos.

E os problemas não param por aí. Após a admissão não são raras as situações onde pessoas (principalmente mulheres) são submetidas a situações constrangedoras que vão desde “brincadeirinhas inocentes” até humilhações explícitas. E basta uma reação para que se invoque o argumento de que aquele ato foi bem intencionado, que o autor estava preocupado apenas com nossa saúde. O que já estabelece um contraponto com o discurso propagado de forma ampla no meio corporativo, de que o pessoal não deve interferir no ambiente de trabalho.

O que é mais pessoal do que o corpo?

Profissionais devem ser avaliados a partir de sua formação, das vivências, experiências que podem de alguma forma contribuir para o desempenho das funções as quais se candidatam. E não pelo gênero, orientação sexual, existência de filhos ou intenção de tê-los, e muito menos pela aparência.

Apresentando a Tia do Feltro e As Gordas

Apresentando a Tia do Feltro e As Gordas

Hoje a gente quer apresentar para vocês uma ideia bem bacana que chegou até a gente. Fernanda, a Tia do Feltro, lá de Campo Grande (MS) faz um trabalho bem lindo. ❤ Bora saber mais?
Aproveita e depois dá uma passadinha lá na página dela!
Fala, Fernanda! 😀

 

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ain que fofa! 😀
“Me chamo Fernanda, sou formada em Artes Visuais, parei de dar aulas para ficar com minha filha. Comecei a fazer artesanato sem saber costurar, aprendendo com uma amiga e acabei criando o Tia do Feltro!
 
Comecei com coisas geeks, desenhos animados, bonecos personalizados, feitos a partir de fotos das pessoas. Os Mini Humanos. Os criei para minha filha levar eu e meu marido, para quando fosse dormir na casa da minha mãe, sentindo menos saudades nossas.
 
Agora com 7 anos, minha filha brincando com suas bonecas, parou e perguntou o por quê de nenhuma ser gorda. Bom, eu sou gorda, e por quê não fazer uma boneca com tamanho e cor real?
 
Fui e fiz a primeira, amei, depois a segunda, e agora estou aceitando encomendas para fazer cada mãe, tia, avó ou cada criança que seja com peso, altura ou cor diferentes das que as empresas fazem.”
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Linda, né?! ❤
Disney, eu também quero ser princesa!

Disney, eu também quero ser princesa!

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Desde pequena, sempre fui apaixonada por filmes da Disney, especialmente os de princesa. Sempre os assisti até saber todas as falas e músicas decoradas, e até hoje, com meus quase 24 anos, são filmes que fazem parte da minha rotina, e tenho sempre um carinho por eles, seja por seus ensinamentos ou apenas pela memória afetiva mesmo.

A primeira princesa foi Branca de Neve, em 1937. O ideal do imaginário feminino, princesa delicada, doméstica, passiva. E, como o nome já dizia, branca. Esse ideário foi repetido em diversas princesas que vieram nos anos seguintes, como Bela Adormecida, Cinderela.

A partir da década de 90, a Disney acompanhando de certa forma os avanços sociais, começou a chamada “Era da representatividade”, onde começamos a ver mudanças na imagem das princesas. E foi aí que começamos a ver indígenas, orientais, árabes. Foi a vez de Pocahontas, Fa Mulan, Jasmine. Uns dez anos depois, veio o “passo mais largo” com a nossa primeira princesa negra, Tiana (d’A Princesa e o Sapo). Além da mudança de imagem, a personalidade dessas princesas também mudou. Elas viraram princesas cada vez mais fortes, que salvavam seus príncipes, que salvavam seu país, que desafiavam os costumes da época. Ponto pra Disney!

Nos últimos anos, vieram as princesas ditas ~feministas~. Merida (Valente) termina seu filme solteira, a lindeza do Frozen fala do amor de irmã ser mais importante que o amor de um homem. Mais uma vez, ponto pra Disney! Mostra que mesmo que a passos lentos, vemos mensagens cada vez mais importantes sendo passadas nos filmes que, admitamos, influenciaram tanto nossa infância e continuam influenciando a vidinha de muitas menininhas por aí – e espero que continue por muitos anos, porque se um dia tiver filhas, quero que elas vejam os filmes da minha infância.

Mas aí você olha pra mim, e fala “Ok Adelis, esse blog não era sobre Disney. Porque você tá dando uma aula de princesas?”. E eu te conto agora mesmo. Por que uma das coisas mais importantes que todas essas mudanças nas princesas trouxeram pra vida foi a representatividade. Foi a menina poder ver no cinema, nos produtos, uma princesa com seu tom de cabelo, com seu tom de pele, com seu nariz.

E o que essas princesas todas tem em comum? Sejam elas brancas, negras, orientais, loiras, morenas? São todas magras. Inclusive, a cada ano mais magras. Mesmo com todo o boom da representatividade, a menina gordinha não vai se enxergar no filme. Ser gorda e ser princesa não combinam, a Disney manda a mensagem. E assim, vai ensinando desde a mais tenra idade que o cuidado com o peso, o olho na balança é uma coisa real!

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O artista brasileiro Edull redesenhou as princesas gordinhas, super modernas!

A gordura é vista como coisa ruim, literalmente. Basta lembrar que os personagens gordos que lembramos são todos vilões. É a Ursula, da Pequena Sereia, a Rainha de Copas, de Alice. Dessa forma, vamo lá perpetuando a mensagem.

Há uns anos, a Disney passou por diversas críticas por, na linha oficial das “Princesas” (linha comercial), além do tradicional trocar de vestidos, todas passaram por um embranquecimento (claro, as que já não eram brancas), e um “embelezamento”: afinaram, passaram maquiagem até na Pocahontas, domaram os cachos do cabelo da Merida. Depois de muitas críticas, a Disney cancelou essa mudança.

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Redesenho criticado das princesas em 2012, em que elas emagreceram, embranqueceram e afinaram os narizes.

Enfim, por mais que eu nunca tenha me sentido visualmente representada, um dos meus exercícios infantis na brincadeira de “ser princesa” era procurar alguma característica que eu pudesse me identificar e me encaixar. Era assim que eu “era” a Bela, da Bela e a Fera, por ela ser uma leitora compulsiva e ser “a única princesa que ganha uma biblioteca de presente”. Era o meu jeitinho de burlar.

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“Minha amiga decidiu dar a todas uma princesa para sua festa temática da Disney, mas eu fiquei imaginando quem eu vou ser, porque eu sou a única gorda que não parece com nenhuma princesa”

Continuo acompanhando os lançamentos, e a próxima princesa será Moana, a primeira polinésia. Mais um avanço na representação! E pela sinopse da história, que sai esse ano, ela vai continuar na linha das princesas fortes, corajosas, decididas (como somos nós, mulheres!). Eu continuo acompanhando e continuo torcendo pra que, um dia, eu também possa ser (ainda mais) princesa. Disney, manda uma gordinha aí!